SUPER TAÇA DE ÁFRICA 2000: ZAMALEK- HEARTS OAK

11 de Fevereiro de 2001
Dia 11, em Kumasi, no Ghana, disputa-se a Super Taça de Clubes Africanos. Frente a frente, duas escolas, dois estilos de futebol africano. De um lado, o poder do norte, habitat da chamada África Branca, onde a bola rola e pé para pé, personificado no egípcio Zamalek. Do outro, a magia do Ocidente, morada da ancestral África negra, onde a bola salta com alegria, expresso no ganês Hearts of Oak.
Por entre este universo de contrastes esconde-se, dizem os analistas, o futebol do futuro, que, no presente, pode ser melhor entendido no estilo puro dos seus clubes, do que no perfil internacional das suas selecções mais fortes, como a Nigéria e Camarões, compostas de grandes estrelas a jogarem no conforto da Europa, longe dos pelados de terra africanos.
Aqui há uns tempos, quando convidado a analisar a evolução do futebol africano, o eterno futebol do futuro, diamante em bruto á espera de ser lapidado, o liberiano George Weah afirmou sabiamente que a causa dos desvios e fracassos exibicionais de muitas selecções, residiu, no facto de em vez de trabalhar sobre as raízes do seu talento, muitos preferiram antes importar desconceptualizados estilos europeus. Ou seja, faltou construir uma identidade cruzada entre o futebol importado pelo colonizador e a assunção plena da nossa negritude. Mais do que no futebol das suas selecções, esta realidade pode-se hoje observar melhor no futebol de clubes. Com os melhores jogadores africanos a jogar nos grandes clubes europeus, ou até, no caso dos menos cotados, em equipas da chamada segunda linha do Velho Continente, muitas nações praticam um futebol que já pouco tem a ver com a realidade profunda dos seus países, onde, em vez de equipamentos e balneários de luxo, continuam a vislumbrar-se meninos descalços a correr atrás de uma bola de trapos, por entre poeira e terra queimada. O futebol africano vive, assim, aprisionado entre dois mundos completamente distintos, o que, no fundo, apenas serve para confundir os seus espíritos talentosos e condicionar a evolução dos diferentes estilos. Com efeito, o continente africano abriga tantos estilos como a Europa escolas de jogo. Desta forma, na região norte, na chamada África branca, moldado pela colonização francófona, cultiva-se um jogo pausado, com rigor técnico, de toque curto. Muito diferente do jogado a sul do Sarah, na zona ocidental, habitat das rebeldes águias verdes da Nigéria e dos Leões indomáveis dos Camarões, expressões sublimes da mágica África negra, onde, subitamente, a bola começa a saltar e a mover-se com alegria, produzindo um estilo mais veloz e artístico. Uma dicotomia que resulta das diferentes etapas da descolonização, que, diferentes de região para região, condicionaram os diferentes estilos emergentes.

O EMERGIR DO FUTEBOL GANÊS

George Whea é, hoje, uma grande estrela do futebol mundial. A sua carreira na Europa é, no entanto, quase um paradoxo com a realidade social e desportiva do seu país, que no inicio do século, ainda divida o seu mapa, como conta o escritor inglês Graham Green, profundo conhecedor de África, entre zona de canibais e zona de não canibais. Hoje a nação liberiana, embora organizada geográficamente, vive mergulhada na guerra e na miséria. Quantos talentos como o de Weah não estarão, ou estiveram escondidos, por baixo dessa cruel realidade? No últimos anos, tem-se assistido a um crescente equilíbrio entre o futebol do norte de África, a região historicamente mais forte económica e estruturalmente, e o jogado nas zonas ocidentais, que aos poucos, começam a desbravar o seu caminho natural. É nesse universo selvagem que se situam a maioria dos magos do futebol africano, os artistas que fazem e ao longo dos tempos, fizeram levantar os Estádios da Europa. Depois dos Camarões e da Nigéria, há outro país que, embora nunca tenha se apurado para um Mundial, continua a ser uma fonte inesgotável de talentosos magos da bola: o Ghana, de Abedi Pelé, fantástico jogador que seduziu a Europa nos anos 90, definido pelos olheiros que o descobriram, em inicio dos anos 80, nos pelados de Acra, como o jovem frágil da camisa grande. Esta é uma engraçada definição que se aplica a muitos talentos do futebol ganês, que resulta muito de influências sul americanos, conforme dizia-a há tempos, Fred Assam Duodu, antigo seleccionador junior do Ghana, que em 1995 conquistou o Mundial Sub-17, e em 1997 chegou á meia-final do Mundial Sub-20, revelando artistas como Sule, Ansah, Appiah, Gambo e Ofori-Quaye: Globalmente, o nosso sistema é baseado no brasileiro, pois o nosso clima, estrutura física e aspectos psicológicos em tudo se assemelham aos brasileiros. Se der uma volta pelo Ghana, verá, como no Brasil, muito miúdos a jogar na rua, descalços, com grande habilidade. É uma talento inato, está-lhes no sangue.

