SHEVCHENKO: A ESCOLA DE ARTES DE KIEV

26 de Dezembro de 1999
Desde os anos 70, três gerações de talentos sublimam o laboratório de Lobanovsky. Depois do tempo de Blokhine e Belanov, explode o caça-golos Shevchenko, o novo símbolo do futebol ucraniano, já na rota de Milão.
Quando perguntaram a Toshack onde pensava passar a reforma, o galês respondeu "como Lobanovsky, no banco". Na mente do técnico do Real Madrid estava um sentimento de profunda admiração e fascínio por um homem que durante décadas moldou a imagem e o sistema do científico futebol de Leste. Uma vida a pensar o futebol do Dinamo Kiev, um espécie de Ajax da Ucrânia, outrora parte da grande URSS, que também geriu por alguns anos. Pelo laboratório do glacial Lobanovsky, hoje sexagenário, passaram os últimos 25 anos do futebol ucraniano. Alguns anos e quilos atrás, nos anos 70, surgiu como líder da virtuosa equipa de Kiev, onde brilhava Blokhine, Onitchenko e Kolotov. Nos anos 80, a segunda geração abrigou cobras como Belanov, Zavarov e Mikhailitchenko; Hoje, anos 90, a terceira geração brilha com Rebrov, Popov e, sobretudo, Shevechenko, para Lobanosky o melhor jogador do mundo, embora distinto dos símbolos do passado. Blokhine era um artista temperamental, Belanov vivia da velocidade, Schevchenko é um finalizador com invulgar instinto goleador e sentido de desmarcação, o clássico predador dos espaços vazios que vive nos últimos 30 metros do campo.
Como outras estrelas ucranianas, começou numa equipa de um bairro de Kiev. Jogados com a paixão de quem sente poder mudar o mundo, os torneios juvenis, são sempre seguidos pelos atentos olhares dos caça-talentos. Foi assim que um dia, Chpakov, um desses olheiros, descobriu um miúdo que logo lhe saltou à vista, tal a forma decidida e imaginativa como tratava a bola. Astuto, de imediato o convidou a integrar a escolas do Dínamo. Esse menino, então com dez anos, era Andrei Shevchenko. Hoje ele é o símbolo da nova geração ucraniana, orfã da pátria dos sovietes.
Diz quem o viu nascer que retém o mesmo deslumbrado olhar azul claro, acompanhado de um sorriso tímido e alegre. E, de facto, é essa a imagem que salta nos grandes planos, quando, agora frente a multidões, Shevchenko recebe a bola na área adversária. A face denota os mesmos traços de menino, mas o seu futebol tornou-se, entretanto, uma referência quando se fala em grandes pontas de lança.
Uma ascensão pausada que o coloca hoje, com 23 anos, sem o desgaste de outros fenómenos meteóricos, na rota do milionário Calcio, seduzido pelo seu estilo, que, segundo Altafini, lembra VanBasten. Shevchenko não tem, porém, os mesmos gestos de bailarino do holandês, que corria apoiado nas pontas dos pés. Essa menor elegância física é no entanto compensada com um maior índice físico que o torna muito resistente no choque com os defesas contrários. Segundo Szabo, selecionador ucraniano, os seus testes físicos são quase sempre os de maior nível. "Tenho trabalhado muito para aumentar a minha velocidade e resistência. O talento não é nada se não for trabalhado e desenvolvido, mas também se ele não existir podes andar a correr à volta do campo durante três dias que não vais a lado nenhum”, conta Shevchenko.
A razão da paixão de Lobanovsky por "Sheva" não reside apenas no talento individual, mas antes na forma como o coloca ao serviço do colectivo. Se lembrarmos que no auge do período Ronaldo, o velho lobo disse que preferia antes ter Shevchenko, porque ele ao contrário do brasileiro sabe que na equipa existem mais dez jogadores e não necessita de um latifúndio para brilhar, entende-se melhor o sentido da sua douta opinião.
Ainda há poucos anos o caminho que hoje toma a carreira de Shevchenko era utópico para os talentos soviéticos, impedidos de saltar a fronteira para exibir o seu futebol no mundo ocidental. Um facto que gerou grandes equipas e selecções, mas que lhes vedou um maior reconhecimento internacional, tal era a quantidade e a qualidade de valores que o leste futebolístico possuía. O Dínamo Kiev de Lobanovsky foi e continua o seu símbolo máximo.
Apesar da metamorfose política, o seu sistema de jogo, automatizado e ao primeiro toque, permanece intacto. Shevchenko pode, no entanto dizer, ao invés dos seus antepassados futebolísticos reféns do colectivo como valor supremo, que a sua obsessão é "marcar a história do futebol e ser melhor do mundo". Um sonho para a vida, onde não aprecia entrevistas, preferindo antes reflexões introspectivas que por vezes revela, como quando confessou que "o essencial para um homem é lutar pelas seus ideais, para uma mulher é amar e compreender." Andrei Shevchenko, um poeta do romântico futebol ucraniano, em breve filosófica estrela goleadora do Milan.

SHEVTCHENKO / GOLOS

 
DINAMO KIEV, de 95 a 99: Campeonato 102 jogos 49 golos
Europa 27 jogos 18 golos
Selecção 22 jogos 6 golos
 

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