SEGREDOS DE ÁFRICA

19 de Agosto de 2006
LIGA DOS CAMPEÕES AFRICANOS:
Da Europa a África há um abismo de estruturas e aromas a separar estes dois mundos. Em comum, a emoção pelo futebol e como as multidões vivem a Ligas dos Campeões em ambos os continentes. Al Ahly, CS Sfaxien, Kabylie, Asante Kotoko, Hearts Oak, Orlando Pirates, ASEC e Enyimba. Esta é uma viagem pela elite dos relvados africanos e os diferentes estilos do seu futebol, desde a região norte, mais táctico-europeu, até às nações do centro-sul, mais imaginativas.
Concentradas no grupo A, as três equipas da região norte, Al Ahly, Egipto, CS Sfaxien, Tunísia e JS Kabylie, da Argélia, denotam claramente maior cultura táctica em contraste com as demais, vindas da África negra, Asante Kotoko e Hearts Oak, do Gana, Orlando Pirates, da África do Sul, ASEC da Costa do Marfim, e Enyimba da Nigéria. Basta ver poucos minutos para se perceber que embora menos virtuosas ou velozes a atacar, elas controlam muito melhor os diferentes ritmos de jogo. O Al Ahly de Manuel José mantêm a sua estrutura clássica de 3x5x2, apostando em dois laterais ofensivos (Elshater e Shadi) para dar profundidade de jogo pelas faixas, onde surgem, muitas vezes, nas imediações da área em constantes trocas posicionais com os médios interiores Rahman e Sedik. A âncora do onze continua a ser, no entanto, o pivot defensivo Shawky. A equipa está de tal forma mecanizada com os princípios de jogo deste sistema que não sentiu, nos primeiros jogos, a falta do trio atacante Aboutrika, Motead e Barakat. Em permanente movimento, Abdallah e Osama Hosny formaram uma dupla atacante muito difícil de ser marcada, marcando sempre a superioridade frente a um adversário, o Kabylie também esquematizado em 3x5x2, mas com uma excessiva distância entre linhas meio campo-ataque o que deixou os seus avançados Hamza e Dabo muito isolados no ataque. Tal como no Al-Alhly, a âncora do onze também está, no entanto, sobre o corredor central, com o box to box argelino Hamlaoui. Se o Al Ahly é o onze mais forte da chamada África branca, o Enyimba é, no pólo oposto, a mais forte da África negra, campeão em 2003 e 2004. Revela capacidade para, na dinâmica posicional dos jogadores, jogar tanto em 3x5x2 como em 4x1x3x2, com centrais imponentes (Abubakar-Okpara) e um trinco possante (Odita), nas costas de um meio campo e ataque muito virtuoso mas também tacticamente culto a fechar espaços sem bola, tarefa onde se destaca Johnson e, na esquerda, o incansável Adegoke, lutador e dinâmico a transportar a equipa para o ataque, onde estão sempre soltos dois homens, Akueme, Amadi ou Atanda. Sentiu dificuldades, porem, frente ao Orlando Pirates, uma equipa mais cínica que mescla os dois estilos, fechada num 4x1x4x1 sempre com três médios no corredor central (destaque para Okonkwo) e apenas um avançado (Arendse).

Asante Kotoko, CS Sfaxien e ASEC Mimosas

Uma equipa que merece destaque, pelos sentimentos de contraste que o seu jogo provoca, é o Asante Kotoko, campeão do Gana, a nação africana que foi mais longe no Mundial 2006. Os contrastes resultam, por um lado, da forma empolgante como ataca, por outro, da forma desastrada como defende. Joga só com um médio defensivo, Yusif Chebsah, e, na segunda linha do meio revela sempre preocupação em dar profundidade de jogo pelos flancos, com George Yamoah, à direita, e Arhin-Duah, à esquerda, este um jogador muito interessante. É uma espécie de interior esquerdo que executa sobretudo com o pé direito. Possante e tecnicista, marca muito bem a defender e a atacar tem precisão de passe e capacidade de remate, sobretudo em jeito. No mesmo flanco, explode um excelente lateral esquerdo, que também pode jogar a central: Shilla Illiasu, à medida do futebol europeu, está, agora, a treinar à experiência no Arsenal de Wnger, mas ainda não convenceu totalmente o técnico francês. O médio de transição que manda na equipa é, no entanto, o cerebral Owusu-Ansah. O tipo de jogador que quando pega na bola indica ao mesmo tempo com o braço os movimentos a seguir pelos colegas. No ataque, Amed Toure, busca espaços de remate na área. Mesmo partindo de uma postura táctica de 4x1x3x2, defensivamente expõem-se muito aos contra-ataques adversários como se viu no último jogo frente ao CS Sfaxien da Tunísia, uma equipa mais matreira a temporizar o jogo, esquematizada num conservador 4x1x4x1, com o gigante Kouassi sozinho na frente, e o veloz Mouawia a incutir dinâmica pelo flanco esquerdo. A criatividade rebelde e ingénua dos ganeses garantiram-lhe, porém, a vitória por 4-2. Nota positiva também para o ASEC Mimosas da Costa do Marfim, estendida num 4x2x3x1 com dinâmica de 4x3x3, explorando sobretudo o flanco direito com o criativo Kone Emmanuel. A consistência defensiva é dada pelo duplo-pivot defensivo Arthur-Kouame, posicionado sempre em mais adiantado para pressionar alto, nas costas do playmaker Ya Didier, enquanto o ponta de lança Konan desgasta os centrais adversários. Uma estratégia mecanizada que bateu o Hearts (3-0).

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