HEARTS OF OAK: A MAGIA DA AFRICA NEGRA

Historicamente, o clube mais forte do Ghana é o Asante Kotoko de Kumasi, mas nos últimos anos, o Hearts of Oak, tornou-se a equipa mas popular, impulsionado pelo carismático treinador Jones Attuquayefio, antigo internacional, que levou o clube de Acra á histórica conquista da Taça dos Campeões Africanos, batendo na final o poderoso Esperance Tunes, da Túnisia, símbolo do possante futebol do norte. Observar o futebol do Hearts é descobrir os encantos do puro futebol africano de vocação atacante, desenhado por dribles e genéticos rasgos técnicos só possíveis de encontrar na África negra, expressos nos seus dois melhores jogadores: Ismael Addo e Emmanuel Kuffor. Treinando todos os dias num rudimentar pelado, espelho dos baldios onde começaram a jogar, os diamantes negros do Hearts dificilmente poderão lapidar o seu talento e aperfeiçoar os gestos técnicos e tácticos, pelo que em breve serão aprisionados pelo frio futebol europeu. Um destino que só poder ser evitado com acções como as de Abedi Pelé, mito do futebol ganês, de regresso a Acra, para criar um clube com o nome do seu pai, o FC Nania, do qual é treinador e presidente, e que compete na IIª Divisão. Ao mesmo tempo, fundou um Centro de Formação, com o seu nome, de 50 hectares, a 20 Kms. de Acra, onde acolhe cerca de 20 jogadores entre 12 a 15 anos e 30 entre os 15 e 21, orientados por cinco professores e quatro treinadores, regentes da filosofia de Pelé, segundo a qual um jogador para evoluir, deve ficar o maior tempo possível no seu meio futebolístico natural.

ZAMALEK : O PODER DA AFRICA BRANCA

Habitante da mais desenvolvida região de África, o futebol egípcio esteve sempre, selecção e clubes, na linha da frente da evolução táctica e técnica do futebol africano. A primeira vitória egípcia na Taça dos Campeões Africanos deu-se em 1969 quando o Ismali venceu na final o Elglebert do Congo. A década de ouro do futebol egípcio de clubes a nível internacional surgiria, no entanto, apenas nos anos 80, com o Al.Ahly, mais conhecido por Nacional e, sobretudo, o Zamalek, que iniciou a sua epopeia internacional com os triunfos na Taças dos Campeões Africanos de 84 e 87, prosseguindo depois, nos anos 90, com mais dois títulos máximos, em 93 e 96. Moldado pela cultura europeia, o futebol egípcio é essencialmente técnico. Jogada quase sempre sob temperaturas altas, cultivou um estilo apoiado e de toque curto, muitas vezes excessivamente lateralizado, onde são muito apreciados les beaux gestes, os lances bonitos. Tacticamente permanece algo ingénuo, mas os últimos anos aproximaram-no da maturidade, espelhada no perfil, algo europeízado, da sua selecção e dos seus principais clubes, entre os quais emerge o Zamalek, a chamada escola do futebol bonito, por desde sempre, as suas equipas terem a fama de, mesmo perdendo, praticar um futebol atraente e de fino recorte técnico. Na última época, orientada pelo experiente técnico austríaco Pfister, a equipa sistematizou-se quase sempre em 3-5-2, baseando o seu jogo em três experientes jogadores que representam o estilo técnico e maduro do futebol dos faraós: Farouk, Hossam e Bashir. Ao contrário das carências dos talentos do Hearts, as estrela egípcias podem dispor de magnificas condições de treino, em campos relvados.

QUADRO DE VENCEDORES

As competições africanas de clubes tem uma orgânica semelhante ás provas europeias, antes da abolição da Taça das Taças. Assim, em África disputa-se, desde 1964, a Taça dos Campeões Africanos, que a partir de 1996, tornou-se na Liga dos Campeões africanos, por influência europeia, sendo disputada, em sistema de duas poules, por oito equipas, uma de cada país mais forte, a Taça dos Vencedores das Taças africanas, e, desde 1992, a SuperTaça de África, jogada entre os vencedores dos dois torneios anteriores. Olhando os diferentes quadros de vencedores, pode-se vislumbrar a evolução da correlação de forças entre o futebol dos distintos países africanos. Até 1983, o domínio dividiu-se entre as várias regiões, mas a partir dessa data, emergiram, com toda a força as nações económica e estruturalmente mais desenvolvidas, situadas no Norte, morada de fortes equipas, sobretudo do Egipto, Túnisia e Marrocos. Os últimos tempos, no entanto, revelam uma aproximação, o que prova a evolução, não tanto estrutural, mas antes da mentalidade competitiva, que se verificou na região sul africana, com o Orlando Pirates, campeão africano em 1995, e, mais tenuamente, nos países da região central e Ocidental, a chamada África negra, com o ASEC Bidjan, da Costa do Marfim, guiados pelo feiticeiro branco francês Philippe Troussier, campeões africano em 1998 e, no último ano do século, com o Hearts OAK, do Ghana. Por outro lado, apesar de a selecção nigeriana ser hoje a maior potência do futebol africano, nunca um clube seu ganhou a Taça dos Campeões Africanos.

