TAÇA INTERCONTINENTAL 2002: REAL MADRID-OLIMPIA

1 de Dezembro de 2002
UM SÉCULO EM NOVENTA MINUTOS

Este é, desde os velhos tempos das arquaicas e roufenhas telefonias ou das esbatidas imagens a preto-e-branco, o grande confronto do futebol mundial: Europa-América do Sul. O choque de dois continentes e duas formas de entender o futebol que mesmo os novos tempos da globalização não conseguiram apagar. Embora seja hoje gerida sobretudo por interesses económicos, quase propriedade privada de uma marca de automóveis japonesa, a Taça Intercontinental, criada em 1960, e tendo-se disputada em jogos de duas mãos até 1968, continua a ser um palco privilegiado para assistir a esse histórico duelo que, esta época, coloca frente a frente, na relva de Tóquio, num cenário de mil-e-uma-noites, duas equipas que se encontram a comemorar o seu centenário: o Real Madrid da velha Castela, e o irascível Olímpia Asuncion do Paraguai, legitimo representante da alma guarani.

O OLIMPIA ASUNCION, DECANO DO PARAGUAI

AS TAÇAS INTERCONTINENTAIS DO OLIMPIA ASUNCION 1979: VITÓRIA OLIMPIA ASUNCION- MALMOE (SUECIA) 2-1 e 2-1 1990: DERROTA OLIMPIA ASUNCION-AC MILAN (ITÁLIA) 0-3 Se uma equipa de futebol é, antes de tudo, um estado de animo, os onzes sul americanos, mesmo os da chamada segunda linha, nunca serão um adversário fácil. Supremo símbolo do guerreiro futebol paraguaio, o Olimpia Asunción é um fosso de temperamento. Um coração futebolístico que bate há 100 anos, e que anseia por, na alvorada do novo século, reconquistar um titulo que muitos consideram utópico.

A Alma Guarani

Há algum tempo, José Luis Chilavert, o mítico guarda redes da selecção paraguaia, dizia, em conversa informa, que “talvez o Paraguai não seja, na realidade, uma grande equipa, mas o nosso carácter supera o de qualquer outra”. Dita por quem conhece todos os segredos do futebol guarani, esta definição espelha fielmente o verdadeiro valor do jogo paraguaio, quer seja o da selecção, quer seja o dos seus principais clubes. Decano do futebol paraguaio, o Olimipa de Asunción é a imagem perfeita desta realidade. Uma equipa sem grandes individualidades, que nunca deslumbra pelo futebol exibido, mas que revela, em campo, uma alma e uma atitude competitiva inquebrável, mesmo nos momentos em que tudo parece perdido, como sucedeu na final da Copa Libertadores, onde depois de perder em casa o jogo da 1ªmão contra o S.Caetano, por 0-1, e estar, no desafio da 2ªmão, no Brasil, a perder ao intervalo, também por 0-1, reagiu na segunda parte com uma alma guerreira empolgante, e, deixando a pele em campo, virou o jogo para 2-1, acabando depois por conquistar o trofeu no desempate por penaltys, perante o olhar incrédulo de jogadores, técnicos e adeptos brasileiros. Fundado em 1902, o mais antigo clube do Paraguai, o Olimpia é um ilustre do futebol sul americano. Pelas suas fileiras, já passaram grandes magos da bola, como Romerito, Amarilla e, mais recentemente, a nova coqueluche guarani, Roque Santa Cruz, actualmente no Bayern Munique. A provar esta aura de gigante, o Olimpia conta na sua sala de trofeus com 38 títulos de campeão nacional, 2 Taças Libertadores, 79 e 90, e 1 Taça Intercontinental, conquistada, em 80, frente ao Malmoe da Suécia, representante europeu na edição desse ano depois da recusa do Nottigham Forest, campeão em titulo, em disputar a prova. Na memória desse tempo fica o registo de uma aguerrida e tecnicista equipa paraguaia, orientada pelo ex-internacional uruguaio Luís Cubilla, onde as principais estrelas eram o defesa Solalinde, o médio Torres e o avançado Isasi. Temendo a garra paraguaia, os escandinavos foram um adversário fácil e perderam os dois jogos (0-1 na Suécia e 2-1 em Assunção). A linha desse histórico onze era composto por: Almaida; Solalinde, Paredes, Souza e Di Bertolomeo; Torres, Kiese e Talavera; Isasi, Valik e Aquino. Uma bela equipa que deixou no ar um sedutor aroma de bom futebol. Em 1990, depois de bater o na final da Copa Libertadores, o Olimpia voltou a atacar o trofeu Intercontinental, então já na relva de Tóquio. Pela frente estava o fabuloso Milan de Gullit, Van Basten e Rijkard. No onze paraguaio desse tempo, treinada de novo pelo lendário Cubilla, alinhava então, já em fim de careira, o ponta de lança Amarilla, que jogara no Barcelona em inicio dos anos 80. Era uma equipa lutadora mas foi sempre incapaz de se opor ao poderio italiano, acabando claramente derrotada por 3-0.

