Um homem, no entanto, vivera esta aventura poliltico-desportiva num plano superior, concentrado na sua paixão pelo futebol: Sepp Herberger, uma espécie de eremita do futebol por entre uma nação tresloucada pela guerra. Indiferente á política, diplomara-se Instrutor de Futebol pelo Instituto Germânico de Educação Física de Berlim, assumiu o comando técnico da selecção em 1936, substituindo Otto Nerz, do qual fora adjunto desde 1932, e que liderara a NationalManschaft nos dez anos anteriores, desde 1926, até ser afastado após uma humilhante derrota frente á Noruega nos Olímpicos de Berlim. Durante o seu reinado, o futebol alemão, carente de uma identidade, nunca se tornou uma grande potência, sendo o melhor que conseguira um terceiro lugar no Mundial-34, após derrotar a Áustria de Sindelar, por 3-2. Ao longo de 30 anos, desde que em 1908 realizara frente á Suíça, derrota por 5-3, o seu primeiro jogo internacional, a Alemanha nunca conseguira, no entanto, formar uma selecção capaz de exibir em campo a qualidade do seu futebol, cuja implantação no território teutónico datava já de princípios da década de 1870.

Desde o primeiro momento que assumiu os destinos do futebol alemão, Herberger tinha na mente criar-lhe um estilo próprio. Uma identidade que os destinguisse dos demais. Em meados dos anos 40, finda a guerra, o homem que se tornaria uma das figuras mais populares do futebol germânico, tinha a missão de, dentro dos relvados, recuperar a imagem de um país que toda a Europa ainda via como uma ameaça. No passado de Herberger estava, porém, a fama de muitas vezes ter chamado á Nationalmanschaft jogadores que não precisava só para os livrar do destino da guerra. Sabia em que batalhões estavam, chegou a convocar mais de 30 jogadores por jogo, num tempo onde não se podiam fazer substituições e ganhou o respeito e admiração de todos eles. Era um grande estudioso do comportamento humano, que sabia gerir com uma subtil mestria as diferentes sensibilidades. Só assim seria possível ultrapassar o tempo de guerra sem ser beliscado no seu prestígio. Depois de ser visto como o treinador do regime nazi, passou a ser visto, finda a guerra, como o treinador da recuperação alemã. Suspensa pela FIFA, a Alemanha esteve ausente do Mundial-50 (o único em toda a sua história). Entretanto, Tio Sepp, como ficou famoso no seio do futebol alemão, congeminava a nova identidade germânica. Tacticamente, como morfologicamente estavam muito próximos dos ingleses, com uma constituição física semelhante, adoptou o clássico WM de Chapman. Acrescentou-lhe, no entanto, uma dura marcação individual na defesa –a temível madeckung- regente de um estilo baseado na condição física, rigor táctico e potencial atlético. O embrião do futebol-força numa era em que o mundo idolatrava o técnico e artístico futebol da Hungria.

Embora sem grande passado como jogador, Herberger fora um médio influente em equipas como o Waldhof e o Tenís Borussia Berlino, onde findou a carreira, após realizar três jogos pela selecção alemã. Mas, mais do que jogar, a sua paixão estava em estudar o futebol e desbravar os seus segredos tácticos e técnicos. Diz quem o conheceu que era um homem cativante que tratava os jogadores com grande familiaridade, longe do estilo semi militar que imperava na época. Apenas era intransigente num aspecto: nenhum jogador poderia fumar ou beber álcool quando concentrado com a equipa. Num tempo em que não havia televisão e as noticias demoravam dias a chegar, passava muito tempo a viajar pelo mundo observando os vários estilos de futebol, tornando-se em pouco tempo numa verdadeira enciclopédia futebolística viva. Por isso o austríaco Hugo Meisl, que o conhecera numa das suas visitas a Viena, dizia que no mundo só existiam três pessoas que sabiam verdadeiramente de futebol: ele próprio, claro, o seleccionador italiano Vitorio Pozzo e o alemão Herberger, nessa altura sem créditos no mundo do futebol internacional. Decidido, Herberger reconstruiu com as suas mãos, todo o edifício do futebol alemão, lançando as bases técnicas e tácticas sobre as quais ainda hoje ele caminha, 50 anos depois. Para o fazer reuniu um grupo de homens com um carácter inquebrantável, liderado por Fritz Walter, um maestro do meio campo. Pequeno para a estatura gigante dos germânicos, evidenciava, no entanto, uma capacidade física invulgar para a época. Rezam os registos da época, que, quando jogava, o meio capo era todo dele. Estava em todo o lado, e depois executava passes, curtos ou em profundidade, com uma precisão notável. Quando chegou á Suíça para disputar o Mundial-54, a Alemanha não estava, no entanto, entre as grandes favoritas. Todos os olhos estavam virados para a selecção da Hungria, invencível há três anos e que iria defrontar a Alemanha na ronda inaugural. Como eram apurados dois de cada grupo, Herberger não dera muita importância ao facto e assim, claramente superior á Coreia do Sul e Turquia, as outras equipas do grupo, fez alinhar no jogo contra os húngaros uma selecção de reservistas, colocando em repouso 5 titulares, entre eles os avançados Ottmar Walter e Schafer. Inclementes, os húngaros golearam por 8-3! Herberger ganhara, no entanto, uma mais valia enorme. Ficara a conhecer melhor a selecção da Hungria, fizera descansar os seus homens e deixara os húngaros convencidos da sua superioridade. O grande golpe surgira, porém, com a impiedosa marcação individual movida por Liebrich sobre o grande Puskas, massacrado todo o jogo pelo duro alemão que, num lance dividido, teve uma entrada duríssima, provocando-lhe uma lesão que o impediria de actuar nos jogos seguintes.

