Só recordo emoções

10 de Junho de 2010 18:09
O Mundial volta a estar “completo”: Maradona regressou!

Racionalmente, talvez este não seja o início mais correcto de abrir este conjunto de crónicas sobre o Mundial. É, porém, para mim, o emocionalmente mais honesto. Porque é o facto e a imagem que mais me toca. Maradona regressou, o Mundial volta a estar «completo». Sei que ninguém acredita nele como treinador, que reprovam as suas atitudes e o confundem até com o grotesco. Pode ser. Mas nada disto tem relevância ao lado do que ele representa para a minha imaginação e alma futebolística. Hoje como nos anos 80 ou daqui a 50 anos. A seu lado, espírito de Sancho Pança, vai ter outro loco vindo desse tempo, Billardo, o treinador que no verão de 86 lhe disse apenas esta frase antes do Mundial: “Diego, só te peço que me dês um mês da tua vida”. Diego deu-lhe a alma e a partir dessa data nunca mais nada foi igual no mundo do futebol.
Gostaria inclusive de ver os meios tecnológicos de que hoje tantos falam serem aplicados ao futebol de Maradona. Faz-me recordar uma vez, no Mundial 90, quando desceu as escadas do hotel para receber dois jornalistas e começou a dar toques com uma bola de ténis, subindo-a à cabeça, volta ao pé esquerdo, coxa, pára no pescoço, cabeça outra vez, etc. No fim, perguntou-lhes: “Quantas vezes toquei com a mão na bola?”. Os dois jornalistas olharam-se: “Nenhuma”, responderam. Diego sorriu: “Duas vezes! Mas não existe nenhum árbitro ou câmara no mundo que conseguisse ver..!”. Tentem agora lembrar-se de quantas repetições precisaram para começar a ver a mão de Deus naquele golo à Inglaterra em 86.
 
Todos os grandes jogadores da história tiveram um culto da personalidade que ultrapassava a sua mera existência. Maradona está acima de todos os debates «futebolisticamente terrenos». É como se vivesse num planeta à parte onde, por vezes, faz o favor de deixar os outros entrar. Uma vida e um talento talvez só explicável por uma frase de Yourcenar: “Todos os momentos de perfeição têm implícito a palavra fim”. De forma diferente, Maradona continua a ser, para o futebol, o «fim e o princípio» de tudo. Em cada gesto, em cada olhar. E, após o relvado, a eternidade dura muito mais de 90 minutos.
 
 
 
É possível o “3x4x3”?
 
Mas, claro, a actual Argentina não vive de mitos. Precisa, como qualquer equipa, de boas ideias tácticas para dar melhor expressão aos seus talentos. Depois de muitas hesitações que levaram o onze a parecer uma sombra errante táctica em campo, Maradona parece ir abandonar o seu 4x4x2 preferencial para desenhar um 3x4x3 que tem ensaiado nos treinos. Na base, seria uma defesa a «3» (Heinze-Demichelis-Samuel), quatro médios com um duplo-pivot central (Mascherano, o 5 clássico, e Veron, mais solto) e laterais-alas (mas se na direita Jonas Gutierrez faz bem o corredor nas compensações defesa-ataque-defesa, mais difícil é imaginar Di Maria, na esquerda, com o mesmo rigor de recuperação). No ataque, o «3» seria a forma de soltar Messi nas costas de dois avançados puros (Tevez-Higuain). No papel, até pode ser uma ideia para encaixar tantos artistas ofensivos mantendo o equilíbrio das transições defensivas, mas mais difícil é operacionalizar essa forma de jogar em tão pouco tempo.
Como dizia Cruyff, profeta supremo do 3x4x3, nos anos 90: “se neste sistema um único jogador não cumpre o seu papel, toda a equipa está perdida!” É o risco que corre a Argentina maradoniana se optar por esta via táctica.

 

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