STADE REIMS: O FUTEBOL ROMÂNTICO

4 de Dezembro de 2000
O FUTEBOL ROMÂNTICO DOS ANOS 50, jogado com uma taça de champanhe na mão. Um estilo belo e técnico criado magistralmente por Albert Batteux, o pai do football gaulês, e interpretado, nas quatro linhas, por monsieurs como Kopa, Fontaine, Vincent, Jonquet, Penverne, Piantoni e Colonna. Tudo memórias distantes de um clube que é hoje, quase, uma casa assombrada.

Fundado em 18 de Junho de 1931
Onde joga: Estádio Auguste-Delaune
Campeão Francês: 1949, 1953, 1955, 1956, 1958, 1960 e 1962
Taça de França: 1949 e 1958
Velha cidade gaulesa, habitante da região de Champagne-Ardenne, antigo território onde tempos idos, nas origens da civilização moderna, se ergeu a chamada segunda Roma, a cidade de Reims carrega um profundo legado histórico. No presente, orgulhosa pela reabertura da sua Universidade, velha fonte inesgotável de saber criada em 1547, adquiriu um perfil de metrópole intelectual e económica, mas a secular presença tutelar da Abadia Saint-Remis, datada do Séc. XII, perto da Catedral, já do Séc.XIII, continua a incutir-lhe contornos de antanho. É, na visão espirituosa da história, a eterna capital do Champagne, após a invenção do famoso Don Pérignon, em fins do Séc.XVII. Entre um passado glorioso e um presente incerto, Reims vive nas ondas de duas eras. Uma atmosfera revivalista e saudosista que também desenha a história do seu lendário clube de futebol: o Stade de Reims, grande força do futebol francês e europeu, nos anos 50, mas, que, pouco depois do inicio da década de 60, mergulhou em profunda agonia, até cair na IV Divisão regional. A ultima aparição do Reims nos grandes palcos sucedeu em 1977, quando entrou no Parque dos Príncipes como finalista da Taça de França. Era a equipa de Santamaria, que nessa noite seria derrotada pelo St. Etienne, por 2-1. Hoje, no momento em que percorrendo o meio da tabela da IIª Divisão gaulesa, procura iniciar a sua longa e penosa viagem de regresso aos grandes palcos do futebol gaulês, carrega consigo uma imagem quase fantasmagórica. Mesmo assim, no velhinho Auguste-Delaune, o mítico Estádio outrora sala de visitas das melhores famílias futebolísticas e feudo de artistas como Fontaine, Kopa e Vincent, continua a respira-se uma atmosfera lendária, que só pode ser entendida á luz das palavras de Chistophe Chenut, o jovem publicitário parisiense seu actual presidente: Um grande clube não morre jamais!

Como nasceu o Stade Reims

No inicio do século, Reims, como a maioria das cidades francesas, não sentia especial atracção pelo futebol. No seio do Club Athlétique, La Vigilante, existiam, no entanto, alguns adeptos desse novo jogo, ao ponto de promoverem, em 1902, o Champagne Championatt, com outros clubes do Marne e da AUBE. Este entusiasmo, foi seguido, nos anos seguintes, pelo Les Régates e pelo Cércle Nautique. A semente do foot-ball estava lançada. Em 1903, estes dois clubes fundem-se e dão origem ao Amateurs Remois. Espalhados pela região e bairros da cidade, continuavam a nascer pequenos clubes, entre eles o Olympique Rémois e o Stade Rémois que, em 1931, decidem unir-se e fundar o Stade de Reims, que substituiu a Société Sportive du Parc Pommery, sendo nos seus primeiros tempos dirigido por uma comissão de 9 pessoas. Nasceram então os primeiros símbolos do clube, como Fabien Ardhuin, o primeiro capitão do Stade. Em 1935, na presidência de René Humbert, conquista, pela primeira vez, com o técnico inglês Billy Aitken, o Campeonato Amador de França. Era o inicio dos percursores anos 30, onde seriam lançadas as bases do grande clube das décadas seguintes. Dentro desse espirito, chega ao clube, em 1937, petit garçon de 18 anos, o homem que iria construir o grande Stade de Reims dos anos 50 e erguer todo o edifício do futebol francês: Albert Batteux.

