SCUDETTO «2007/08»: O despertar dos monstros

31 de Agosto de 2007
Regressou, renascido das cinzas, o campeonato italiano. Por cima dos «esquelectos» do passado, seis equipas: Milan, Inter, Roma, Lazio, Fiorentina e a nova Juventus de Ranieri. Primeira a análise à nova vida do Calcio.
Ao longo dos tempos, o futebol italiano sempre transmitiu a ideia de estar na vanguarda da abordagem do jogo. Quer nas questões tácticas, quer na capacidade de vender o seu produto, até na noção de espectáculo. Há quem defenda que tudo isto sempre foi uma mentira muito bem contada e o sucedido nos últimos anos terá desmistificado esta perversão da história. Corroído até ás suas raízes, por processos de corrupção, violência e a pobreza de muitos jogos, caiu como o esqueleto em que se tornara. Inglaterra e Espanha passaram a ser as Mecas do bom futebol, no espectáculo, na táctica e nos protagonistas. Mesmo neste cenário, o Calcio conseguiria, no entanto, desencantar das suas entranhas, a selecção campeão do Mundo e, um ano depois, o campeão europeu de clube, o Milan. Trata-se, porém, de outro futebol italiano. Uma elite que mora num palácio à parte. Ainda há pouco tempo, visitando Bérgamo, onde mora o 7º classificado do último Scudetto, a simples aproximação do Estádio do Atalanta causa arrepios. Sujo, decrépito, cheio de grafites de ultras, com arame farpado e bancadas metálicas improvisadas, longe do glamour que La bella Itália gosta de transmitir. O regresso da Juventus á Série A pode simbolizar um renascer das cinzas ou uma nova tentativa de italianização da Europa do futebol, jogo e espectáculo. No mesmo nível, Inter, Milan e Roma. Pode estar a nascer o melhor campeonato italiano dos últimos anos. Pelo menos, no topo. Nas catacumbas, pode esconder as imagens que não vendem. Os seus esqueletos, afinal. Os três gigantes continuam a honrar a sua história estilística. No ataque, cada qual com os seus monstros. O Inter, onde o Imperador Adriano caiu numa crise existencial, lança Ibrahimovic, Suazo, Julio Cruz e Crespo. A Juventus afina a dupla Trezaguet-Iaquinta. No Milan, todos à espera do reciclado Ronaldo, fisicamente lapidado. Enquanto isso, caça golos com a ave de rapina Inzaghi. Como quarto candidato, a matreira Roma de Spaletti. Na estreia, contra o Palermo, sofreu para travar um rato em permanente zig-zag, Miccoli, mas revelou uma astúcia táctica que pode ser decisiva em muitos momentos da época. Principal protagonista: o reforço francês Giuly. Em vez de jogar na sua posição habitual, como extremo puro, alinhou na zona central, nas costas de um falso ponta-de-lança (Totti), num esquema de 4x2x3x1. Com a sua rapidez e liberdade de movimentos confundiu os defesas adversários, pois ora descaia nas faixas, ora fazia trocas posicionais com Totti, ficando em muitos lances como o homem mais adiantado do onze. Toda a Itália é mestre nestes jogos de ilusões, mas por entre todo este labirinto, táctica e imagem, pode estar um novo despertar dos monstros.

A nova Juventus de Ranieri

No microcosmos táctico do futebol italiano, Ranieri até conseguiu ser um treinador, digamos, progressista, em comparação com os conservadores da velha escola. Em 4x4x2, a sua Juventus continua construir os pilares do onze a partir de dois médios de contenção. Distante, para já, da intensidade táctico do Calcio, Tiago ainda não é titular. Buscando segurança, é o experiente Zanetti que emerge como recuperador clássico, entregando ao argentino Almiron (ex-Empoli) as tarefas de transição ofensiva. Tem excelente viso de jogo e velocidade de execução. Nas alas, Nedved continua a partir em diagonais desde a esquerda, e, na direita, talvez o único erro de casting do onze, ao colocar Nocerino em vez de Camoranesi ou Salihamidzic, que surgiu a lateral direito. Com Trezeguet fixo no ataque, a questão reside em saber onde encaixar Del Piero. Primeira opção: como segundo avançado, ficando Iaquinta no banco. Segunda opção: na direita, com liberdade para cair no meio, jogando com a dupla Iaquinta-Trezeguet em cunha entre os centrais adversários. Na defesa, Jorge Andrade-Criscito procuram mecanizar movimentos e na lateral-esquerda, Chiellini é um titular fixo. A «Vechia Signora» está de volta aos grandes relvados do Cálcio.

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