SELECÇÃO SUB-21: A JOVEM CORTE DO FUTEBOL ESPANHOL

9 de Novembro de 2001
Falar da selecção espanhola Sub21 é falar dos novos conceitos técnicos e tácticos que, a partir de fins dos anos 80, começaram a moldar a nova geração do futebol espanhol. Nos pés de chicos como Xavi, Vicente e Joaquín esconde-se o perfume do renovado fútbol hispânico, aquele que renegou a fúria e adoptou a arte. Este é o retracto de uma selecção com assinatura própria.
Desde que, em meados dos anos 80, despontou em Madrid a memorável Quinta del Buitre, o futebol espanhol nunca mais voltou a ser o mesmo. Inspirado na arte de Butragueño, uma nova geração cresceu à luz de outros conceitos técnicos, distintos da redutora ideologia estilística da Fúria, que até então, e durante largos anos, definiria o estilo hispânico.
Após anos de hesitações, entre a velha fúria e as novas tendências virtuosas, a década de 90 consagrou o novo design técnico e táctico do fútbol espanhol. Uma nova ideologia que, num projecto global, começou a ser congeminada desde as camadas jovens.
 
Apesar do nome mais em destaque ser hoje o do seleccionador Inaki Saez, o alquimista que esteve no leme dessa mudança chamou-se Juan Santiesteban, uma espécie de pai para a maioria das jovens estrelas espanholas. Trabalhando sobretudo na base, até aos Sub-17, Santiesteban, antigo jogador do grande Real Madrid dos anos 50, é o principal artífice da nova mentalidade do jogador espanhol, que quando ainda chiquito sai das suas mãos para os escalões etários seguintes, já vai imbuído de um evoluído espírito técnico, táctico e mental, decisivo para a sua entrada no mundo profissional.

IÑAKI SAEZ: UMA OBRA DE CINCO ANOS

É neste espaço de transição juniores-seniores que se move Iñaki Sáez, máximo responsável das selecções jovens desde 1996, momento em que por indicação de Clemente, seu velho amigo de Bilbao, substituiu no cargo Goikochea, anterior seleccionador.
No seu passado repousa uma vasta experiência como coordenador do centro de formação de Lezama, a cantera do Ath.Bilbao, tendo ainda treinado Las Palmas e Albacete para além da própria equipa de Bilbao em situações de transição. Na selecção, formaria, a partir de 2000, uma dupla notável com Camacho, o chefe das selecções. Juntos adoptaram um estilo de jogo único que se estende desde os Sub-20 até à selecção principal: um 4-4-2 dinâmico, com um triângulo ofensivo a meio campo, formando o chamado o rombo, como dizem os espanhóis, para furar as defesas adversárias. O seu maior feito foi a conquista do Mundial Sub-20 em 1999 na Nigéria. Muitas das estrelas desse onze formam agora a base da selecção Sub-21 na qual jogaram, durante a fase de apuramento, vários elementos dessa inesquecível equipa, entre eles Xavi, Gabri, Pablo, Aranzubia, Jusué e Bermudo.
 
Depois de longas décadas sem um claro padrão de jogo, hipotecados à tradição da fúria, mais um estado de espírito que um estilo, as selecções jovens espanholas revelaram, durante muito tempo, pouco poder competitivo técnico e mental. Os anos 90 trouxeram a revolução que teve como glorioso arranque a medalha de ouro olímpica de 1992, com um empolgante onze Sub23 onde brilhavam chicos fantásticos como Kiko, Guardiola, Alfonso, Ferrer e Luís Henrique. Os novos talentos formaram-se, assim, com outra mentalidade.
Quem vê jogar a selecção Sub-21 do presente, encontra já uma equipa madura, adulta no plano técnico e táctico, actuando em 4-4-2, o sistema base de todas as selecções espanholas, sempre com grande personalidade, espelhando a experiência e a estatura futebolística da maioria dos seus jogadores, todos eles já a competir ao mais alto nível nos seus clubes.

Defesa: O Patrão Marchena

Na baliza, Sáez, depois de Reina ter perdido a titularidade no Barcelona, aposta em Aranzubia, guarda-redes do Ath.Bilbao, um gato das redes.
 
Entre os defesas emerge um nome conhecido dos relvados lusos: Marchena, ex-Benfica, hoje no Valência, onde revela grande segurança, nas marcações e no passe, subindo muitas vezes no terreno quando a equipa ataca. A seu lado, no sector defensivo, moram Jusué, central com grande sentido posicional, Bermudo, defesa esquerdo que gosta de iniciar as jogadas de ataque, Coira, defesa direito do Celta, muito rápido e, entre outros, Boris, lançado por Luis Aragonés no Oviedo em 99/2000, um grande talento no centro da defesa, muito personalizado.

A ESPANHA NO EUROPEU-SUB 21:

PALMARÉS
 
EURO-90 QUARTOS-FINAL
 
EURO-92 1ªFASE CAMPEÃO
 
EURO-94 TERCEIRO LUGAR
 
EURO-96 VICE-CAMPEÃO
 
EURO-98 CAMPEÃO
 
EURO-2000 TERCEIRO LUGAR
 
Organizado desde 1990, o Europeu Sub-21, como a maioria dos torneios jovens, tem sido dominado sobretudo por selecções latinas, entre as quais a Itália, que com 3 vitórias (94, 96 e 2000) emerge como a grande potência. Um domínio aumentado após o eclipse dos países de leste, como a URSS, primeira campeão europeu Sub-21, em 1990, numa final a duas voltas contra Jugoslávia (2-2 e 3-1).
Após duas edições sem passar os quartos de final (em 1992 caiu logo na 1ªfase e em 1990 foi eliminada pela Itália nessa fase) a selecção espanhola defrontaria Portugal na meia-final de 1994. Era a equipa de Karanka, Garcia Sanjuan e Gálvez, incapaz no entanto de vencer a geração de ouro lusa, vencedora por 2-1.
 