O PEQUENO NAPOLEÃO E O MESTRE BATTEUX

Na altura, em plena preparação para a saison 51/52, a noticia não provocara grande impacto: O Stade Reims acabara de contratar, por 1 200 000 francos, uma boa soma na época, um jovem avançado, com 19 anos, de origem polaca, que desde há dois anos jogava no SCO Angers: Raymond Kopaszwski, por todos tratado, para facilitar, como Kopa. Apesar de jovem, já sentira na pele a dureza da vida, nas profundezas de Nouex-les-Mines, quando perdera, num acidente de trabalho, no fundo de uma mina, a falange de um dedo. Num tempo em que o perfume dos dribladores ainda encantava o mundo do futebol, o seu talento técnico seduzira o presidente do Stade Reims, Monsieur Germain que, nos últimos tempos, passara a maior parte dos dias, a tentar convencer o médio Albert Batteux, outro tecnicista, a pendurar as botas e a dedicar-se apenas á missão de treinador da equipa. Batteux teimava, no entanto, em continuar a jogar. Assim foi, até 1952, altura em que com apenas 31 anos acedeu, por fim, aos pedidos de Germain e assumiu o banco do Stade Reims. Entre jogador e técnico, Batteux passaria 26 anos em Reims: 13 no relvado e 13 no banco. Quando se tornou treinador, de imediato vislumbrou em Kopa o seu filho predilecto, o espelho da sua alma futebolística. Batteux era um estudioso do futebol, com sólidos conhecimentos dos diferentes estilos que se jogavam um pouco por todo o mundo. Cedo entendeu que nenhum país podia fugir ao seu estilo genético. Assim, o Stade Reims, francês e latino, só poderia ter um jogo baseado na técnica, com a bolinha no pé e a criatividade individual á solta. As suas lições futebolísticas, mais tarde aplicadas na selecção e no St.Etienne foram a base de todo o estilo gaulês. Hoje, quase meio século depois, pode-se dizer, sem receio, que Batteux foi o pai do futebol francês, sendo entre outros, o mestre de Michel Hidalgo, seu jogador no Reims, onde era um habilidoso interior-direito, e que viria a ser, nos anos 80, o treinador da geração Platini
Em toda a sua carreira como técnico, Batteux, após ter sido uma vez campeão como jogador, em 49, conquistou 5 títulos de Campeão francês com o Stade (53, 55, 58, 60 e 62), 3 com o St. Etienne (68, 69 e 70), 1 Taça de França, em 59, e um 3º lugar no Mundial-58. Todos as vitórias tiveram o seu encanto, mas as que permanecem com contornos mais românticos e lendários são, para a eternidade, as do velho Stade Reims dos anos 50. Conduzidos pelo glamour técnico, de requinte quase real, do mago Kopa, a cidade de Reims descobriu os encantos do belo football. Era um onze de clara vocação atacante. Explosão de técnica e gestos bonitos. Na histórica selecção francesa do Mundial-58 estavam, ao lado do pequeno napoleão Kopa, então já a jogar no Real Madrid, 7 jogadores do Reims: Jonquet, central, Penverne, avançado, Vincent, médio ala esquerdo Piantoni, interior esquerdo, Colonna, o guarda redes que ficou sempre no banco e, claro, o homens dos golos, Just Fontaine, A era dourada dos magos de Reims durou até 1962, ano do seu ultimo titulo máximo gaulês. Pouco depois, no crepúsculo de uma geração, Kopa, abalado com morte de um filho, abandona os relvados e o Stade entra em queda, ao ponto de dois anos depois, em 1964, descer á IIª divisão. Era o fim do maravilhoso mundo do Stade Reims, o Rei do futebol gaulês dos anos 50.

