Não é fácil mudar uma equipa com a época decorrer, mas a proeza de José Anigo, á frente do Marselha em substituição de Alain Perrin desde Janeiro, prova como, por vezes, a simples alteração de sistema táctica e a substituição de dois ou três elementos podem, num ápice, revolucionar o estado de animo e a forma de jogar de todo um onze. Filho da cidade e do clube, uma sua segunda casa, onde jogou de 1978 a 1987, passando depois para os seus quadros técnicos, Anigo, sem cultivar a mesma pose intelectual dos metódicos e elogiados técnicos franceses do presente, é um treinador que se impõe, sobretudo, pelo seu carácter motivador e frontal.
Em síntese, a sua revolução fez-se sentir em dois principais vectores: no plano táctico e a nível de individualidades. Tendo entrado em pleno mercado de transferências de Inverno, mexeu, desde logo, em alguns pontos chaves da equipa. Assim, após as saídas do central Van Buyten e dos avançados Fernandão e Sytchev, foram contratados, com o seu aval (para além do já previsto regresso de Barthez), quatro novos jogadores: o lateral direito brasileiro Ferreira, o médio-ala flanqueador Batllès (ambos ex-Bastia), o central Sommeil (ex-Manchester City), e o espanhol Koke (ex-Málaga B). Desse quarteto, Ferreira e Batllès tornaram-se pilares do onze, ao mesmo tempo que, na equipa titular, passaram a alinhar o central senegalês Beye e a dupla de trincos Flamini-N`Diaye, saindo Ecker, Celestini, Vachousek e Christanval.
No plano táctico, por sua vez, abandonou o clássico 4x4x2 em linha de Perrin e implementou um dinâmico 3x4x2x1, moderno sistema de três defesas, que, em campo, adquire, depois, várias formas, entre o fechado 5x4x1, a defender, e o elástico 3x3x2x2, a atacar.
Drogba-Meriem: o despertar das estrelas

Na fase ofensiva, o carisma de Anigo também se fez sentir na forma dos dois principais talentos da equipa: o médio criativo Meriem e o ponta de lança Drogba. Embora, no papel, o 3x4x2x1, por só jogar com um avançado fixo, pareça um sistema de recorte defensivo, a verdade é que, no campo, ele revela uma enorme dinâmica ofensiva, fruto, sobretudo, da profundidade de jogo pelos flancos e da enorme categoria de Drogba que após ter jogado sempre em toda a sua carreira, no Guingamp ou no Marselha de Perrin, com outro avançado a seu lado, em sistemas de 4x4x2, passou a jogar sozinho na frente de ataque. Apesar da distância entre linhas que muitas vezes, quando a equipa recupera a bola ainda no seu meio campo, existe entre os médios ofensivos e Drogba, o onze raramente opta pelo jogo directo de bolas em profundidade para o nº9 da Costa do Marfim, optando antes por sair a jogar de forma apoiada, com os alas a subir, flectindo, muitas vezes, em diagonal, para procurar jogadas de triangulação, desenhando uma variante de 3x3x2x2. É a fase de construção ofensiva no qual se destaca a classe, sobre a esquerda, de Meriem, enquanto que, na direita, Batllès, mais defensivo, ou Marlet, com maior profundidade ofensiva, transformando-se muitas vezes quase num segundo avançado, abrem o jogo da equipa a toda a largura do terreno, pelo qual também são responsáveis, num inteligente jogo de compensações defesa-ataque, os laterais Ferreira, a direita, e Dos Santos, á esquerda, dois carrilleros com perfeito sentido posicional. A outra opção, no plano atacante, é, como nº9 puro ou descaindo mais para a direita, o rebelde egípcio Mido.
A estrutura defensiva

Defensivamente, a equipa, pode-se dizer, tem um perfil tipicamente latino no sentido italiano do termo. Ou seja, revela uma disciplina táctico posicional muito rígida, ao ponto dos seus cinco elementos de cariz essencialmente defensivo raramente abandonarem as suas posições recuadas. Na defesa, os três pilares são Beye, mais á direita, Hemdani, originariamente trinco (onde regressa quando Anigo joga com a defesa a «4»), no centro, e Maité, sobre a esquerda. Á frente deste trio, a dupla de trincos Flamini-N`Diaye, dois ladrões de bolas que também sabem jogar curto e controlar o ritmo de jogo.
Com este novo sistema táctico, o Marselha ganhou maior personalidade e tornou-se uma equipa, estruturalmente de contra-ataque, muito traiçoeira, especulando com o jogo sem nunca perder o seu controle. Entre o onze que defrontou o FC Porto e o actual não existem, por isso, no plano táctico ou estilo de jogo, colectivo e individual, qualquer ponto de contacto. A equipa cresceu mentalmente e, sobretudo, ganhou uma ideologia mais de acordo com a característica dos seus jogadores. O resto, são os golos de Drogba....
Jogadores-Chave
MEITÉ

Defesa-central
Nacionalidade: Costa do Marfim (23 anos, 1,85m. e 82 kg.)
Um lateral esquerdo transformado num poderoso, seguro e discreto central. Exímio no jogo aéreo, perfeito no tempo de entrada para o corte e sempre no caminho da bola. Sem ser um tecnicista, também sabe entregar a bola.
MERIEM

Médio-ofensivo
Nacionalidade: Francês (24 anos, 1,74m. e 70 kg.)
O elo de ligação entre o meio campo e o ataque. Um grande arquitecto de bom futebol, ora rasgando pelo seu flanco, ora buscando espaços centrais para organizar jogo. Tecnicamente perfeito, é um rebelde criativo.
DROGBA

Ponta de Lança
Nacionalidade: Costa do Marfim (26 anos, 1,80m. e 74 kg.)
Um pontas de lança fabuloso, um dos mais fortes do actual futebol europeu. Sozinho entre os centrais, mescla de força e técnica em velocidade, remate forte, drible em progressão e muito inteligente a desmarcar-se. Um fenómeno africano.
ONZE TIPO/
Sistema: 3x4x2x1;
Treinador: José Anigo