Afirma Menotti, numa das suas interessantes reflexões táctico-filosóficas, que á medida que uma equipa avança no relvado, este vai-se tornando progressivamente mais curto e simultaneamente mais largo. A forma de melhor aproveitar essa nova dimensão, ilusoriamente mais curta do terreno, é, dizem os livros e as leis da racionalidade, utilizando os extremos. Nesse sentido, o último Monaco-Lyon, colocando em confronto primeiro e segundo da Liga francesa, foi uma revivalista lição de futebol, com ambas as equipas a encherem o campo com extremos de uma forma como raramente se vê no futebol actual. De um lado, o 4x2x3x1 do Lyon de Le Guen, que se desdobrava, a atacar, em 4x3x3, ou até, em 4x2x4, com dois extremos fixos, bem abertos nos flancos, correndo pelos respectivos corredores, abrindo o ataque a toda a largura do terreno: Malouda, á esquerda, e Govou, á direita. Do outro lado, o 4x4x2, estilo 4x2x2x2 do Mónaco de Deschamps, com dois avançados (Morientes-Giuly) servidos constantemente por dois sublimes extremos mascarados de alas-flanqueadores: Rothen, á esquerda, e a revelação Plasil, á direita, aproveitando a oportunidade nascida do facto de, sem Prso, o perigoso Giuly, também exímio a rasgar pelos flancos, ter jogado mais no centro do ataque. Com estes intérpretes, o campo até parecia maior.
Como dizia inteligentemente Deschamps, numa recente entrevista, a tradição do bom futebol faz-se tanto nos movimentos com bola, como nos movimentos sem ela. Ou seja, um jogador e, consequentemente, uma equipa, tem de saber manobrar muito bem estes dois conceitos para gerir, com eficácia, o tempo e os espaços com igual qualidade. Nesse contexto, o papel dos extremos, alongando ou abrindo o campo, é muito importante, mesmo que não toquem na bola nos movimentos atacantes, pois obriga a outra equipa também a alargar as suas linhas, abrindo espaços de penetração. Depois, claro, quando a bola vai para aos pés desses cavaleiros dos flancos, a diferença é feita pela velocidade, drible e capacidade de cruzamento.