«Saiam, este relvado é nosso!”

14 de Fevereiro de 2009
Primeiro passo para jogar bem: Reconhecimento dos espaços: de posicionamento, temporização e penetração.

 

Apresentar a bola ao maior número de pedaços de relva deve ser o maior objectivo de uma boa equipa em campo. É o jogo na máxima expressão de aproveitamento dos espaços. Para isso é necessário perceber como o primeiro passo para jogar bem passa pelo correcto reconhecimento dos espaços: de posicionamento (manter o jogo posicional), de temporização (segurando a posse de bola) e, na organização ofensiva, reconhecer os espaços de penetração (detectando brechas na organização defensiva adversária).
 
No passado, pelos anos 60, existia uma equipa uruguaia que gostava de mandar o seu grande capitão, o gato Spencer, provocar os adversários antes do jogo, perguntado: “Desculpem, os senhores trouxeram outra bola? Não? É que esta que está aqui é só para nós e assim vocês quase nem lhe vão tocar o jogo todo!” E virava costas.
 
Quando o Braga entrou em Alvalade não terá feito essa pergunta a nenhum jogador do Sporting, mas depois, durante o jogo, quase a tornou num bem próprio seu. Para isso, porém, o primeiro passo esteve no controlo dos espaços. Ou melhor, no seu entendimento.
 
Os laterais (João Pereita-Evaldo) funcionaram mais em apoio do que em desiquilibrio (como a sua vocação ofensiva lhes pede) e aguentaram a posição mantendo a defesa sempre completa sem bola. Depois, recuperada a posse, Vandinho passou a jogar rápido em vez de correr rápido. A diferença é marcada pela aprendizagem do timing certo do passe de saída na transição defesa-ataque reconhecendo o espaço (linha de passe) para o fazer. Com um pormenor: eram passes verticais. Que faziam a equipa avançar, e não lateralizados, que fazem a equipa parar e especular mais do que jogar. Era então que os médios ala (Alan-César Peixoto) iam embora para a segunda linha, mas só um abria na faixa (o que estava do lado donde a bola entrava) enquanto o outro, no lado oposto, flectia para juntar a equipa. Ou seja, fazia campo grande a atacar, mas tirava-lhe por momentos largura, para atrair os adversários, virando depois rapidamente o jogo.
 
No centro, Luís Aguiar, baixava ou surgia na segunda linha. Com esses três meias reconhecendo espaços de penetração, Renteria e Meyong moviam-se em busca do espaço certo para ter bola ou desmarcar-se. Com a aposta em Meyong (em vez de Mossoró, como frente a Benfica e FC Porto) ganhou mais peso na posse entre-linhas, quando ele recuava sobre uma faixa, e manteve peso na área (notável movimentação sem bola de Renteria, como na recepção do 1-2. Só a recepção é mais do que meio-golo).
 
Entender o relvado e seu jogo de ocupação e aproveitamento de espaços é a chave de tudo isto, cruzando táctica colectiva (o plano de jogo global) com táctica individual (o jogador para entender em cada momento a opção certa de movimentação a tomar). Não basta ter a bola se depois não saber as formas mais correctas de caminhar com ela na relva. A primeira parte do Braga em Alvalade foi a melhor lição para entender o que é uma equipa a reconhecer espaços e timings de jogo. Futebol com bússola táctica.

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