É, talvez, o melhor case study deste Mundial. A Alemanha: Pode uma equipa crescer a partir da ausência do seu melhor jogador? O elemento ausente, antes o mais influente na manobra do onze, era Ballack, lesionado poucas semanas antes. Seria essa sua influência, afinal, mais do que a força, também o princípio das fraquezas da equipa, no sentido de travar o seu crescimento através de outros jogadores? Pode ser. Porque era muito difícil Ozil, Muller ou até Khedira terem um papel tão importante no conjunto do que teriam com Ballack no onze e a jogar/mandar no seu corredor central. No fundo, sem Ballack, sucederam duas coisas. Primeiro: estimulou-se a agilidade táctica do treinador Joachim Low para construir outras soluções tácticas e de jogo; Segundo: outros jogadores sentiram-se muito mais importantes na equipa quando antes viviam na sombra da sua estrela maior. Estes dois factores (colectivo e individual, táctico e mental) redimensionaram a equipa para outros níveis.
Low manteve o 4x2x3x1, mas sem Ballack, os membros do «2x1» do corredor central ganharam maior protagonismo box-to-box (de área-a-área) ao ponto da dupla Schweisteiger-Khedira personificar hoje a melhor explicação de como jogar com duplo-pivot não significa, por inerência, jogar com um princípio de jogo defensivo à frente da defesa. Poderosos (física e tacticamente) ambos sabem marcar o seu espaço táctico de origem e, depois, sabem sair a jogar, com classe e visão, queimando linhas e lançando a equipa na organização ofensiva, onde, no mesmo eixo central, surge, numa segunda linha, Ozil, com liberdade para deambular entre a faixa e zonas interiores, em busca do melhor espaço/movimento para entrar na defesa adversária. É difícil imaginar tudo isto com Ballack sendo um dos elementos desse trio. A sua presença iria, para o bem e para o mal, ofuscar esta inter-ligação tão perfeita, na qual, perto da área, surgem os alas em diagonal, sobretudo, vindo da direito, o veloz Muller (na esquerda, Podolski está mais vertical).
Ou seja, todos os jogadores sentem-se importantes na equipa. A Alemanha é, hoje, o melhor exemplo de um «ego colectivo» em movimento.
Meio-campo sem médios
No fim, semblante fechado, Maradona disse que se sentia como se tivesse “levado um soco de Muhammad Ali”. A sua Argentina acabara de ser trucidada pela Alemanha (0-4) e o pibe ainda não percebera, afinal, o que tinha acontecido à equipa. E a explicação para o sucedido era simples: é impossível ganhar (ou tentar ganhar) um jogo sem médios.
Pensou-se que podia ressurgir Veron e, assim, a equipa ganhar maior consistência no meio-campo. Maradona manteve, no entanto, a mesma equipa, num desequilibrado 4x1x3x2 onde o único elemento natural do meio-campo era o «1» (Mascherano) á frente do «4» da defesa composta por quatro centrais, dois deles adaptados a laterais (Otamendi e Heinze). Desta forma, com Di Maria aberto na esquerda e só Maxi Rodriguez procurando auxiliar por dentro, a equipa partiu-se na transição defensiva, expondo depois as linhas recuadas às entradas desde trás das locomotivas germânicas. Na transição ofensiva, só quando um dos avançados (Tevez ou o próprio Messi) baixavam para pegar na bola é que a equipa criava a ilusão de estar a construir jogo desde trás. Um plano que viveu sobretudo quando os jogadores estavam no túnel e Maradona os beijava uma a um. Depois, na relva, ficava só o lado emocional. Curto, num Mundial.