TAÇA INTERCONTINENTAL (História): O CHOQUE DAS VELHAS ESCOLAS

10 de Dezembro de 2003
EUROPA – AMÉRICA DO SUL:

Inicio dos anos 60. Num tempo em que o futebol rompia fronteiras, com a Taça dos Campeões Europeus e a Copa Libertadores da América do Sul a apaixonarem todo o mundo futebolístico, Don Santiago Bernabéu, patriarca do Real Madrid lançou a ideia: Um jogo entre os campeões dos dois continentes, o choque entre duas escolas: a europeia e a sul americana.
Quando, pela última vez, em Tóquio, FC Porto e Once Caldas, entrarem em campo, apenas seguirem as pisadas de um mundo de estrelas, de Pelé a Zicoe, desde 1960, já disputaram a Taça Intercontinental. Um olhar aos seus grandes momentos.
A tentação de chamar a esse confronto Taça Mundial de Clubes, logo foi reprovada pela FIFA. Ambas confederações, no entanto, apoiavam a ideia. Assim, em 1960, nasceria, sem a benção oficial da FIFA, a chamada Taça Intercontinental. Até 1968, disputou-se em duas mãos. Com um jogo no terreno de cada equipa. Nos anos 70, porém, sem os grandes impulsionadores de outrora, a prova perdeu prestigio. Muitas vezes o Campeão Europeu recusava participar e era o finalista vencido da Taça dos Campeões que surgia a defender a honra do continente frente aos magos sul americanos que sempre pareceram dar maior destaque á prova. Em 75 e 78, a prova chega mesmo a não disputar-se. Teme-se a sua extinção, até que em 1980, num tempo em que a economia começava a tecer a sua teia em torno do mundo do futebol, surge a intervenção japonesa a salvar a competição, graças á sponsorização da Toyota, transformando-a num aliciante negócio futebolistico. Desde 1981, os campeões europeus e sul americanos reunem-se em Tokio para, emoldurado num aliciante contexto financeiro, disputar a coroa intercontinental. Com o tempo, o seu vencedor passou a ser indevidamente tratado como Campeão Mundial de clubes. Elitista, a FIFA sempre considerou a prova um intruso no seu mundo particular, e a partir de 2000 passou a organizar também o seu Mundialito de clubes, com os campeões dos quatro continentes. O futuro da Taça Intercontinental, ou Toyota Cup pode estar ameaçada, mas para os adeptos do futebol do dois continentes ela já ganhou dimensão própria. O exótico cenário oriental deu-lhe contornos de mil e uma noites e, a sua conquista passou a ser uma meta dos grandes clubes.

REAL MADRID E PEÑAROL: OS PRIMEIROS CAMPEÕES

Honrando Santiago Bernabéu, o homem que moveu montanhas para organizar a Taça Intercontinental, o Real Madrid foi o seu primeiro grande vencedor. Vivia-se a era da saeta rúbia, Di Stefano, génio dos nos 50. Ao mesmo tempo, na América do Sul, uma equipa resgatava a imagem vitoriosa do futebol uruguaio, mito dos anos 30. Foi o tempo do grande Peñarol, máximo símbolo do futebol celeste, que por duas vezes consecutivas, guiado pelo maestro Luís Cubilla e pelos golos do seu avançado equatoriano Alberto Spencer, conquistou a Copa Libertadores. No jogo decisivo, em Chamartin, o Real Madrid, numa tarde irresistível do major galopante, Puskas, venceu por 5-1, após o nulo de Montevideo dois meses antes. A consagração mundial daquele fabuloso Peñarol surgiria logo no ano seguinte, frente ao Benfica de Eusébio, que após vencer por 1-0 na Luz, sofreu uma derrota ciclónica em Montevideo: 5-0! No jogo de desempate, dois dias depois ainda no Uruguai, dois golos de Sacía deram a Taça aos uruguaios, que venceram por 2-1. Em, 1966, aconteceu o reencontro entre o Peñarol e o Real Madrid. A geração de Di Stefano dera lugar ao chamado onze yé-yé. Entre os uruguaios, Spencer continuava a ser uma máquina goleadora. Seis anos depois do primeiro embate, o gigante uruguaio saboreou a vingança futebolística, venceu ambos os jogos por 2-0, e repôs o orgulho charrua que nunca gosta de perder frente ao Império castelhano.

