
Pousada nas margens do rio Dimbovita, como um falcão adormecido, Bucareste, capital da Roménia, geneticamente latina mas moldada pelos socio-politicos ventos de leste, tornou-se, ao longo da Segunda metade do Séc.XX, numa cidade de rosto indefinido, como as inúmeras igrejas das mais diversas religiões que nela habitam, sob a planície de Walachia em direcção ao célebre Danúbio.
Neste cenário, o futebol representou, sempre, um simbólico refúgio de ídolos. A maioria deles tiveram a mesma morada: o Steaua Bucarest, o histórico clube do exército romeno, fundado em 1947, pela Armada militar romena, adquirindo a denominação militarizada de ASA (Army`s Sports Association) Bucarest, que se manteve até 1956, momento em que se passou a designar CSCA Sports Club Central Army, mantendo-se sob a tutela do exército.
É, por fim, no inicio dos anos 60, que o clube, antes famoso, sobretudo devido ás proezas da ginasta Iolanda Balas, mítica atleta romena, campeã olímpica e sete vezes eleita pelo governo comunista a desportista do ano, ganha o nome que perdura até hoje: CSA Steaua – estrela, em romeno- Bucaresti. O futebol, que no passado, durante os anos 50, elegera o interior direito Constantin como o seu grande símbolo, iria, em breve, tornar-se na maior bandeira do novo regime político.
Protegido pelo governo comunista do ditador Ceausescu, no poder desde 1944, o Steaua inicia um longo reinado dentro do futebol romeno, usufruindo de todas as benesses estatais, no confronto com os outros grandes clubes da cidade: o Rapid e o Dínamo Bucarest, este último a equipa do Ministério do Interior, outrora dominador mas que perdera influência a partir do dia em que o exército passou a ter um estatuto mais poderoso que a polícia.

O grande período do Steaua no futebol romeno e europeu corresponde á era mais repressiva e autoritária do regime de Nicolae Ceausescu, o grande educador. Entre os maiores adeptos do clube, estava o seu mórbido e arrogante filho Valentin Ceausescu. Graças ao seu poder, o Steaua era uma verdadeira extensão futebolística do poder negro e repressivo da família do Ditador. Tudo lhe era permitido. Os sucessos do clube tinham, no entanto, algo de paradoxal. Pelas ruas de Bucarest era fácil sentir-se o medo e a fome de uma população amordaçada, que parecia vaguear sem destino, por vezes parada, frente a montras tristes e gastas, com o olhar perdido. Nos dias em que o Steua jogava, porém, pareciam ganhar nova vida.
Neste mundo de sombras, os seus jogadores eram idolatrados como pequenos Deuses. O regime sentia isso e utilizava o clube como um instrumento de propaganda política. Quase todos os jogadores eram oficialmente soldados. Conscientes do seu prestígio entre a população, eram tratados como príncipes pelo governo, que, enquanto a população agoniava na pobreza, lhes pagava salários milionários e recebiam em divisas, o que então era proibido por lei.
O Steaua era, no entanto, muito mais do que uma simples política bandeira desportiva. Por entre todo este soturno universo, existia uma fantástica equipa de futebol, composta por grandes jogadores, exibindo um sedutor estilo que mesclava a técnica latina com a frieza de leste, capazes de assombrar e conquistar toda a Europa da bola. Assim foi, nos anos 80.
Hagi:
O romeno que fazia a bola falar.