UMA EQUIPA COM ALMA GUERREIRA O grande exército de Pumpido

UMA EQUIPA COM ALMA GUERREIRA Como grande impulsionador do Olimpia da era moderna, está o seu polémico presidente Osvaldo Domínguez, empresário milionário, dono de empresas tabaqueiras e que gosta de se assumir como dono de meio-Paraguai. No seu passado, que assume com orgulho, está uma relação de amizade pessoal e política com o antigo ditador Stroessner. Na sua polémica personalidade está a razão do Olimpia não gozar de grande simpatia por todo o continente sul americano. Apesar dessa atmosfera escaldante, o técnico Nery Pumpido, antigo guarda redes da selecção argentina campeã do mundo em 1986, conseguiu congeminar, desde que assumiu o cargo o ano passado, uma atraente equipa, tecnicamente evoluída, lutadora e fiel ao genuíno estilo guarani, disposta a desafiar as estrelas sagradas do Real Madrid. Tacticamente, o onze joga num clássico 4x4x2, onde imperam as cautelas defensivas, a principal preocupação de Pumpido que se assume como um Billardista, isto é, um seguidor da escola preconizada pelo treinador argentino Carlos Billardo, adepto do chamado futebol resultadista, virado para a eficácia e que coloca a exibição em segundo plano, pois, como gosta de dizer, espectáculo é para o cinema ou teatro, no futebol o único realmente importante é ganhar. Apesar de colocar a ordem á frente das individualidades, três jogadores destacam-se entre o exército de Pumpido: o guarda redes La Muralla Tavarelli, o médio uruguaio Orteman, e o veterano avançado El Peque Benitez. Vejamos:
Não existem grandes equipas sem grandes guarda redes. Para muitos, o ágil Tavarelli, também lhe chamam El Mono, muito forte entre e fora dos postes, e com grande personalidade, já é o melhor guarda redes paraguaio. Este é um facto indiscutível para qualquer analista do futebol paraguaio e só o temor a Chilavert pode alguém impedir de o dizer em voz alta. Á sua frente, no eixo da defesa, mora uma potente dupla de centrais, composta por Zelaya, 29 anos e Cacéres, stopper, 23 anos, uma grande esperança o futebol guarani, que também pode alinhar a meio campo, actuando, nesse caso, como central, o jovem Ganso Benítez. Orteman, 24 anos, é, neste momento, o jogador mais importante da equipa, o seu verdadeiro motor. Muito combativo e com qualidade técnica, enche todo o meio campo do Olimpia, ora a defender, ora a transportar a bola para a frente. Um grande jogador. A seu lado, no sector intermediário, estão os experientes Enciso, 28 anos, um trinco-volante, grande recuperador de bolas, e Gastón Córdoba, 28 anos, muito lutador. No ataque, continua a destacar-se o velho Miguel Angel Benitez, El Peque, 32 anos, regressado a época passada de uma carreira, entre 93 e 2001, no futebol espanhol, passando por At. Madrid e Espanhol, onde sofreu uma grave lesão que o afastou dos relvados por um ano. Apesar de já não ser o mesmo jogador, carente da velocidade de outrora, renasceu para o futebol no Olimpia, onde resgatou o faro de golo e o perfume técnico do seu futebol. Outros jogadores a reter são o perigoso Rodrigo López e o astuto Báez, 29 anos, excelente a movimentar-se sem bola para aparecer depois no sitio certo a fazer o golo.