O SANTOS DE PELÉ E O INTER DE HERRERA

Apesar do virtuosismo dos magos de Montevideo, a grande equipa sul americana que marcou os anos 60, foi, sem dúvida, o Santos de Pelé. Ao lado do Rei jogava o artilheiro Coutinho. Ainda hoje se discute quem foi o verdadeiro marcador de muitos golos que o Santos fez nesses anos, tal a semelhança física que existia entre os dois. Em 62 e 63, a Taça Intercontinental sentiu o toque mágico do Rei. Para a história ficou um tenebroso jogo na Luz, onde, com o diabo no corpo, Pelé e Coutinho arrasara o Benfica: 5-2! A proeza do Santos em vencer duas vezes consecutivas a Taça Intercontinental foi repetida em 64 e 65, pelo Inter de El Diablo Helénio Herrera, com um onze que marcou o futebol europeu dos anos 60. Em ambas as épocas, derrotou o Independientes de José Manuel Giúdice, com Savoy, Navarro e Mura. Apesar do seu talento e garra, não conseguiram driblar o perfume táctico dos italianos, que nos jogos em Buenos Aires apresentaram sempre um duro Cattenacio, que lhes valeu um nulo e um derrota tangencial por 1-0. Depois, no S.Siro, orquestrados pelo espanhol Luisito Suarez, o arquitecto, ao lado do elegante Mazzola, do lutador Corso e da flecha brasileira Jaír, sentenciaram o resultado: 3-0. Em 1967, Buenos Airez ofereceu ao mundo outra grande equipa: O Racing Club, hoje a agonizar numa grave crise financeira que quase levou á sua extinção. Mais do que nunca, os nomes do defesa Perfumo e dos avançados Raffo, Cardenas, Rodriguez e Maschio, estrelas do Racing 67, provocam grande nostalgia entre os seus desesperados adeptos.

ANOS 60: A MÁQUINA DE GUERRA DO ESTUDIANTES

Mas seria no final da década que surgiria, para os críticos da época, a equipa sul americana com maior inteligência táctica: o Estudiantes de La Plata. Apesar de menos artístico que o brasileiro, o futebol argentino era, porém, mais competitivo, sobretudo a nível de clubes. Sob a orientação de Osvaldo Zubeldia, adepto de procurar a vitória sem olhar a meios, o Estudiantes transformou-se numa autêntica máquina de guerra, onde brilhava Verón, La bruja goleadora, pai do actual jogador da Lazio, com o mesmo nome. Desse tempo, conta-se a história que um dos seus jogadores era considerado uma grande ameaça durante os jogos por, sem o árbitro ver, costumar picar os seus adversários com uma agulha! Esse vilão chamava-se Carlos Bilardo, no presente conceituado treinador argentino, campeão do mundo em 86. Hoje, quando lhe falam nessa história, ri-se e encolhe os ombros: Dentro da cancha apenas se tem que ganhar os jogos! Em 1969, depois de vencer o Manchester United de Bobby Charlton, a fúria do Estudiantes chocou com um muro italiano: o AC Milan de Nero Rocco, outro defensivista dogmático, que contava no onze com o defesa alemão Schnllinger e o argentino Nestor Combi. Depois de vencer por 3-0 em Itália, o jogo da segunda mão foi uma batalha campal, com o defesa Aguirre Suárez a agredir a soco Combi, que teve de sair em maca, enquanto que Manera corria furioso atrás de Rivera. Na cancha, o Milan resistiu, perdeu por 2-1, mas ganhou o trofeu. Em 1970, o Estudiantes, tri campeão sul americano surge pela última vez em cena, contra o Feyenord de Van Hanegem, Israel e Kindvall. Aos 10 minutos, os argentinos já ganhavam por 2-0. Do outro lado, no entanto, estava uma sábia equipa holandesa, que, impondo um futebol moderno, mesclado de técnica e força física, chegou ao empate, 2-2, para depois, em Roterdão, sob chuva torrencial, ditar as leis do Futebol Total, e vencer por 1-0 e conquistando o Taça.

ANOS 70: O VELHO CONTINENTE SEM CHAMA

No inicio dos anos 70, o Ajax de Cruyff causava admiração em toda a Europa. Em 1971, a recusa em deslocarem-se á Argentina para disputar a Taça Intercontinental, causou uma profunda decepção no mundo do futebol. Depois das emoções dos anos 60, a competição começava a perder o prestigio alcançado, perante a forma depreciativa como os europeus passaram a ver o jogo que continuava sem o beneplácito da FIFA. Tal como o Ajax, em 71 e 73, também o Bayern Munique recusou participar nas edições de 74 e75, enquanto o Nottigham Forest e Liverpool, faltaram em 79 e 77 e 78, respectivamente. As cortes de Cruyff e Beckembauer fariam, no entanto, uma aparição no palco intercontinental. Em 72, quando o Ajax, venceu o Independiente (1-1 e 3-0), numa noite inspirada do avançado centro Rep, e em 76, quando o bombardeiro Muller derrubou a equipa brasileira do Cruzeiro, onde jogavam, já em final de carreira, grandes estrelas canarinhas, como Jairzinho e Piazza. Se a nível de selecção, o Brasil mandava no mundo do futebol, no plano clubístico era a Argentina que continuava a reinar. A década de 70 confirmou essa tendência, consagrando a nova fantástica equipa do Independiente, os diabos vermelhos de Buenos Airez, que depois de três tentativas falhadas para se sagrar campeão intercontinental (64, 65, 72), conquistaram o titulo em 73, frente á Juventus de Bettega, com um onze a memória retêm os nomes do guarda-redes Santoro, o defesa Pavoni, os goleadores Balbuena e Bertoni, e onde a revelação foi um jovem chamado Bochini, ainda hoje considerado um dos melhores jogadores argentinos de todos os tempos. A capital argentina era uma fonte inesgotável de grandes equipas. No final da década, explode no bairro pobre de La Boca, o popular Boca Juniores, onde nessa época se iniciou a lenda dos guarda-redes líberos, os locos latinos. Antes de Chilavert e Higuita, o futebol latino americano consagrou o louco Hugo Gatti, que iria jogar até bem depois dos 40 anos. Seria ele a alma do Boca que em 78 derrotaria, com um jogo virtuoso e matreiro, o Borussia Monchengladbach.

