Embora ainda revele, em muitas fases do jogo, alguma falta de maturidade táctica na abordagem do jogo, o aumento da qualidade e do nível competitivo do futebol asiático é hoje uma realidade incontestável. Uma nova imagem evidente, sobretudo, ao nível das suas selecções mais fortes, como provou esta Taça da Ásia 2004, vencida pelo inteligente Japão de Zico, tacticamente a equipa mais adulta do torneio, onde também ficaram evidentes os diferentes estilos asiáticos. Enquanto que o onze chinês tem um perfil mais vertical e veloz, um pouco á semelhança do coreano, jogando em 4x4x2, o Japão privilegia mais o toque de bola, de inspiração quase sul americana, desenhado em 3x5x2.
Assim, apesar de não contar com algumas estrelas (Nakata, Takahara e Ono), Zico não receou em arriscar num sistema de três defesas que se por um lado revelou-se ofensivamente atraente, por outro denotou muitas carências defensivas, fruto da constante inferioridade numérica em que a equipa ficava nos contra-ataques do adversário, o que foi evidente, sobretudo, na meia-final frente ao Bahrain, onde esteve a perder até um minuto do fim.
O 3x4x1x2 de Zico

Ao contrário do verificado durante o ciclo de Troussier, o Japão é hoje, no entanto, uma equipa que sabe melhor gerir o ritmo de jogo de forma a aproveitar a sua superior valia técnica em comparação com as outras selecções asiáticas. Assim, na defesa a «3» (Mayoto, Nakazawa, Miyamoto), destaque-se a velocidade de todos os elementos, firmes nas dobras e sair com a bola, apesar de, por vezes, nesse movimento perderem o sentido posicional, o que se agravava pelo facto de Zico ter colocado, como lateral esquerdo, o brasileiro Alex Santos, originariamente avançado-extremo, pelo que, nessa posição mais recuada, devido á sua vocação atacante, sentiu muitas dificuldades a defender.
A meio campo, como médios defensivos, na zona dos trincos, Endo e Fukunishi estiveram impecáveis a fechar espaços e a lançar o ataque, nas costas do playmaker Nakamura, que, colocado entre-linhas, transformava o 3x5x2 em 3x4x1x2, Nakamura, em Itália mais habituado a jogar que na faixa esquerda, mas que no onze nipónico surgiu mais perto da perigosa dupla atacante, em constante movimento, Suzuki e Tamada, dois avançados muitos móveis e astutos nas desmarcações, rasgando desde trás em vez de ficarem fixos entre os centrais.
A CHINA DE HAAN:
Sob a batuta de Shao Jiayi

Treinada por um antigo membro da Laranja Mecânica holandesa dos anos 70, Arie Haan, a actual selecção chinesa é uma selecção em fase de construção. Ao contrário do que sucedeu no Japão com Troussier, porém, é claro que o trabalho do ex-seleccionador Multinovic foi positivo, criou rotinas tácticas e revolucionou mentalidade, deixando as bases sobre as quais deve assentar, no futuro, o futebol chinês. Nesta Ásia Cup-2004, jogando sempre em 4x4x2, entre o 4x1x3x2 e o 4x4x1x1, tal a forma como os dois pontas de lança (Li Jinyu e Haidong) jogavam um atrás do outro, o onze de Haan assumiu sempre a iniciativa nos jogos disputados. Nesse cenário, emerge como jogador chave, o médio centro Shao Jiayi, á frente do trinco Junzhe, enquanto que, na defesa, destaque-se o jogador chinês do ano, o central Zheng Zhi, forte e combativo, muito personalizado e impecável no corte.
No ataque, para além do faro de Haidong, o tipico nº9 de área e das deambulações de Li Jinyu, entrando pelo flanco direito, destaque para o jovem Sun Jiahi, que vai jogar esta época no Manchester City. Apesar de não ser titular, entrou sempre para dinamizar o ataque, sobre o flanco esquerdo, cobre muito bem a bola, é lutador, mas, como é originariamente defesa-lateral, jogou um futebol muito curtinho, com pouca progressão.
DOIS CASOS DE BOM FUTEBOL:
O Irão de Karimi
e a surpresa Bahrain

Terceiro classificado, o Irão do croata Branko Ivankovic também optou por um sistema de três defesas, na variante 3x4x2x1, com dois laterais muito activos ofensivamente, Kaebi, na direita, e Badavi, na esquerda, as asas de um sector defensivo chefiado pelo experiente central Rezaei, jogador do Messina, em Itália. As três estrelas do onze moram, porém, na fase de construção atacante: o extremo direito Mahdavikia, há várias épocas no futebol alemão, muito rápido, o avançado centro Ali Daei, que, com o peso da idade, 35 anos, muito lento, actualmente a jogar no Pirouzi iraniano, é uma sombra do goleador do passado, e, a meio campo, o grande artista Ali Karimi.
Aala Hubail, a estrela do Bahrain
Treinada pelo sábio Srecko Juricic, o Bahrain foi a grande surpresa desta Taça da Ásia 2004. Esteve a um passo da final, através de um futebol apoiado, esquematizado em 4x3x1x2, defensivamente muito seguro a cobrir os espaços de penetração, sem cometer muitas faltas, mas depois pouco dinâmico na ligação meio campo-ataque, missão destinada ao enganche Yusuf, um médio muito irregular, alternado boas jogadas, com períodos onde desaparecia do jogo. Assim, as maiores figuras do onze estiveram na defesa, com o incansável Baba, um excelente jogador, lateral ofensivo a apoiar o ataque e perfeito a defender, parece estar em dois sítios ao mesmo tempo, também dobrando no eixo da defesa, enquanto que no ataque, muita atenção ao goleador Hubail, muito bem apoiado por Husain Ali, mais esquivo, e Naser, mais possante, que saia do banco para fazer golos.
QUATRO ESTRELAS ASIÁTICAS A FIXAR:
SHAO JIAYI (CHINA)

Posição: Médio-centro
Idade: 24 anos (1074/80)
Clube em 2004: 1860 Munique (Alemanha)
Médio cerebral. Atento defensivamente, inteligente a distribuir jogo, e grande precisão de passe longo e perigoso a surgir no ataque. É um pouco lento (pelo que pouco joga na Alemanha), mas vê-se que tem muito futebol nos pés e, sobretudo, na cabeça.
ALI KARIMI (IRÃO)

ALI KARIMI (IRÃO)
Posição: Médio ofensivo
Idade: 25 anos (8/11/78)
Clube em 2004: Al Ahli (Emirados Árabes Unidos)
O Feiticeiro de Teerão, um médio maestro com drible, controle de bola, arranque e visão de jogo. Um grande jogador, escondido nos EAU, com categoria para jogar no futebol europeu.
A´ALA HUBAIL (BAHRAIN)

Posição: Ponta de lança,
Idade: 22 anos (25/6/82)
Clube em 2004: Al Ahli (Bahrain)
Rápido e com excelente poder de desmarcação, forte com a bola nos pés e remate colocado. Noventa minutos sempre com os olhos na baliza.
KEIJI TAMADA (JAPÃO)

Posição: Avançado centro
Idade: 23 anos (4/11/80)
Clube em 2004: Kashima Reysol (Japão)
Membro da selecção japonesa sub-20 finalista do Mundial-99. Um avançado muito móvel, veloz, inteligente a deambular entre os defesas, frio a finalizar e tecnicamente evoluído.