SUL-AMERICANO SUB-20 / 2003 (BALANÇO): El Torito e o amor pela bola

1 de Fevereiro de 2003
ARGENTINA CONQUISTA XXIª COPA-SUL AMERICANA DE SUB-20

Com os caça-talentos, olheiros e empresários ávidos de encontrar mais um craque dos ovos de ouro, a acotovelarem-se nas bancadas, o 22º Torneio Sul Americano de Sub-20 disputado no Uruguai, confirmou as modernas tendências, a nível de estilo de jogo (com a crescente influência do músculo na técnica), opções tácticas (dominadas pelo 3x5x2) e correlação de forças que moldam o actual futebol do Continente dos Magos. Junto da Argentina de El Torito Cavenaghi, grande goleador, e do Brasil de Dagoberto, emergiram dois novos belos projectos: Paraguay e Colômbia. As 4 selecções estarão presentes, em Março, no Mundial Sub-20. Descubra-as...
Alma, coração e futebol. Três palavras, três estados de espirito que fazem a imagem do jovem e triunfante futebol argentino. A saga começou á 9 anos, em 94, pela mão de Pekerman. Com ele, os pibes voltaram a ganhar, jogar bem, tirar o lugar dos rapazes das boys band nas coração das miúdas e, sobretudo, a ganhar prémios fair-play, algo utópico poucos meses antes com os gritos de Mostaza Merlo. Até que chegou o dia em que o alquimista resolveu partir, perante a desolação dos que acreditavam ser ele o novo Messias do fútbol gaúcho. Durante a caminhada, um homem, mais velho, 54 anos, e rotulado até de algo rude, esteve sempre do seu lado: o fiel adjunto, Hugo Tocalli. Foi ele em quem a Federação apostou para seguir o belo projecto do jovem futebol argentino. Por isso, esta Copa-Sul americana Sub-20 era mais do que outro simples torneio juvenil. A conquista de novo titulo – o 4ª da categoria para a Argentina- e toda a postura e discurso de Tocalli, confirmaram que ele foi, sem dúvida, a aposta certa. Há diferenças, porém, entre os dois ciclos. Em contraste com os onzes de Pekerman, esta Argentina de Tocalli tem um perfil e um estilo menos romântico e, digamos, mais sério. Todo o onze pisa o relvado com a personalidade e a autoridade de uma equipa adulta, dominando sempre os ritmos de jogo, ora acelerando-o, ora reduzindo-o, com a mestria de uma conjunto que já conhece todos os subtefurgios do futebol profissional. Por isso, pode-se dizer que este onze alviceleste era já uma equipa de profissionais jogando um torneio juvenil.

Cavenaghi, Tevéz e Rivas: As setas do 3x5x2 de Tocalli

Como nas edições anteriores, também há nomes a destacar nesta nova Argentina made in Tocalli, sistematizada permanentemente em 3x5x2, ou, para sermos mais exactos, em 3x4x1x2 (defesa a «3», quatro médios lutadores, dois deles volantes, um enganche ofensivo e dois pontas-de-lança). Os craques: Eberto o seguro guarda redes, longe da imagem de loucura que os porteros argentinos possuem por todo o mundo, o trio da defesa, composto –depois da lesão de Marco Charras- por Romero, Pinola e Gonzalo Rodriguez, o libero patrão, os aguerridos médios volantes Zabaleta, Colace e Mascherano, Rivas, médio atacante, o chamado enganche que lança os avançados, e os dois novos fenómenos da constelação: Tévez, o grande matador, artista com o nº10, e El Torito Cavenaghi, ponta de lança puro, daqueles que leva o golo no sangue e descobre sempre onde vai cair a pelota, a saltitar na pequena área, ou em corrida num espaço vazio. A seu lado, em vez de Maxi Lopez, seu companheiro no River, jogou Rivas, rápido avançado do Independiente. Juntos, formaram uma excelente dupla atacante. Em comparação com o Brasil, o grande rival na luta pelo titulo, pode-se dizer que este onze argentino evidenciou menos brilho individual, mas maior maturidade como conjunto. Um atributo decisivo na hora do chamado realismo competitivo que visa conquistar títulos.