De Di Stefano a Raúl: O Real e o Novo Mundo

O REAL MADRID E AS EQUIPAS SUL AMERICANAS Há equipas e jogadores que, eternamente, moram na nossa memória com a dimensão dos mitos. O Real Madrid dos anos 50 atravessou o tempo e moldou para sempre a imagem do gigante espanhol. Um estilo senhorial, com a técnica e a táctica apoiada na velocidade que, secularmente, sempre se sentiu incomodada com a truculenta e aguerrida magia sul americana. Uma questão de ritmo de jogo que, meio século depois, preocupa agora a geração de Raúl. AS TAÇAS INTERCONTINENTAIS DO REAL MADRID 1960: VITÓRIA REAL MADRID-PEÑAROL 0-0 e 5-0 1966: DERROTA REAL MADRID-PEÑAROL 2-0 e 2-0 1998: VITÓRIA REAL MADRID-VASCO DA GAMA 2-1 2001: DERROTA REAL MADRID-BOCA JUNIORES 0-2
Quando em 1960 se disputou a 1ª Taça Intercontinental da história, o Real Madrid já tinha na sua sala de trofeus, 5 Taças dos Campeões Europeus. Uma epopeia que, curiosamente, se começara a gerar no dia em que recebera na sua casa, num torneio para comemorar o seu cinquentenário, em 1952, a equipa colombiana do Milionários de Bogotá, com o seu célebre onze Bailado Azul, famosa então por reunir nesse tempo um conjunto de grandes jogadores argentinos que em litígio com a Federação do seu país se encontravam clandestinamente, á revelia da FIFA, a jogar na Colômbia. Entre eles estava Di Stefano. Mal viu o brilhar na relva de Chamartin, devorando o seu Real, Don Santiago Bernabeú, sentado na tribuna, logo exclamou de charuto em punho: “Quiero El rúbio! Quiero que me fichen El rúbio!”. Assim foi. Com ele em campo, ao lado de um grupo de jogadores do outro mundo, como Gento, Kopa ou Puskas, o Real partiu para a sua lendária cruzada europeia dos anos 50. Era um tempo, porém, onde os contactos internacontinentais eram escassos e os futebolistas do Novo Mundo eram vistos do Velho Continente quase com uma aura sobrenatural. Uma ideia que aumentou em meados dos anos 50, quando os argentinos do Independiente, em digressão mundial, e integrando os jovens Mucgeli, Cecconato, Lacasia, Grillo e Cruz, visitou Madrid. Conta-se então que, quando viu o onze que ia alinhar, Di Stefano ter dito, em surdina, ao técnico gaúcho: “Vais jogar mesmo com estes pibes? Olha que isto vai ser a sério...” E foi, muito sério, mesmo. Irresistíveis, com um jogo de encantar, o Independiente venceu por 5-0 e gelou Chamartin.
Durante os anos seguintes, o simples mencionar desse jogo entre os madrilenos quase provocava um temor reverencial em relação ao futebol sul americano. Depois de ganhar tudo no cenário europeu, o Real Madrid necessitava agora de alimentar o seu ego vencendo os gigantes da América do Sul. O adversário na 1ª Taça Intercontinental era o Peñarol do Uruguai que conquistara a primeira Copa Liberadores da história. Era o choque de duas distintas escolas futebolísticas, mas que falavam a mesma língua. Conscientes que estava em jogo o seu prestigio mundial, o Real encarou o jogo como se estivesse a escrever uma das mais importantes páginas da história do futebol mundial. O primeiro jogo, no Estádio Centenário de Montevideo, com 90 mil espectadores nas bancadas e jogada sob uma chuva torrencial não corresponderia, porém, ás expectativas. Treinados pelo lendário Roberto Scarone, o onze uruguaio, onde jogavam o cerebral médio Cubilla e o goleador equatoriano El Gato Spencer, resistiu ás investidas de Di Stefano e Puskas e logrou um empate a zero. No jogo de Madrid, porém, tudo seria diferente. Colocando toda a sua máquina branca em ebulição, o Real realizou uma exibição de sonho e aos 8 minutos já estava a ganhar por 3-0! O resultado final de 5-1 não deixava dúvidas. O jogo pausado e tecnicista dos sul americanos não tivera hipóteses perante a velocidade e a categoria do onze europeu. Foi a única aparição desta lendária equipa merengue na Taça Intercontinental. Quando em 1966 voltou a disputar o trofeu, era já outra geração, o chamado onze yé-yé que estaria em cena. Uma equipa jovem, orientada por Miguel Muñoz, onde estavam, entre outros, Pirri, Amâncio e Grosso. Do outro lado estava, de novo, o Peñarol ansioso por vingar a goleada de 60. Para isso contava com estrelas como Mazurkiewicz, Gonçalves, Joya, Abbadie, Cortés e o eterno Spencer, autor dos dois golos que derrotaram o Real no jogo da 1ªmão em Montevideo. Bem orientados pelo sábio Roque Gastón Máspoli, o Peñarol voltaria a impor-se claramente aos muchachos de Muñoz, em Madrid, repetindo o triunfo por 2-0. A difícil relação do Real Madrid com as equipas sul americanas, e a dificuldade em lhes impor o seu jogo europeizado, voltava a ser colocado em questão.