Entretanto, a Alemanha retomara o seu caminho e após bater a Jugoslávia, 2-0, e Áustria, 6-1, iria reencontrar, duas semanas depois, na final, os incríveis húngaros, que, espantados, encontrariam, desta vez, uma selecção germânica totalmente diferente. Apenas seis jogadores do onze presente no primeiro jogo estivam na final que, jogada sob chuva, num terreno pesado diria claramente ao mundo as leis que a força física iria, no futuro ditar na evolução do futebol mundial. Apesar de estar a perder por 2-0 aos 8 minutos, os teutónicos, nunca se desconcentraram, dando a primeira demonstração da sua invulgar força mental, jamais renunciando á luta, jogando sempre da mesma forma decidida e altiva seja qual for o resultado. Imperturbáveis, a jogar perante cerca de 30 mil alemães, reagiram e aos 18 minutos estava 2-2, com golos de Morlock e Rahn. Sem tempo e espaço para explanar a sua técnica, os húngaros, com Puskas a coxear o jogo todo, sofreriam o 3-2, de novo por Rahn, aos 84 minutos. Dez anos após o final da guerra, a Alemanha, cuja economia começava a levantar a cabeça, era campeã do mundo de futebol. Uma vitória aproveitada pelo Chanceler Adenauer para falar ao mundo do novo país que dizia construir, longe de ser uma ameaça á paz mundial, mas vocacionado para o trabalho, com o mesmo dinamismo da sua selecção de futebol. Seriam muitos, porém, a procurar desvalorizar este triunfo germânico. A lesão de Puskas, um golo aparentemente mal invalidado aos húngaros no jogo da final que daria o 3-3 e, sobretudo, uma forte suspeita de uso de substâncias proibidas. Dizia-se ter sido o sucesso do doping, um monstro então ainda pouco conhecido no desporto mundial. Um facto, porém, é indesmentivel e ajuda a suportar a tese do doping: poucas semanas depois da final seis jogadores da selecção alemã, Turek, Kohlmeyer, Librich, Mai, Otmar Walter e Morloch, seriam vitimas de um forte ataque de icterícia que os levou a ter de parar de jogar. O próprio Herberger se sentiria mal e passaria várias semanas internado para uma cura especial no retiro hospitalar de Bad Mergentfeim. Nunca nada seria provado. Ficou a suspeita, só por si injusta para a memória de Sepp Herberger, um homem fabuloso e um treinador de futebol com conceitos físicos e técnicos avançados no tempo. No plano mental, era um grande motivador. Com ele os alemães, tradicionalmente frios, aprenderam a soltar as suas emoções. Mais do que um simples treinador, foi um pai e um psicólogo para um futebol e um país ferido no seu orgulho.

Apesar de continuar na vanguarda dos conhecimentos futebolísticos, Herberger não conseguiria, no entanto, repetir nos Mundiais de 58 e 62, o sucesso de 54 Sepp Herberger estivera um quarto de século, entre 1936 e 1962, á frente da NationalManschaft. Durante todo este tempo conservou sempre o mesmo olhar pleno de esperança. Como jogador só jogara três vezes com a camisola nacional, mas como treinador seria eternizado como o fundador da dinastia táctica alemã, o homem que moldou o estilo do futebol alemão, cuja força mental se espelha ainda nos suas estrelas de fim de século, como o fabuloso Lotthar Mathaus para quem um alemão jamais se desconcentra. Ele nunca é batido. É uma questão de mentalidade, de orgulho e vontade. Diante da adversidade e das circunstâncias difíceis, ele supera-se. É essa a sua grande força! Em 1977, depois de uma vida dedicada ao futebol, Herberger morria, em, com 80 anos. Sorveu futebol até ao último minuto. Conta-se que, durante os seus últimos anos de vida, era costume receber em sua casa jogadores e técnicos que, cativados pela sua figura, ficavam horas, enquanto bebiam café e comiam bolos, a ouvir o mestre contar histórias de futebol, ensinamentos preciosos para, em qualquer época, entender a evolução do futebol.