O BRASIL DE DAGOBERTO

Estes torneios continuam a ser um paraíso para os caça-talentos, mas falar hoje do romantismo do futebol jovem é evocar um tempo definitivamente ultrapassado. Mal desponta uma ponta do seu talento, os antigos juniores de outrora são logo integrados, sem hesitação, no profissional futebol sénior. Para isso, saltam etapas de formação decisivas no seu correcto processo de crescimento futebolístico e, até, humano. São os casos, neste momento, de Robinho e Diego, mega-estrelas do Santos campeão brasileiro. Ambos foram impedidos de participar neste torneio e também não estarão, tudo indica, presentes no Mundial sub-20. Apesar de eles só terem 17 anos, técnicos e federação concordaram que, face ao seu génio, já só devem jogar na selecção principal ou Olímpica. É como contrariar as leis da natureza. Robinho e Diego são dois fenómenos, mas não são nem Pelé, nem Maradona. Aos 17 anos deviam, sobretudo, disputar os torneios da sua idade. Sem eles, esta selecção brasileiro perdeu encanto e, muito certamente, a oportunidade de conquistar mais um titulo da categoria. Seguindo as pisadas tácticas de Scolari, o técnico Valinhos também esquematizou o 3x5x2. A base do sistema situa-se a meio campo, onde, de posse da bola, se situam seis jogadores, resultado da subida pelos flancos dos laterais ofensivos (Daniel, na direita, e Jean, na esquerda) e do adiantamento do libero Dudú, ficando assim, a equipa com apenas dois defesas puros: os zagueros Daniel e André Bahía. Em teoria podia-se estar aqui a falar de um 2x6x2, mas a verdade é que este sistema apenas funcionou verdadeiramente com a adversários mais débeis, como Perú –em jogo disputado sob 38 graus á sombra- ou Equador. Trata-se de uma aliciante variante ofensiva. O sistema base continua a ser, pois claro, o glorioso 3x4x1x2. Numa equipa que revelou sempre grande carácter, embora muitas vezes perdesse o controle dos nervos, outros jogadores se destacaram. Acima de todos eles, um pequeno avançado de grande categoria: Dagoberto. A meio campo, referência para Carlos Alberto, o motorzinho do Fluminense que faz a ligação com o ataque. Técnica e fisicamente muito forte, revela grande maturidade com a bola nos pés. Ás vezes, quase parece um veterano. Craquezinhos para seguir no futuro.

As sensações Paraguai e Colômbia

Intérpretes de um futebol tecnicamente agressivo, com grande espirito de conquista, Paraguai e Colômbia foram as duas maiores sensações do torneio, justificando, claramente, o apuramento para o Mundial Sub-20. Orientado pelo uruguaio Anibal Maño Ruiz, o Paraguai, confirmando a excelente postura defensiva típica da selecção sénior, apresentou um onze muito robusto, atleticamente forte (nenhum dos seus jogadores tem menos de 1,75m. de altura) e com grande agressividade na fase ofensiva, onde se destacaram Dante López, o falso avançado centro que faz o enganche com o meio campo, muito perigoso a romper de trás, Erwin Ávalos, um goleador nato, sempre com a baliza nos olhos, em cunha entre os centrais, e Cristian Anderson, esguio, forte no jogo aéreo, o tipo de avançado carro-de-assalto que contrasta com o rasteiro futebol guarani. O futebol colombiano, por seu turno, o chamado Império do Toque, termo que define um estilo de jogo feito de toques curtos e apoiados, está a renascer. É uma nova geração cafetera que corre nos relvados, profetas de um futebol rápido, feito de triangulações e belos gestos técnicos. Vários jogadores se destacam nesta Colômbia de Reinaldo Rueda. Entre eles, ao lado de Victor Montaño, avançado do Milionários, Castrillón, excelente lateral direito, Jaime Ruiz, perigoso avançado, Acosta, um volante flanqueador, e, a meio campo, o dinâmico Rivas, um médio centro com grande visão de jogo. Ambas as selecções, contrastando com Argentina e Brasil, jogaram em 4x4x2. Uma opção táctica que segue a linha de pensamento profetizada nas selecções seniores, já no horizonte de muitos destes jovens talentos do futebol guarani e cafetero.

URUGUAI, PERÚ E BOLIVIA: Os grandes derrotados

Entre os grandes derrotados deste sul-americano 2002, emerge a tumultuada selecção do Uruguai, incapaz de explorar o factor casa para conquistar, pelo menos, um posto no próximo Mundial Sub-20. Muito pressionado, o seleccionador Jorge Da Silva, nunca conseguiu formar um onze táctica e emocionalmente equilibrado, sobretudo depois do afastamento, logo após o jogo inaugural, por grave lesão, do categorizado lateral esquerdo Guillermo Rodriguez, um jogador que marca a diferença na personalidade e no trato da bola. Individualmente, os melhores jogadores do onze charrúa, foram o avançado Guerrero e o médio-ala direito Diego. A grande desilusão foi o avançado tecnicista da Juventus, Rubemn El Pollo Oliveira. Parece que já mora noutro mundo, sem a alegria de antes. Em nenhum momento se viram os rasgos geniais que o fizeram explodir, desde os 16 anos, com a camisola do Danúbio. Inclemente, a afición não lhe perdoou o fracasso e assobiou-o a saída do relvado. Será este mais um caso de um jovem talento que saiu cedo demais do seu habitat natural? Pensamos que sim. Noutro plano, também foram desastrosas as participações das selecções da Bolívia e do Peru, onzes de quem se esperava muito mas eliminados logo na 1ª fase da prova, o que levou, inclusive ao imediato despedimento do treinador boliviano Melgar, impedido assim de realizar o trabalho de renovação antes projectado. Do lado peruano, para justificar o fracasso, o seleccionador César Chalaca Gonzalez, falou em falta de força mental dos seus jogadores. Uma realidade que impediu de brilhar o jogo malabarista de La Foquita Jefferson, destacado avançado do Alianza Lima.