TAÇA DOS CAMPEÕES AFRICANOS ( Desde 1997, LIGA DOS CAMPEÕES DE ÁFRICA )

1980 – CANON YAOUNDÉ (Camarões) 1981 – JEUNESSE ELECTRONIQUE (Argélia) 1982 – AL-AHLY (Egipto) 1983 – ASANTE KOTOKO (Ghana) 1984 – ZAMALEK (Egipto) 1985 – FAR RABAT (Marrocos) 1986 – ZAMALEK (Egipto) 1987 – AL AHLY (Egipto) 1988 – ENTENTE PLASTICIENS SÉTIF (Argélia) 1989 – RAJA CASABLANCA (Marrocos) 1990 – JEUNESSE SPORTIVE KABYLIE (Argélia) 1991 – CLUB AFRICAIN (Tunísia) 1992 – WYAD AC CASABLANCA (Marrocos) 1993 – ZAMALEK (Egipto) 1994 – ESPÉRANCE TUNIS (Tunísia) 1995 – ORLANDO PIRATES (África do Sul) 1996 – ZAMALEK (Egipto) 1997 – RAJA CASABLANCA (Marrocos) 1998 – ASEC MIMOSA ABIDJAN (Costa do Marfim) 1999 - RAJA CASABLANCA (Marrocos) 2000 - HEARTS OF OAK (Ghana)

TAÇA DOS VENCEDORES DAS TAÇAS AFRICANAS

1980 – TOUT PUISSANT MAZEMBE (Zaire) 1981 – UNION DOULA (Camarões) 1982 - AL MOKAOULUN (Egipto) 1983 – AL MOKAOULUN (Egipto) 1984 – AL AHLY (Egipto) 1985 – AL AHLY (Egipto) 1986 – AL AHLY (Egipto) 1987 - GOR MAHIA (Kenya) 1988 – CLUB BIZERTE (Tunísia) 1989 – AL MERREIKH (Sudão) 1990 – BCC LIONS (Nigéria) 1991 – POWER DYANAMOS (Zambia) 1992 – AFRICA SPORTS (Costa do Marfim) 1993 – AL AHLY (Egipto) 1994 – DARING MOTEMBA PEMBA (Zaire) 1995 – JEUNESSE KABYLIE (Argélia) 1996 – AL MOKAOULUN (Egipto) 1997 – ETOILE DO SAHEL (Tunísia) 1998 – ESPÉRANCE DE TUNES (Tunísia) 1999 – AFRICA SPORTS (Costa do Marfim) 2000 – ZAMALEK (Egipto)

SUPER TAÇA DE ÁFRICA

1992 – ÁFRICA SPORTS (Costa do Marfim) 1993 – ZAMALEK (Egipto) 1994 – ESPÉRANCE TUNES (Tunísia) 1995 – ORLANDO PIRATES (África do Sul) 1996 – ZAMALEK (Egipto) 1997 – ETOILE DU SAHEL 1998 – ASEC MIMOSA (Costa do Marfim) 1999 – RAJA CASABLANCA (Marrocos)

CAF RANKING OFICIAL DE CLUBES

O Ranking de países da CAF (Confederação africana de Futebol) é estabelecido, segundo o número de vitórias nas suas provas, finais perdidas e meias-finais, vitórias e derrotas. Assim, desde 1964 a 2000, a classificação é a seguinte: Finais atingidas e Trofeus ganhos 1º EGIPTO 20 16 2º TUNÍSIA 15 9 3º CAMARÕES 12 8 4º MARROCOS 8 6 5º ARGÉLIA 8 6 6º CONGO 12 5 7º COSTA DO MARFIM 9 5 8º NIGÉRIA 15 5 9º GUINÉ KONACRI 7 4 10º GHANA 12 4 A nível de clubes: (Finalista: 4 pontos; finalista vencido. 3; meia final: 2; quartos-final: 1; SuperTaça: 1) classificação por pontos 1ª ZAMALEK (Egipto) 41 2º AL AHLY (Egipto) 40 3º ASHANTE KOTOKO (Ghana) 34 CANON YAOUNDÉ (Camarões) 34 5º HEARTS OF OAK (Ghana) 30 6º ESPÉRANCE TUNES (Tunísia) 27 7º ASEC MIMOSA (Costa do Marfim) 26 8º AFRICA SPORTS (Costa do Marfim) 25 9º JS KABYLIE (Argélia) 22 10º TP ENGLEBERT (Congo) 20

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