A construção de uma personalidade pode ter processos muito diferentes. O habitat, os genes, as circunstâncias, a época. A sua forma de expressão, gestos e atitudes, são depois a prova do seu crescimento. Uma equipa de futebol não nasce de geração espontânea. O seu processo de construção implica dar uma alma a onze jogadores. A personalidade futebolística. Fazê-lo num clube, onde os jogadores se vêem todos os dias, é diferente de o fazer numa selecção, onde o grupo muda e os elementos apenas se reúnem de longe a longe. O seleccionador, primeiro, o treinador, depois. Dois momentos, a mesma personagem. Ele é o arquitecto da construção dessa personalidade.
A selecção de Portugal atingiu, por fim, a fase final do Mundial. No último jogo, jogando numa caixa de fósforos com um relvado no meio, o mundo particular da Bósnia, conquistou-o fazendo uma afirmação de personalidade. É a melhor forma de ganhar um jogo. Sentindo que tudo resulta de um processo prévio intencional. Um caminho longo, difícil, sinuoso, mas também persistente, de nariz no ar. Resistiu à guerra com outras personalidades e encontrou o seu espaço num novo ciclo do futebol português.
Ironia do destino, Queiróz regressara à selecção no momento em que os ecos da sua geração de ouro se tinham extinguido de vez. Quinze anos é muito tempo no futebol. A reconstrução da personalidade da selecção pós-Scolari (seleccionador-treinador importante para um dado presente, mas inócuo para o futuro que lhe seguiu) exigiu uma lógica diferente de pensar o onze nacional. Como não existia um núcleo duro claro para pegar no onze, foi necessário recriar, em plena competição, essa nova identidade colectiva. O facto dela emergir no último jogo, em termos de organização da equipa, quando faltavam o craque supremo, Cristiano Ronaldo, e o cérebro mor, Deco, diz muito sobre a tal questão da personalidade. É esse o maior triunfo de Queiroz no fim desta longa e tumultuada caminhada: o construir de uma nova personalidade para a selecção. Algo que vive muito para lá de uma bandeira na janela. Algo que para além do presente, sente-se ter bases para o futuro.
Pepe, Raul Meireles e Tiago. Um meio-campo preparado para jogar a partir da luta e do pensamento. Sem barões. Apenas operários. Cada corte de Pepe, amassando a bola, escondendo-a nas suas pernas longas. Cada arranque ou bola dividida de Raul Meireles. Duas imagens que ficam de um jogo onde mais do que a táctica, os jogadores mostraram a personalidade. O primeiro passo, indispensável, para, no relvado, tornar eficaz uma estratégia de jogo.
Como símbolo desse novo tempo, o jogador que tanto está nos locais certos, no seu habitat natural, dando ordens à bola que mal o vê baixa as orelhas, como depois surge nos locais mais improváveis, longe da sua “casa táctica” natural, mas também para fazer a diferença com a sua presença. É o grito e o futebol de Bruno Alves. Um golo que, no primeiro jogo da última batalha bósnia, abriu a Luz. O que estava ele a fazer naquela altura dentro da área? Nem sequer era uma bola parada. Pois não. Era algo muito mais importante. Era o momento certo para fazer uma afirmação de personalidade.
No caminho global, o debate dos naturalizados, foi como o satélite estranho que fugiu à lógica natural do processo de reconstrução “queiroziano”. Liedson, apesar de, desde o berço, habituado a pendurar outra bandeira na janela, soube entrar, soube entender a nossa personalidade que, em campo, fala através de onze jogadores. O regresso próximo de Cristiano Ronaldo (sua reinserção na máquina colectiva) deve, por tudo isto, ser tratado com a mesma lógica da construção da personalidade. De forma a torná-la mais forte e não apenas dar-lhe uma suplementar face aventureira, fantástica, mas quase anárquica no jogo. Conseguido isso, com o cérebro Deco a funcionar, a selecção pode, finalmente, voltar só a ter “saudades do futuro”.