Chamaram-lhe o Maradona dos Cárpatos. O seu talento, não necessitava, no entanto, de imagens de outros jogadores para ser exaltado. Os seus passes eram tão perfeitos que eram capazes, mesmo feitos a 30 metros, de colocar a bola a rolar em cima de uma lata de cerveja. Começou a evidenciar-se no Sportul Studentescu, pelo qual foi considerado um dos melhores jogadores romenos quando tinha apenas 17 anos. Em 1984, com 19, esteve com a selecção romena no Euro-84. Dois anos depois em 86, após ter feito 31 golos na Liga romena, o Steaua não esperou nem mais um segundo e por ordem de Nicolae Cauaesescu resgatou-o ao Sportul, sem lhe pagar sequer a indemnização devida. No Steaua, tornou-se quase uma entidade divina. Entre 86 e 90, conquistou 3 Campeonatos e 3 Taças, marcando 76 golos e 94 jogos, perrdendo, no entanto, a final da Taça dos Campeões, em 89, frente ao Milan.
Em 1991 ingressou no Real Madrid. Em Espanha, porém, o seu talento artístico, feito de dribles curtos e toques de calcanhar raramente encontrou tempo e espaço. Poucos foram os jogos em que a sua arte brilhou em todo o seu esplendor. No entretanto, porém, em fases finais de Mundiais ou Europeus, deslumbrava tudo e todos com o seu futebol. Fez 124 jogos na selecção e marcou 35 golos.
Ainda jogou em Itália, no Brescia, mas o seu talento draculiano, parecia feito para outros ambientes, mais infernais, como aquele onde joga o Galarasaray de Istambul. Na Turquia, no crepúsculo da carreira, o seu futebol resdescobriu os contornos sublimes que o fizera admirado em todo o mundo. Permanece um génio temperamental, mas se a forma como trata a bola ficam, para a eternidade, como das genialidades mais próximas da perfeição que alguma vez foram vistas num relvado de futebol.
1986- DUCADAM:
OS PENALTYS DA GLÓRIA EUROPEIA
Em 1986, numa altura em que o mundo comunista ainda parecia respirar de plena saúde, o Steaua tornou-se na primeira equipa do leste europeu a vencer a Taça dos Campeões Europeus. Foi em Sevilha, com o Sanchez Pizjuan a transbordar, frente ao Barcelona de Venables e o grande herói dessa noite seria um gigante guarda redes chamado Helmut Ducadam que entraria para a história ao defender os quatro penaltys apontados pelos jogadores catalães durante o épico desempate, após 120 minutos sem golos.
Chefiados pelo sábio Emerich Ienei, o Steaua formou uma atraente equipa, profeta do futebol apoiado. O seu estilo, de toque curto e algo lento, era mais o de uma equipa latina do que de um onze de leste. Era, afinal, como um espelho da sua história. A mescla dos dois estilos. Fortes tecnicamente, os seus jogadores gostavam de ter a bola nos pés. Parecia faltar profundidade ao seu futebol, mas, num ápice, os espaços eram abertos e soltava-se o talento de figuras como Baltin ou Lacatus, a grandes estrelas do onze campeão europeu em 1986.
Através do Steaua, a escola do futebol romeno reencontrava o seu estilo próprio, que seria depois projectado, com sucesso, na selecção que a partir de 1987, passaria a ser treinada por Ienei, substituído em Bucareste por um homem que conhecia o clube da estrela desde os 7 anos: Angel Iordanescu, antigo jogador do clube, grande figura do onze dos anos 70, no qual jogou até 1985, altura em que saiu para os gregos do OFI Cretra, onde esteve duas épocas. Amante do jogo ofensivo, ele era o homem ideal para conduzir o Steaua de dimensão europeia. É sob as suas ordens que surge a nova geração de talentos romenos, como Petrescu, Dumistescu e, claro, Hagi.
Em 1989, o Steaua volta a atingir a final da Taça dos Campeões, sendo porém desta feita goleado pelo Milan (0-4), depois de na época anterior, 87/88, ter sido eliminado na meia-final pelo Benfica (0-0 e 0-2).
Finda a ditadura de Ceausescu, fuzilado após a Revolução de 1990, o Steaua perderia muita da sua força, passando por um período de menor projecção internacional. As bases do novo futebol romeno estavam no entanto lançadas. Seja sob que regime for, o talento, quando real, perdura sempre para além da impotência da razão...
ESCOLA DO FUTEBOL ROMENO
Construído sob a tutela do regime de Ceausescu, o Complexul Sportiv Steaua transformou-se, a partir de inicio dos anos 80, na principal escola do virtuoso futebol romeno. Situada no bairro de Ghencea, rodeada por militares, este enorme viveiro de talentos, transformou-se num verdadeiro laboratório do desporto romeno, reunindo estruturas para o desenvolvimento e treino de 23 diferentes modalidades, onde o futebol, claro, funcionava como o grande catalisador.
Nos seus quadros jovens, desde os Pitici, infantis, com 7 anos, até aos Tineret, os juniores, ultima categoria antes dos seniores, o Steaua abrigava 900 jogadores, cujo desenvolvimento desportivo, treinos e jogos, era esquematizado em função do horário escolar.
No último ano em que chegou á final da Taça dos Campeões, o grande orgulho do Steaua era dizer que entre os jogadores a alinhar então na Iª Divisão romena, 54 tinham sido formados nas suas escolas, enquanto outros 186 estavam na IIª Divisão e 412 na IIIª. Divisão
Lacatus

O grande símbolo do Steaua Bucareste. Rápido, alto, 1, 82 m., esguio, serpenteando por entre os adversários, o extremo direito Marius Lacatus foi dos jogadores romenos mais credenciados dos anos 80/90. Fez 370 jogos e apontou 99 golos na Liga romena, com a camisola do Steaua, o clube da sua vida, no qual apenas não jogou durante três épocas, quando após o Mundial-90, onde cativara pela sua técnica e drible em corrida, assinou pela Fiorentina.
Inadaptado ao táctico futebol italiano, saiu para Espanha, ingressando no Oviedo, mas seria de novo no Steaua, em 1993, que Lacatus reencontraria o habitat ideal para desenvolver o seu futebol, tornando-se na imagem fiel do estilo de jogo romeno.