Faz agora exactamente vinte anos que um homem gordo, com os botões da camisa sempre a ameaçarem arrebentar a qualquer momento, irrompeu no futebol espanhol como um furacão. Era Jesus Gil e Gil. Chegará lá como presidente do At.Madrid e o toque de Midas deu-se quando foi a Milão, em busca de um Maradoninha luso de que ouvira falar, mas que nunca vira. Descobriu-o por acaso no hotel onde ele estava, em Milão, para jogar o "Mundialito". Olhou para o lado, viu escrito nuns chinelos o nome que buscava, levantou a cabeça, olhou para ele, e: “Mira, este és Futre!”.
No seu comando, Gil foi desde a vitória na Liga até á queda na II Divisão. Pelo caminho, despediu treinadores como respirava, esmurrou o presidente de um clube adversário em plena assembleia da Liga, viu o clube ser apreendido judicialmente por gestão danosa, e, entre tantas tempestades, desafiou todos os poderes instituídos.
O furacão Gil desapareceu em 2004, mas, há uma imagem que ainda hoje perdura: não existe clube mais complicado para um jogador ou treinador trabalhar do que o At.Madrid. Do céu ao inferno num abrir e fechar de olhos.
Não custa admitir como a careira de Futre teria tido outro brilhantismo, em exibições e títulos, se não tivesse passado os seus melhores anos nessa zona de conflito colchonera. João Pinto também ia escorregando nessa armadilha no início da carreira.

Agora, é Simão que arrisca a mesma aventura. Perto dos 27 anos, a primeira reacção é a de que o seu belo futebol merecia um habitat, digamos, mais estável par ganhar a dimensão internacional que merece. Pensou-se o mesmo em relação a Quaresma.
A imagem grande clube constrói-se várias formas. Não se trata aqui de resultados. Trata-se do famoso «entorno», como lhe chamou Cruyff referindo-se então ao Barcelona. Tudo aquilo que, para lá do relvado, rodeia um clube e lhe dá bases sólidas de projecto, desportivo e financeiro. Dirão que existe em todos os clubes. É verdade. Mas, em alguns, ele aprisiona o clube e marca e comanda o seu destino. Só talvez isso justifique estas dúvidas sobre a opção desportiva de Simão. Afinal, vai para um grande campeonato e o At-Madrid, mesmo perdendo o «El niño de oro» Fernando Torres, está a montar uma equipa de arregalar os olhos.
Feita por Aguirre com a mesma filosofia da época passada. O mesmo 4x4x2, pensando em atacar pelos flancos, com alas-extremos fortes. Maxi Rodriguez-Petroov em 2006. Simão-Reyes (ou ainda Maxi) em 2007. No ataque, a dupla Aguero-Forlan. No centro, duplo-pivot. Luccin, Cleber Santana, Manniche ou Luís Garcia. Faltará um verdadeiro médio-centro organizador. E se há coisa que a história do futebol já disse claramente, é que não existem grandes equipas sem jogadores deste tipo no onze.
Daquele quarteto, Luís Garcia é aquele com maior perfil para ser o volante ofensivo. Mas não tem grandes dotes cerebrais a pensar o jogo. Existe ainda Jurado, mais é muito leve.
Há dias, Aguirre disse pensar em Simão para jogar na esquerda. É a opção natural. Mas não é o lugar das grandes referências da equipa.
Penso em como e onde cresceu tacticamente Simão na última época, quando passou para o lugar 10 do losango no Benfica e fico com curiosidade de ver como seria ele a jogar naquela posição no At.Madrid. É certo que Aguirre prefere um 4x4x2 mais clássico, mas se jogar com o rombo (losango em espanhol), teria, talvez, descoberto a fórmula táctica de melhor preencher o relvado. E, para Simão, seria o supremo desafio, com liberdade para cair na faixa como tanto gosta.
Cada qual no seu mundo, At.Madrid e Simão estão na hora da verdade para virar a página das suas histórias. Se conseguirem, mudam também o destino e a imagem das suas vidas.