É, talvez, das sensações mais enigmáticas. Porque algumas pessoas são capazes de realizar mudanças verdadeiramente fantásticas, mudando tudo o que as rodeia, e outras não. Penso, nesta reflexão, em treinadores de futebol. E ela nasce porque também reconhecemos a muitas dessas outras pessoas (treinadores) competência profissional elevada. Ou seja, porque é que alguns, poucos, são especiais, e outros não. Se procurarmos uma razão muito lógica, não se encontra uma resposta óbvia. Ser especial é algo que transcende o entendimento do comum dos mortais futebolísticos. O seu impacto traduz-se, em campo, na passagem de um estado para outro (dimensão competitiva da equipa e conquistas de títulos) saltando a linha de evolução mais natural. Provocam antes uma alteração explosiva e brusca.
Na história, o futebol tem algumas dessas personagens. Poucas. Villas-Boas pertence a essa casta. Normalmente, todos estes seres especiais (como Herrera, Cruyff, Clough, Mourinho, Michels, noutros locais e tempos) têm em comum não pertencerem a nenhum grupo, têm vida/filosofia própria, são indomáveis, outsiders permanentes. É esse desejo de viverem fora do mundo normal que os move, como se fosse um motor profissional emotivo.
Teria Villas-Boas conseguido o mesmo sucesso noutro clube português? Claro que não. Mas teria o FC Porto conseguido o mesmo com outro treinador? Claro que não, também. Porque essa combinação especial é rara. Como Mourinho ou Villas-Boas, no mesmo local, explicaram nos últimos tempos. Em mais de 30 anos de domínio portista, só esses dois treinadores conseguiram tornar-se maiores que o clube nos feitos alcançados. O único ponto em que um clube se deve preocupar, quando tem um desses seres especiais, é em dar-lhe todas as condições para ele criar esse impacto. E tentar aguentá-lo o maior tempo possível. Essa parte, porém, já é mais difícil. Incontrolável.
O mercado, como o conhecemos no seu funcionamento normal, mudou em 2004 com a entrada nele de dinheiro estratosférico vindo de fora do seu até então circuito normal. O aparecimento de Abramovich e da oligarquia que o suporta, origem desse novo dinheiro, adulterou o normal funcionamento dos maiores negócios/transferências. Depois dele, surgiram as fortunas árabes. Dinheiro fora do gerado naturalmente pela indústria futebol, irrompeu dentro dela e tornou-se numa bomba relógio invisível que pode explodir a qualquer momento. Isto é, se antes, com as normais direcções dos grandes clubes, essas movimentações tinham processos de evolução naturais, agora, com estes novos magnatas, isso é impossível de prever. A qualquer momento, tudo muda. Até as juras de amor mais profundas. A insustentável leveza dos seres futebolísticos fica, num ápice, exposta. Depois de um grande êxito internacional, pensar que o financeiramente frágil futebol português e seus exemplares de sucesso (treinadores e jogadores) poderiam ficar impermeáveis ou insensíveis a tudo isto, é viver fora da realidade. Uma guerra perdida.
