De um lado a velocidade pura em todos os movimentos. Do outro a cultura de posse com grande inspiração. Pelo meio, entre a vertigem e a pausa, treze pontos de diferença. São muitos, sem dúvida. Na base, a pedra das primeiras quatro jornadas (nove pontos perdidos pelo Benfica) que o conjunto encarnado nunca mais conseguiu levantar no decorrer da época. Entrando em cada campo, em cada jogo, com a serenidade dessa vantagem pontual, a táctica pensada portista, com posse de bola apoiada, encontrou o habitat emocional ideal para se exprimir. Ou seja, o FC Porto cresceu serenamente a cada toque curto que dava na bola ao longo da época. O Benfica cresceu ansiosamente a cada jogada vertiginosa que desenhava. De um lado, manter e gerir a vantagem. Do outro, resistir e tentar recuperar a desvantagem. Estados de espíritos diferentes.
Mesmo assim, a qualidade de jogo benfiquista cresceu, foi redimensionado os seus novos intérpretes (Gaitan e Salvio). O traço do jogo azul-e-branco, por sua vez, estabilizou, criou raízes tácticas, ao ponto de Villas-Boas conseguir ir mascarando o 4x3x3 em 4x4x2 em muitos jogos. Posse, posse e mais posse. No Benfica, ao mesmo tempo, velocidade, velocidade e mais velocidade. Sempre com a sinceridade do 4x1x3x2 (frágil defensivamente na acção do 3 do meio-campo quando perdia a bola).
Nas duas equipas, nesta altura da época, dois jogadores, por razões diferentes, no centro da máquina táctica. Em ambos, o factor G. De Gaitan e Guarín.
Gaitan é, cada vez mais, um jogador projectado para a próxima época. A influência do futebol no onze encarnado cresce na proporção em que diminui a de Aimar. Ou seja, o facto de Gaitan fazer o caminho desde o flanco esquerdo para a zona central do terreno diz, a cada bola que toca (arranques-passes-remates) que ele será, no futuro, o novo nº10 do Benfica. O processo de adaptação de um jogador a uma equipa (e vice-versa) passa muito por este conhecimento recíproco. Isto é, adaptar o seu jogo às necessidades da equipa é um bom princípio, mas o segundo passo, decisivo, é a equipa (colectivo) dar-lhe condições para depois ele também poder exteriorizar o seu melhor futebol. Isso tem muito a ver com a posição em campo.
Guarín é o quarto fôlego táctico do onze de Villas-Boas numa fase da época em que o número excessivo de jogos (com recuperações curtas entre eles) ataca a dinâmica do sistema. Com Fernando, Moutinho e Belluschi firmes no 3 do meio-campo, era necessário, descobrir um quarto passageiro capaz de entrar na equipa (substituindo uma das peças) sem esta abanar na sua rotação. Guarín encaixa em qualquer dos três lugares. A diferença em relação à época passada é que enquanto Jesualdo apenas pedia-lhe para defender e pressionar, Villas-Boas também lhe pede para atacar e rematar.
Treze pontos de diferença são, claramente, excessivos para traduzir com fidelidade a diferença entre FC Porto e Benfica neste campeonato. Como sombra sobre a relva, a herança de Jimmy Hagan. Villas-Boas tem na mesma o nariz grande e vermelho na ponta como um bom britânico e, como ele próprio confessou na apresentação, falando de Bobby Robson como seu principal mentor, também gosta de vinho (como um bom britânico, também). Mas outra coisa é ser campeão sem derrotas, feito inédito do Benfica de 73, com Hagan. 38 anos depois, mais do que três pontos, nos 90 minutos da Luz está em jogo o orgulho.
