Táctica de “olhos vendados”

17 de Setembro de 2011 09:06
O novo Inter de Gasperini. O que leva uma equipa a mudar tanto o sistema de jogo?

 

Mudar a forma de jogar de uma equipa é um processo complexo que altera de hábitos tácticos (posicionamento e movimentação). Quando estruturalmente profundos, pode levar os seus jogadores a perder as referências em que durante anos viveram. É alta sensibilidade da táctica no comportamento humano do jogador. Uma equipa perfeita para esta reflexão é o novo Inter de Gasperini. Após Mourinho, Benítez e Leonardo, resultados diferentes, mas sempre estruturada com uma clássica linha defensiva a 4 (4x2x3x1, 4x3x1x2…) desenha agora um módulo com defesa a 3 (três defesas que, baixando os laterais, passa a 5.). Quando o contratou, o Inter já sabia que isto ia acontecer. É a matriz táctica tradicional das equipas de Gasperini (como o Génova a época passada). Um sistema de risco nas transições e que precisa de tempo para ser afinado, pois tem uma distribuição posicional inicial menos racional que qualquer outro sistema e porque Gasperini não adquiriu novos jogadores já habituados a esse sistema. Pelo contrário, quer reciclar jogadores que antes sempre jogaram a 4. Um choque para uma totalmente diferente disposição/dinâmica da defesa a 3. No primeiro jogo do Scudetto, esse trio recuado foi Samuel (canhoto no meio), Lucio (na direita) e Zanetti (lateral direito ou médio, inventado como central pela esquerda).
 
Gasperini não fala em sector defensivo. Fala em fase defensiva. Toda a equipa, não só os defesas, têm de perceber a nova forma de jogar. Com Nagamoto ou Obi a fazer o flanco esquerdo e Jonathan na direita, de perfil com dois pivots Cambiasso-Stankovic, o onze abdica do trequartista (médio-ofensivo organizador) no corredor central, Sneijder. A estrutura é um 3x4x3 com o ataque em V (Milito ponta-de-lança, Forlán e Zarate abertos). Um labirinto que, primeiro, atirou Sneijder para o banco e, depois, quando entrou, colocou-o, fora de lugar, na ala esquerda. O sistema necessita, claro, de profundidade pelas faixas, mas as características dos eleitos para o fazer chocam conceptualmente com essa intenção.
É sistema que exige uma enorme percentagem de posse de bola, pois quando a perde o risco de ficar desequilibrado em transição defensiva é enorme. Pede também uma defesa subida, mas com aquele 3 no passar da idade cada vez mais lentos, tal traduziu-se, na prática, em dar espaço nas costas para as entradas dos avançados do Palermo.
Construir um jogar eficaz numa estrutura destas leva muito tempo. Para além do debate táctico sobre as vantagens da defesa a 3, há uma pergunta mais prática: que necessidade tinha o projecto-Inter de provocar esta mudança tão radical na sua forma de jogar?
 
A utilidade de um modelo é, sobretudo, levar o mais rapidamente possível os membros da equipa a descodificar a obra táctica que, em campo, na prática, serão eles mesmo que vão construir. Contrariar essa natureza é como os obrigar a jogar tacticamente de olhos vendados.
 
 
 
 
A “casa” e a equipa
 
Fala-se muito no futebol actual que as equipas já não tiram tanto vantagem de jogar em casa. Também tenho um pouco essa ideia, mas ao ver a Juventus a estrear o seu novo Estádio (mais pequeno, cheio, publico em cima do relvado, quando antes tinha um estádio enorme, mas meio vazio e o publico longe das bancadas) repensei essa ideia. Os jogadores pareciam outros (motivação e dinâmica). Uma grande exibição (4-1 ao Parma) levitada por um grande ambiente.
Atento, Conte está a construir uma equipa cada vez mais sólida tacticamente com criatividade incorporada. Essa arte ainda tem Del Piero numa posição quase de segundo avançado atrás de Matri (pujante como um nº9 da velha escola italiana) ou Vucinic, enquanto mais atrás fica um talento que as amarras do Calcio têm, nas últimas épocas, amordaçado em nome da disciplina táctica sem bola: Marchisio. Joga agora mais solto desde trás, como elemento livre de um duplo-pivot ao lado do circular de Pirlo. Nas alas, Pepe, Giaccherini e Krasic dão grande profundidade, bem apoiados (e protegidos) por laterais atentos (Lichsteiner-De Ceglie).
 
Vendo esta qualidade, evolução táctica e ponderando todas as influências do entorno no rendimento de uma equipa, acho que este novo habitat, Estádio, pode, no final, valer pelo menos mais…10 pontos à Juventus.
 
 
 
 
 
Roma de Luís Henrique    
 
Primeira inquietação do Calcio: a Roma de Luís Henrique. Eliminado pelo Slovan Bratislava da Liga Europa e derrota em casa com o Cagliari. Efeito natural dum projecto de jogo deslocado no tempo e no espaço. Tentar construir um modelo de posse estrutural (o sonho do mini-Barça) quando o onze joga com grande distância entrelinhas e não pressiona alto para a recuperar a bola, condena, desde logo, essa ideologia. Tenta, também, jogar sem ponta-de-lança. Mete um 9 disfarçado de médio, mas Totti já tem demasiados vícios de trequartista ou avançado aburguesado para fazer esse papel. Bojan surgiu demasiado encostado à direita. Não é um ala, é mais um avançado móvel, tal como Osvaldo, possante e ágil nº9, enfiado na esquerda.

 

Com este trio atacante confundido na sua natureza, os melhores traços surgem desde o meio-campo quando Pjanic pega na bola e fala através da precisão de passe. No resto do tempo, o meio-campo não dialoga com o ataque e não pressiona. Recua mas faz uma zona passiva que mata a transição/recuperação. Cedo surgiram pontapés longos dos defesas ou do guarda-redes. Uma boa ideia ameaçada.

Artigos Relacionados

  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • O "Saco azul" da táctica O `Saco azul` da táctica 8 de Março de 2012 O choque do clássico: “Vítor Pereira treinador do FC Porto na Luz” derrotou “Vítor Pereira treinador...
  • Chelsea: As fronteiras da táctica Chelsea: As fronteiras da táctica 26 de Fevereiro de 2012 De Mata a David Luiz: Jogar bem nas zonas erradas ou o caso do defesa que pensa como um avançado!
  • África: bola, relva e táctica África: bola, relva e táctica 19 de Fevereiro de 2012 A Zambia e o CAN 201, equipas e reflexões: Qual o momento do actual futebol africano?
  • NOTAS 2011/12 (28) NOTAS 2011/12 (28) 10 de Fevereiro de 2012 1. Prazer do sofrimento; 2. Personalidade e recuperação; 3. Janko, `páginas amarelas`.