Suficientemente loucos para jogar

21 de Agosto de 2010 23:52
Os jogadores em “piloto automático”. Afinal para que serve um treinador, desterrado num banco, quando só o jogador pode tocar na bola?

 

As pessoas já não acreditam em heróis. Esquecem os mitos, só comunicam com seres meramente terrenos e resignam-se à fatalidade do destino. Este “fim do heroísmo” que marca os nossos dias é, afinal, a prova que algo se partiu na ligação entre esses seres que faziam sonhar (actores, pintores, futebolistas…) e a multidão que os segue. O futebol tenta resistir a essa queda. Há alguns sinais (jogadores) de resistência. Cada vez mais ténues, porque são cada vez menos futebolistas, para serem mais actores. Depois, entram em campo com um estado de ansiedade acrescido que os faz parecer piores do que realmente são. A única solução para eles sobreviverem na relva, e resgatarem a sua essência, está na fuga à realidade que os rodeia. Não é fácil. Mas, alguma vez terá sido?
Morreu esta semana, um mito de outras eras. Francisco Varallo. Era o último jogador vivo a ter disputado a primeira final do Mundial de futebol, em 1930. Tinha feito 100 anos há pouco tempo. Argentino, era o mais jovem em campo (19 anos) nessa longínqua tarde dos anos 30. Ficou eternizado como El Cañoncito, pelo seu forte pontapé, mas, nesse dia, não foi suficiente para ganhar o jogo, apesar de ter chegado ao intervalo a vencer 2-1. No segundo tempo, tudo mudou. Ganhou o Uruguai, 4-2. Há uns tempos, ainda lúcido, falava das razões para a derrota: “não foi falta de coragem. O que nos faltou foi loucura!”. E confessa que ainda hoje, ao lembrar-se do jogo, chora e fica zangado. “Nesse dia, não fomos suficientemente loucos para ganhar”.
 
A “loucura” de que falava Varallo é um bem de primeira necessidade num jogador de vocação ganhadora. No fundo, simboliza a capacidade dele se abstrair de tudo o que o rodeia e, dentro do relvado, jogar sem nunca sentir o sufoco da ansiedade. Muitos jogadores que o fazem são vistos como rebeldes, subversivos tacticamente, ou, no limite…loucos. A selecção, hoje presa numa teia de problemas, necessita, mais do que nunca, de jogadores desse tipo. É algo que vive muito para além da questão do “piloto automático”. É, antes, uma questão de jogadores “suficiente loucos” para jogar abstraídos da realidade em que vivem.
É nesse cenário que regressa um dos maiores “loucos” do nosso futebol, Quaresma, um talento insubmisso que após a depressão italiana, reacendeu-se na Turquia. Afinal, para que serve um treinador, durante 90 minutos desterrado num banco à margem das quatro linhas, quando dentro do campo só o jogador pode tocar na bola? É tentador pensar assim, mas não se podem ver as coisas dessa forma. Porque o heroísmo (como a coragem ou a loucura) tem, quase sempre, a desvantagem de ser desordenado. E a verdade é que os melhores tempos do gipsy king da bola foram sempre quando teve treinadores que melhor o entenderam (de Co Adriaanse a Jesualdo). Pelo contrário, Mourinho, não teve “paciência” com ele.  
 
Nesta altura, o único vinculo que resta à selecção com o público (país), está nas botas dos jogadores. É um esforço de imaginação difícil para todos (jogadores e publico). Os sintomas da patologia que afectam “a selecção sem seleccionador” têm distinta gravidade, mas estão todos relacionados com o chamado “sindroma do umbigo”.
Só os jogadores podem tirar a equipa desse estado de estupefacção. Por isso, o regresso, neste momento, de um “louco” como Quaresma é quase uma ironia perfeita. Porque só a loucura tem o poder de influir sobre o piloto automático e as trevas que rodeiam a equipa. Depois disso, ainda fica tempo para tudo.
 

 

 

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (20) NOTAS 2011/12 (20) 17 de Dezembro de 2011 1. `Vir buscar a bola atrás`; 2. Porque Alan explodiu tarde?; 3. O ultimo lugar do Paços
  • “Arca de Noé” do futebol “Arca de Noé” do futebol 10 de Julho de 2011 No Mundial Sub-17, as raízes do futebol. Os estilos, as estrelas e a mudança de “cor” francesa
  • Ordem: “lar doce lar táctico” Ordem: “lar doce lar táctico” 12 de Junho de 2011 Como reage um jogador quando é forçado a mudar de posição para jogar na selecção?
  • E se o jogo tivesse duas bolas? E se o jogo tivesse duas bolas? 3 de Dezembro de 2010 A partir do centro geográfico do universo futebolístico, análise às divisões que o futebol moderno...
  • Suficientemente louco Suficientemente louco 17 de Junho de 2010 O ideal? Que os jogadores se “europeízem” para desmarcar-se e se “sul-americanizem” para fintar