Durante um jogo, uma equipa vale, muitas vezes, pela sua capacidade de mudar de face. Muitas equipas sabem preparar bem um jogo, antecipando a realidade inicial. A maioria, porém, tem depois dificuldade em adaptar-se à mudança da realidade. Quando o jogo lhe coloca desafios diferentes. Portugal iniciou o Mundial com o seu 4x3x3 mas tinha uma intenção escondida por trás dele: fechar espaços antes de os tentar abrir. Dessa forma, o meio-campo ficou sempre mentalmente preso a tarefas de cobertura e recuperação. Viveu 90 minutos nessa realidade.
Mas, revendendo o jogo, existiram 7 minutos diferentes. Ou com intenção diferente. Foi quando entrou Simão e saiu Danny, mudou-se então para 4x4x2. Mal pisou o relvado, Simão deu ordens para Meireles jogar ao lado de Pedro Mendes, Deco descaía na direita e Ronaldo passava para o centro, ao lado de Liedson. Desta forma, a selecção ganhava superioridade numérica («4») a meio campo (frente ao «3» da Costa do Marfim) ganhando maior largura para circular a bola, possibilidade de profundidade e maior dinâmica com uma dupla no eixo do ataque (após ver Liedson perdido no centro do 4x3x3). Foi uma curta ilusão táctica. Até Deco sair amuado. Num ápice, entrou Tiago, regressou o 4x3x3 e o jogo acabou para Portugal. Todas as opções são legítimas mas é perturbante ver uma substituição que ditava uma alteração táctica tão profunda (cinco jogadores mudarem de posicão) e 7 minutos depois, tudo ser anulado e voltar à fórmula original.
Tentar descobrir onde a selecção pode crescer passa por descobrir a melhor forma de ter a bola em função dos espaços disponíveis. Há jogadores que necessitam um latifúndio para jogar (Danny). Há outros que, diferentes, o fazem em espaços mais curtos (Simão). A diferença centra-se entre a aceleração e a temporização. O jogo português necessita hoje de pensar melhor os seus movimentos (em organização). Em contra-ataque (com espaços abertos) basta quase só acelerar. Difícil é ter de mudar a face do jogo (com espaços fechados). A possibilidade de ter quatro homens a meio-campo é o princípio para, depois, dar a melhor companhia ao ponta-de-lança.
A Itália de África
Olhando para o seu onze inicial nota-se a falta de um grande médio criativo típica das selecções centro-africanas. O actual Gana já não tem, no entanto, a ideologia de Abedi Pelé, mago nº10 do passado. Está lá, descaído sobre a esquerda, o seu filho, Ayew, que também faz umas fintas, mas não é a mesma coisa. Muito longe disso. A vitória no CAN no início do ano já dissera muito da nova filosofia de Milovan Rajevac que aos poucos está a transformar o Gana numa espécie de Itália de África.
Mesmo num 4x2x3x1 com duplo-pivot (Versah-Boateng) e três médios (Tagoe-Asamoah-Ayew) nas costas de Gyan Asamoah (um belo avançado móvel e com instinto de baliza) o seu primado da organização ofensiva é invulgar nas equipas África negra onde é mais habitual detectarem-se facilmente erros defensivos. Rajevac (que também esteve nos Sub-20) é um matemático táctico sérvio que italianizou o futebol ganês. Mesmo sem Essien e Muntari (dois monstros de contenção) colocou um cadeado no jogo com Sérvia e transportou o estilo africano para o lado mais lunar do velho futebol europeu. Mais do que uma opção táctica, é, futebolisticamente, a maior ameaça de «colonização estilística» dos tempos modernos.