Pensar nos jogos a partir dos sistemas de marcação a utilizar torna-se cada vez mais usual para muitos treinadores nas grandes batalhas futebolísticas europeias. Não duvido que, esta semana, antes das meias-finais da Champions, foi por esse ponto que Hiddink e Wenger começaram a pensar como jogar contra os exércitos de talento de Guardiola e Ferguson. Na mente, a intenção de dar um nó táctico no jogo. Amordaça-lo e assumir as diferentes coordenadas técnicas que os jogadores dão em campo. No fundo, transformá-lo em duelos, por todo o campo, do esforço contra o talento. Posto assim, parecerá quase que os jogos se tornam uma espécie de luta futebolística do bem contra o mal. Talvez não seja exagero pensar assim, apesar das qualidades tácticas das estratégias de Hiddink e Wenger.
É algo que custa mais ver no onze de «passe-passe-passe» do Arsenal. Nesta conversão ao pragmatismo defensivo, o caso mais intrigante é o de Fabregas. Deixa o seu lugar de pivot à frente da defesa (onde surgem, em versão operária, Song e Denilson, sem nunca saírem de posição) e adianta-se para as costas do avançado. Quanto mais perto da baliza, porém, mais longe Fabregas fica do jogo e dos espaços para soltar a sua visão de passe. É quase o jogo como uma ciência exacta. Uns metros atrás, ou uns metros à frente, e Fabregas ou vira o jogo ou passa ao lado dele. Passou ao lado dele.
Em Barcelona, os olhares estavam todos colocados no pibe a quem todas as camisolas parecem ficar grandes. Messi, claro. Antes do jogo, Capello, já dissera que só existiriam duas possibilidades de o marcar. “Com uma espingarda”, hipótese afastada em nome da preservação das espécies talentosas, ou com “uma marcação dupla. Só um homem para o travar é uma loucura!”, disse a esfinge italiana. Foi esse o caminho seguido pelo diabólico Hiddink, numa estratégia que colocou Lampard num plano táctico muito semelhante ao de Fabregas no Arsenal. E tal como o espanhol, também Lampard passou ao lado do jogo. A forma como via, triste e já sentado no banco (apesar de o resultado continuar 0-0…) os últimos 20 minutos de jogo, dizia bem o que lhe ia na alma sobre aquele futebol.
Entretanto Messi era encarcerado por vários jogadores sempre que pegava na bola, no flanco onde o Chelsea tinha o seu único extremo (Malouda) condenado a seguir o lateral-direito do Barça, o velocista Daniel Alves. Este Barça (com Xavi-Iniesta-Messi) é capaz de executar tabelas dentro de uma cabine telefónica e assim abrir espaços impossíveis, mas contra este Chelsea, até esses buracos da fechadura por onde o talento pode furar o esforço desaparecem.