Suficientemente louco

June 17, 2010 10:31 PM
O ideal? Que os jogadores se “europeízem” para desmarcar-se e se “sul-americanizem” para fintar

 

O título deste artigo não é um juízo de valor mental. É o nome de um livro onde se podem ler das mais interessantes reflexões sobre futebol. Chama-se Lo Suficientemente loco e descreve o pensamento de Marcelo Bielsa, o treinador argentino que transformou o futebol do Chile nos últimos anos. “Quero que os meus jogadores, no ataque, se europeízem para desmarcar-se e se sul-americanizem para fintar”. Eis uma dessas ideias, talvez a que melhor explica o que é hoje a filosofia de jogo da selecção chilena.
Parte de um sistema táctico talvez demasiado romântico à luz dos conceitos europeus. Uma espécie de 3x3x3x1 ou, noutra visão, 3x3x1x3. Mude-se apenas a ordem das duas últimas linhas, uma alternância que resulta do avanço e recuo dos alas. Os quatro homens da frente têm todos o tal perfil de finta e desmarque mas, na essência, são sul-americanos puros. Para o bem e para o mal. Suazo é o «1» do primeiro desenho, o ponta de lança que, morfologicamente arredondado, busca sempre a baliza. Matías Fernandez é o «1» do segundo desenho, o médio centro criativo que busca sempre o último passe. Nas alas, Alexis Sanchez e Jimenez, dois jogadores tricotados pelo «toma!,dá!», o toca (passa) e foge (desmarcação).
 
Só três defesas de origem porque “o fundamental é ocupar bem a cancha. Ter um bloco curto, com defesa e ataque separadas por não mais de 25 metros e sem ter gente a ocupar a defesa para marcar avançados inexistentes”. Depois, o conceito de passe que se cruza com o de buscar profundidade: “eleger sempre o espaço nas costas. O contrário é afunilar o jogo”. Tentar sempre que os jogadores se vejam uns aos outros, para assim darem-se soluções mútuas do que fazer no jogo “se uma equipa quer ser protagonista deve por no mínimo dois jogadores por cada sector”.
Para Bielsa, este Mundial é também um caso pessoal. Em 2002, estava no banco da Argentina quando, apesar de tantas estrelas, caiu eliminado logo na fase de grupos. Eram tempos (e equipas) diferentes. Os actuais (tempo e equipa) estão suficientemente mais enquadrados com as suas ideias (pragmaticamente loucas). Ganhar ou perder é outra questão.  
 
 
 
Atacar sem avançados
 
 
Montar uma equipa é um exercício de equilíbrio táctico entre defesas, médios e avançados. Por isso, fico sempre intrigado, quando, antes do jogo, olho as equipas e não vejo no onze o(s) avançado(s). Não pode existir sinal mais claro de como o treinador começou a pensar a estratégia: receio táctico. Às vezes até pode ser o início de uma táctica inteligente (em função do adversário e da sua própria equipa) mas é raro. Austrália e Japão, contra Alemanha e Camarões, fizeram isso. Retiraram o ponta-de-lança da equipa (Kennedy e Okazaki, respectivamente) e meteram nesse ligar o seu médio mais criativo (Cahill e Honda). No caso do onze canguru, isso pura e simplesmente meteu um cadeado à volta da equipa, incapaz de passar o seu meio-campo, pois o homem que mete (passa) a bola na frente, estava, ele próprio, na…frente, desterrado. Perdeu da pior forma possível. Isto é, sem ideias próprias.
O Japão foi um pouco diferente, pois tem outro tipo de médio (Endo é um grande condutor de jogo) e colocou Matsui e Okubo, ambos de perfil ofensivo, nas alas. Quando, então, a bola surgiu à frente de Honda, já vinha com outras indicações. As melhores equipas são aquelas que assumem o atrevimento com naturalidade.

 

 

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