A ROMÂNTICA CRUZADA EUROPEIA

Depois dos românticos e misteriosos primeiros tempos, o futebol começava a romper fronteiras. Estávamos em meados dos anos 50. É dentro dessa atmosfera que surge a Taça dos Campeões Europeus. Entre as mais sedutoras equipas, emerge, representando a toujours belle e douce France, o Stade Reims que comandado pelo saber táctico de Albert Batteux, chegaria, por duas vezes, á final da nova grande competição continental. Para honrar a iniciativa francesa a final da edição inaugural da Taça dos Campeões, jogou-se em Paris. Do outro lado, estava o poderoso Real Madrid de Di Stefano. Poucos dias antes do grande jogo, uma facto veio, porém, a incendiar o ambiente: Kopa já tinha assinado pelo Real Madrid para a época seguinte! Após o apito inicial, o Stade Reims chega com facilidade a 2-0. Antes do intervalo, Di Stefano e Rial empataram, mas, no inicio do segundo tempo, Hidalgo logo fez o 3-2. O Real abalou. Foi quando explodiu o herói madrileno dessa noite: o defesa Marquitos. Corria à frente e atrás de tal forma que deixava colegas e adversários tontos só de o ver ir e voltar com tanta velocidade. Naquele tempo, não era habitual os defesas subirem no terreno e integrarem-se no ataque. Numa dessas jogadas, e com os colegas a gritar-lhe «donde vás? quédate atrás!» fez, na sequência de vários ressaltos, o empate. Pouco depois, Gento foi á linha de fundo, centrou atrasado, e Rial fez o 4-3! O Real Madrid era campeão da Europa. Kopa passara quase despercebido o jogo todo e não faltou quem insinuasse que tinha facilitado a vida aos seus futuros colegas. Em 58/59, os dois monstros, Real Madrid e Stade Reims, voltam a encontrar-se numa grande Final europeia. No Real, jogava ainda Kopa. Os franceses não tinham perdoado a traição e marcaram-no em cima com dureza. Impiedoso, Vincent teve uma entrada a varrer e o pequeno napoleão ficou inutilizado para o resto do jogo, o qual passou ainda em campo, coxeando. No ano seguinte, nostálgico, regressaria ao seu Reims, mas não sem antes levantar a quarta Taça da Europa do Real, após uma tranquila vitória por 2-0.

JUST FONTAINE: O Profeta Goleador

O seu record de golos na fase final de um Mundial, 13, apontados em 1958, será, provavelmente, eterno. Nascido em Marrocos, para onde seu pai, inspector geral da Tabaqueira, emigrara, cedo demonstrou, no União Sportive Marocaine, o seu valor futebolístico, sendo contratado pelo Nice, em 1953, com apenas 20 anos. Em 1956, ingressa, por 10 milhões de francos, no Stade Reims, onde o seu instinto goleador atingiu contornos divinos. Fisicamente robusto, com excelente controle de bola e facilidade de remate, em corrida ou de bola parada, marcou uma época no futebol gaulês. Pelo Reims, apontou 116 golos em 5 épocas. Quando o viu jogar em 58, o brasileiro Didi, disse que ele era o único europeu que teria lugar no futebol brasileiro: Se viesse para o Rio, seria uma glória de todo o país, em apenas dois meses, afirmou. A sua carreira teria, porém, um fim abrupto. Em 1960, irritado por ser sucessivamente driblado, o defesa do Sochaux, Sikou, teve uma violenta entrada que lhe fracturou a tíbia e o perónio. Quando depois o visitou no hospital, Sikou chorou tanto que foi Fontaine quem acabou a levantar-lhe o moral. Com 28 anos e numa altura em que recuperar de uma lesão destas era quase impossível, nunca mais voltou a ser o mesmo. Para a história ficou o seu sobrenatural balanço goleador com a selecção francesa. 31 golos em.. 20 jogos!