Em 1996, a Espanha chegaria pela primeira vez à final do Euro-Sub-21. O adversário seria de novo a Itália, onde brilhava então o jovem Totti. O resultado final seria 1-1, tendo os espanhóis sucumbido apenas na decisão por penáltis, quando Raul e De la Peña falharam ambos os seus remates. A linha espanhola nesse jogo foi: Mora; Aranzabal, Santi, Roberto, Corino, Sáenz, Idiakez, Mendieta, De La Peña, Lardin, Raúl. As estrelas estavam a nascer.
Em 1998, ano em que o torneio teve como sede a Roménia, a Espanha conquistaria, já sob a orientação de Iñaki Sáez, o seu primeiro título europeu da categoria, batendo na final a Grécia (1-0, golo de Iván Pérez) após afastar nas rondas anteriores Rússia e Noruega, ambas também por 1-0. O histórico onze dessa final foi: Arnau; Garcia Calvo, Álvarez, Marcos Vales, Felipe Guréndez; Valerón, Benjamin e Guerrero; Ivan Pérez e Roge.
 
Em 2000, com figuras como Angulo, José Mari e já algumas mundialistas Sub-20, como Xavi e Gabri, terminou em 3º lugar, após bater a Eslováquia por 1-0, num torneio onde todos as mentes já estavam nos Jogos Olímpicos de Sidney.

JOGADORES UTILIZADOS NO APURAMENTO EURO-2001

JOGOS/GOLOS
 
GUARDA REDES
 
ARANZUBIA(ATH.BILBAO) 5/0
 
REINA(BARCELONA) 3/0
 
DEFESAS
 
COIRA(BARCELONA) 4/0
 
BERMUDO(TENERIFE) 6/0
 
JUSUÉ(OSASSUNA) 6/0
 
MARCHENA(VALÊNCIA) 6/0
 
BORIS(OVIEDO) 4/0
 
ORBAÍZ(ATH.BILBAO) 8/0
 
DEL HORNO(ATH.BILBAO) 2/0
 
GASPAR(VALLADOLID) 1/0
 
MÉDIOS
 
VARELA(BÉTIS) 4/0
 
JOAQUÍN(BÉTIS) 4/0
 
XAVI(BARCELONA) 6/1
 
GABRI(BARCELONA) 5/0
 
COLSA(AT.MADRID) 6/3
 
YESTE(ATH.BILBAO) 6/1
 
GALLARDO(SEVILLA) 2/0
 
AVANÇADOS
 
VICENTE(VALÊNCIA) 5/1
 
PABLO(IPSWICH) 7/5
 
AGANZO(ESPANHOL) 5/1
 
XISCO(TENERIFE) 4/0

Meio-Campo: O Maestro Xavi

A meio campo, surge, à frente da defesa, o farol da equipa: Xavi, o pequeno Guardiola, o maestro que com apenas 21 anos já é o cérebro do Barcelona. Todo o jogo do onze passa por ele, um grande talento.
 
Em seu torno giram as outras figuras do sector, como Orbaiz, médio centro defensivo, formado no Osasuna; Colsa, um lutador, formado no Santander, hoje no At. Madrid; Yeste, do Ath.Bilbao, um dos melhores feitos da cantera de Lezama nas últimas épocas. Esquerdino nato, com ele a equipa joga a toda a largura do campo; Gabri, um polivalente formado no Barcelona. Corre quase todos os postos, desde lateral direito a médio para depois surgir, muitas vezes na área, pronto a rematar à baliza. Junto com Xavi é uma das almas da equipa; Varela, um médio direito mestre a esconder a bola e Joaquín, interior direito de grande técnica, um artista que lê o jogo, ambos produtos da cantera do Bétis e como tal virtuosos descendentes da escola de técnica andaluza.

Ataque: Os golos de Pablo

No ataque, destaque para Vicente, extremo esquerdo do Valência, grande revelação da época passada, uma pérola que resgata a imagem dos extremos à moda antiga. Foi internacional A com apenas 19 anos. É um daqueles jogadores por quem se apaixona logo à primeira vista; Aganzo, jogador do Espanhol mas ainda ligado ao Real Madrid, um misto de garra e habilidade que apesar de não ser muito alto vai bem de cabeça; Guayre, um fenómeno do Las Palmas, muito elegante, forte fisicamente e com uma técnica alucinante e Pablo, um avançado centro que gosta de procurar a bola, o melhor marcador da equipa na fase de apuramento com 5 golos. Pelas diagonais que fez vê-se facilmente que tem escola. Esta época transferiu-se para o Ipswich. No futebol inglês, no entanto, revela algumas dificuldades no choque, já que o jogo de cabeça não é o seu forte e por isso tem sido segunda opção na Premier League.
 
Estes são os chicos que irão desafiar Portugal. Uma selecção de grande carácter e talento que só poderá ser batida usando grande concentração procurando impedi-la de pensar. Algo difícil quando se tem maestros como Xavi, artistas como Joaquín e Guayre, e na frente, um furacão como Vicente.

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