O DILEMA DE VICENTE DEL BOSQUE: As estrelas e a táctica

Depois de longos anos longe da conquista da Taça das Orelhas Grandes, como lhe chamou Di Stefano, o Real Madrid, após falhar a sua reconquista com a famosa Quinta del Buitre, reencontraria o caminho para o topo da Europa já em fins do Séc.XX. Como líder dessa nova geração fantástica emergiu um chico mágico chamado Raúl. No palco Intercontinental, voltou a sentir os dois aromas. Contra os brasileiros do Vasco da Gama, com um jogo mais tecnicista e lento, o Real venceu por 2-1. Contra os argentinos do Boca Juniores, donos de uma técnica mais aguerrida e veloz, perdeu por 1-2. Foi, em suma, em ambos os casos, uma questão de ritmo de jogo. O actual Real Madrid das estrelas, é ainda, neste momento, uma equipa em busca de um padrão de jogo claramente definido. Longe de ser um grande estratega táctico, Del Bosque é um treinador, digamos, mais intuitivo. Oscilando entre o moderno 4x2x3x1 e o clássico 4x4x2, sobretudo quando em fase ofensiva Raul se adianta para junto do ponta-de-lança, busca encontrar um compromisso entre a ordem e o talento, mas como ele próprio afirma: “Não é fácil buscar um jogo colectivo para esta equipa. Os nossos jogadores têm tanto talento que não posso cortar a sua inspiração!”. Em termos colectivos, a equipa continua a revelar falta de consistência defensiva, sobretudo quando, em jogadas de contra-ataque, o adversário ataca pelos flancos, postos onde o Real carece de médios de vocação defensiva, capazes de fechar as faixas e dobrar as constantes subidas dos laterais ofensivos Roberto Carlos e Michel Salgado. Ofensivamente, frente ao 4x4x2 paraguaio, muitas vezes defensivamente concentrado num compacto 4x5x1, a principal dificuldade do Real Madrid será a de encontrar tempo para pensar. Um dilema constante para o cocktail de estrelas Zidane-Figo-Raúl-Ronaldo, que apesar do seu talento mágico, revela, muitas vezes, sobretudo em zonas do terreno mais povoadas, alguma falta de mecanização colectiva que só o valor técnico divinal dos seus jogadores permite atenuar. Pensando no seu passado recente, falta a este Real um jogador-farol no estilo de como Redondo, o homem que para além de arrumar a casa, a seguir decorava-a com flores. Não é, porém, fácil sistematizar uma constelação de estrelas.

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