REVELAÇÕES DO TORNEIO

DAGOBERTO País: Brasil Idade: 19 anos Posição: Avançado Clube: At. Paranaense Fixem bem este nome. É mais um craque canarinho. Não é um ponta de lança puro. Trata-se do clássico avançado vagabundo que não gosta de estar preso a uma zona do terreno, sempre em busca de espaços para rasgar as defesas. Tem, no entanto, tendência a cair para o flanco esquerdo. Um belo jogador, leve (1,73m. e 64kg) filho do futebol do Paraná. No Brasil, há quem acredite já estar feita a linha atacante do Mundial-2010: Káká, Robinho e... Dagoberto! GONZALO RODRIGUEZ País: Argentina Idade: 18 anos Posição: Defesa-central Clube: San Lorenzo Numa selecção em que todos os olhares estavam postos nas estrelas Tevéz e Cavenaghi, a grande revelação foi o chefe da defesa gaúcha: G. Rodriguez. Muito personalizado (1, 78 m. e 70kg), assumindo as rédeas do sector na ausência do lesionado Charras, é mais um jovem talento na linha dos grandes liberos do futebol argentino. JEAN País: Brasil Idade: 19 anos Posição: Lateral-esquerdo Clube: At. Paranaense O craque de Canoinhas, lugar onde nasceu. Um excelente defesa lateral-esquerdo, ideal para sistemas de 3x5x2 pela categoria a atacar e pela segurança a defender. O seu estilo, elegante, alto (1, 80m) e técnico, faz lembrar Fábio Aurélio, do Valência. Foi uma das revelações da selecção brasileira MARCOS ESTRADA País: Chile Idade: 19 anos Posição: Volante Clube: Everton A garra e a técnica chilena, nos pés e no corpo de um dinâmico médio que possui grande sentido ofensivo. Por entre a decepção que foi a selecção do Chile, eliminada logo na 1ª fase, ele foi a sua nota mais positiva, sendo indicado pelo olheiro Sivori á Juventus. ACOSTA País: Colômbia Idade: 19 anos Posição: Médio Clube: Deportivo Pereira Um motor do meio campo que também possui chegada junto do ataque, com grande sentido de remate. Sabiamente, o técnico Rueda, para fugir ás marcações, trocava-o constantemente de flanco, ora na direita, ora na esquerda. Em ambos revelou os seus passes precisos e os dribles desiquilibrantes, os famosos quiebros. MARECO País: Paraguai Idade: 19 anos Posição: Defesa-central Clube: Brescia A imagem de marca do Paraguai sempre foi uma excelente organização defensiva. Disposto a seguir esse legado, eis mais um central, já capitão de todas as selecções jovens, muito astuto, forte no jogo aéreo, mesmo com sobre ao ataque nas bolas paradas. Um estilo que já cativou o duro futebol italiano.

RESULTADOS DA FASE FINAL

JORNADA 1 URUGUAI-ARGENTINA 1-1 EQUADOR-COLÔMBIA 1-4 BRASIL-PARAGUAI 1-1 JORNADA 2 PARAGUAI-URUGUAI 2-1 ARGENTINA-EQUADOR 4-0 COLÔMBIA-BRASIL 2-3 JORNADA 3 URUGUAI-EQUADOR 2-1 COLÔMBIA-PARAGUAI 1-1 BRASIL-ARGENTINA 0-1 JORNADA 4 PARAGUAI-ARGENTINA 1-1 COLÔMBIA-URUGUAI 2-1 BRASIL-EQUADOR 2-0 JORNADA 5 BRASIL-URUGUAI 2-1 PARAGUAI-EQUADOR 3-1 ARGENTINA-COLÔMBIA 1-0 CLASSIFICAÇÃO J V E D GM-GS PT 1º ARGENTINA 5 3 2 0 7-2 11 2º BRASIL 5 3 1 1 8-5 10 3º PARAGUAI 5 2 3 0 8-6 9 4º COLÔMBIA 5 2 1 2 9-8 7 5º URUGUAI 5 1 1 3 6-8 4 6º EQUADOR 5 0 0 5 4-15 0 Melhores marcadores: Cavenaghi (Argentina) – 8 Dagoberto (Brasil), Jaime Ruiz (Colômbia), Dante López e Erwin Ávalos (Paraguai)- 4

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