KOPA: O Pequeno Napoleão

Em 1958, nos primeiros dias da presidência do General Charles de Gaulle, outro homem, dentro de um rectângulo verde, honrava a vocação expansionista gaulesa: Raymond Kopa, eleito o melhor jogador europeu do ano, numa altura em que já jogava no Real Madrid. Em 1970, foi o primeiro futebolista, depois dele só Platini, a receber a suprema medalha da Legião de Honra, símbolo máximo do reconhecimento da pátria gaulesa aos seus grandes filhos. Como jogador, Kopa, era um maitre a jouer, como dizem os franceses, cativados pela beleza da sua finta curta, o chamado drible crochet, temperado com grande visão de jogo e capacidade de passe. Com este estilo, sentia-se mais confortável quando inserido num jogo apoiado, com a bola de pé para pé. Foi Batteux quem entendeu melhor a minha forma de jogar: Quando em Reims, a critica começou a dizer que eu me agarrava demais á bola, ele saiu em minha defesa e ameaçou tirar-me da equipa se eu...parasse de driblar. Tinha percebido que o drible era a minha arma essencial, recorda Kopa. Fora dos relvados, foi um percursor, como presidente do sindicato, na luta pelos direitos dos jogadores. Num tempo em que os jogadores eram olhados de lado, causou sensação ao afirmar que o futebolista é um escravo da sua profissão e isso tem de acabar. O futebol aos futebolistas. Era a luta pelo fim dos contratos sem termo que então vigoravam e prendiam os jogadores eternamente aos clubes durante todo o tempo que os dirigentes o entendessem.

REIMS STADE CHAMPAGNE

Finda os tempos áureos, o Stade Reims, submerso por uma gigantesca crise financeira, social e desportiva, resvalou até á IV Divisão, tornado-se amador, como a lei francesa obriga. No inicio dos anos 90, a situação atingiu o ponto mais dramático. O clube estava a um passo da extinção. Financeiramente arruinado, os seus históricos trofeus foram a hasta pública e, completamente falido, foi obrigado a mudar o seu nome para Reims Stade Champgne. Foi então que apareceu em cena, Alan Afflelou, á época presidente do Bordeaux, que perturbado com a queda do mito, devoto adepto da grande equipa do passado, campeão dos seus tempos de menino, arrematou todas as Taças e medalhas levadas á praça, por cerca de um milhão de francos. Ao mesmo tempo fazia uma promessa: no dia em que um novo projecto credível tomasse conta do clube, de imediato devolveria todo aquele lendário espólio. Assim foi. Em Setembro de 1996 chega a Reims, vindo de Paris, um jovem publicitário disposto a mudar o curso da história. O seu nome é Christophe Chenut. Nascera no ano em que o Stade Reims vencera o último titulo da sua história, em 1962. Sentira, no entanto, sempre um grande fascínio pelo legado histórico do clube. Afflelou reconhece-lhe no rosto, a face da esperança e devolve os trofeus eu tinha guardados num armazém de Montparmasse, em Paris. Chenut não é, no entanto, um mero nostálgico, A sua grande ambição é devolver os dias de glória a Auguste-Delaune. Apesar desse desejo, assistir hoje aos jogos do Stade Reims, no anonimato do meio da tabela da IIIª Divisão francesa é quase como comprar um bilhete para uma viagem no comboio-fantasma.

Artigos Relacionados

  • O «Futebol do presente» O «Futebol do presente» 24 de Outubro de 2009 Nas chuteiras do Ghana, o último romance futebolístico africano, menos romântico, mais realista
  • Nani, o fim dos tempos românticos Nani, o fim dos tempos românticos 23 de Novembro de 2007 Do «futebol de rua» para os grandes relvados. Vendo bem, muda pouca coisa. O grande jogador e a selecção...
  • Afinal, onde começa o futebol? Afinal, onde começa o futebol? 15 de Setembro de 2007 Na técnica, na táctica ou nas emoções do povo? No fundo, é tudo aquilo. Mas sem táctica, perde a sua...
  • Schuster, o anti-Capello Schuster, o anti-Capello 25 de Julho de 2007 Em vez dos jogadores, quando falamos hoje das grandes equipas, definimo-las como propriedade dos seus...
  • O ÚLTIMO ROMÂNTICO O ÚLTIMO ROMÂNTICO 7 de Julho de 2007 Laudrup e Valderrama: Passar-lhes a bola era como a depositar num banco. Hoje, já não existem jogadores...