ANOS 80: DE ZICO A GULLIT

Em 80, disputa-se a primeira edição sob organização japonesa. Victorino, avançado do Nacional de Montevideo, autor do golo que derrotou o Nottingham Forest de Trevor Francis, foi o primeiro jogador a receber um Toyota, oferta que a partir dessa data seria sempre feita ao melhor homem em campo. Os interesses comerciais passavam a comandar o destino da Taça. Em 81, um dos choques mais célebres: O Flamengo de Zico contra o Liverpool de Dalglish. Frente a frente, duas escolas, dois estilos, duas formas de entender o futebol. Guiados pelo rasgos de génio do Galinho de Quintino, os brasileiros fazem uma primeira parte de sonho, sufocando as redes de Grobellar, que não conseguiu defender os remates de Adilio e Nunes, autor de dois golos, um avançado centro peitudo que jogaria no Boavista. O sedutor aroma brasileiro só voltaria a emergir mais uma vez durante a década. Em 1983, quando o Grémio de Renato Gaúcho, dois golos, dobrou o futebol força germânico, expresso no Hamburgo de Magath. Velha glória do futebol sul americano, o River Plate apenas por uma vez conquistou a Taça Intercontinental. Foi em 86, quando um golo do uruguaio Alzamendi bateu o Steaua Bucarest de Lacatus. Em 1987, a única vitória lusa no palco intercontinental, quando sob um sumptuoso manto de neve, o FC Porto de Ivic, derrotou, com um soberbo golo do Madjer, Profeta do Magreb, o Peñarol. Na viragem para a última década do século, explodiu, em todas as dimensões, o milionário Milan de Berlusconi, uma antevisão das equipas miscigenadas da actualidade, ao ponto de, no arranque dos 90, quase se falar num Milan-holandês e num Milan-jugoslavo, lembrando a alternância de titularidade de Gullit, Rijkard, Van Basten, Papin, Savicevic e Boban.

ANOS 90: O SÃO PAULO DE TELÊ SANTANA

No presente, o confronto entre as duas escolas, europeia e sul americana, deixou de ter o encanto de outrora. As muitas competições que hoje se disputam, esbateram a magia que rodeavam os choques dos anos 60. O final do século ficou marcado sobretudo pelo emergir de grandes equipas brasileiras que, finalmente, conseguiram enfrentar com sucesso os lutadores argentinos e os tácticos europeus. Foi nesse contexto de evolução táctica que surgiu o grande São Paulo de Telê Santana, vencedor da prova em 92 e 93, conduzido por Raí, ao lado de Palhinha, Cafu e do veterano Toninho Cerzo, 38 anos, derrotando, com classe, técnica e personalidade, os gigantes de Barcelona e Milão. No seu historial de meio século, as equipas sul americanas, sempre pareceram mais motivadas na senda da coroa intercontinental. As últimas cinco épocas, no entanto, reacenderam a glória europeia. Em 95, o Ajax de Kluivert bateu o Grémio de Jardel. Em 96, a Juventus de Del Piero derrotou o River Plate de Ortega. Em 97, o Borussia Dortmund de Paulo Sousa venceu o Cruzeiro de Dida, reforçado só para este jogo, com Bebeto e Donizete, em 98, o Real Madrid de Raúl bateu o Vasco da Gama do elegante ala esquerdo Filipe, sedutora promessa do futebol brasileiro, e em 99, o Manchester United de Beckham derrotou o Palmeiras de Asprillla e Paulo Nunes. A última vitória sul americana nos anos 90, sucedeu em 1994, com a firma de Chilavert, o guarda redes goleador, lider espiritual do Velez Sarsfield de Carlos Bianchi, que no ano 2000 e 2003 regressou a Tóquio para, á frente do Boca Juniores, voltar a conquistar mais dois titulos intercontinentais.

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