TAMUDO, NASRI, FABREGAS: O PERIQUITO E OS MAESTROS

8 de Junho de 2007
Tamudo, o «periquito» mortífero; Nasri, o pequeno maestro; Cesc e a selecção espanhola: o organizador desparecido

Nasri, pequeno maestro

É bonito ver nascer um maestro. Na música, são como refúgios da alma. No futebol, são como oásis nos relvados secos. Ouvimos os seus sons, vemos os seus toques. As sinfonias que o pequeno Nasri toca e compõe na França têm a mesma origem das de Zizou, o maestro careca antecessor. Magreb, Argélia. A mesma cabeça levantada, o passe e a visão de jogo. Mas, muito diferentes fisicamente. Depois do porte elegante de Zidane, o elefante com pé de bailarina, que jogava como quem escrevia um romance de 600 páginas, surge um pequeno gaulês irredutível, um veloz coelho arredondado que salta adversários. Os maestros também podem ter, claro, diferentes formas. Mozart e Beethoven. Zidane e Nasri. Ouçam a música que sai dos pés dele, e vejam o futebol que lhe sai da cabeça. Depois respirem fundo. É o ar puro do futebol.

Tamudo, «periquito» mortífero

Um remate seco e a bola a caminho da baliza. É o maior sonho de um futebolista. Marcar um golo que vale um título, no último minuto de um jogo decisivo num Estádio cheio com 100 mil espectadores. Tamudo logrou esse feito no domingo passado, mas nem por isso enlouqueceu. Festejou discretamente. O golo não dera o título à sua equipa, antes o retirara ao adversário. Os festejos desse golo explodiram bem longe do local onde aconteceu. Pelo perfume de bom futebol que solta em campo, Tamudo merecia ter emoldurado esse golo (o 112º em 280 jogos no Espanhol) noutro contexto pessoal. Procuro sempre arranjar desculpas para os jogadores que admiro, mas a este periquito, exigiria que, neste ponto da sua carreira, aquele golo lhe provocasse outra sensação. Que fosse, afinal, o seu maior sonho. Jogo estranho, o futebol.

Selecção espanhola: Cesc, organizador desaparecido

A Espanha ganhou dois jogos (frente ás esforçadas mas rudimentares Letónia e Liechtenstein) e voltou a entrar na rota do Euro-2008. O seu futebol é que continua longe de causar grande entusiasmo. A sensação mais incómoda é, porém, quando a câmara vai até ao banco e mostra quase sempre lá sentado um pequeno jogador que tem, preso a si, outra ideia de futebol, mais clara, de luxo, bola dominada e passe telecomandado. Cesc Fabregas. Luiz Aragonés diz que lhe falta «mala leche», termo que os espanhóis usam para falar em, numa tradução platónica, falta de agressividade. Bons médios são os que não perdem a bola, disse. Qual a reacção de Cesc, que tantas lições de futebol tem dado nos vulcões do Inglaterra? “É, talvez tenha razão. Estar no banco ajuda-me a crescer. E o Xavi está a jogar muito bem”. Um dia alguém disse que o futebol é mais simples do que a teoria de Einstein, mas mais complicado do que dois mais dois são quatro. Talvez no meio desta equação sobre a complexidade do jogol, esteja a lógica para deixar de fora um talento de água fresca como Cesc. A sua resposta, deixou definitivamente claro que ele era um grande mestre. A todos os níveis. O tempo e a vida não lhe vão dar outra opção senão prová-lo em campo.

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