A cada clube que passa, um jogador parece viver uma vida diferente. Outra atmosfera, estímulos e desafios (exigências no jogo, questões tácticas e humanas) a despertar um jogador que antes, no outro clube, por vezes até já parecia meio aburguesado, jogando quase de memória, perdidos os estímulos iniciais. Será uma boa forma de começar a pensar o futebol de Lucho nos últimos tempos. Nunca esteve em causa o seu valor, mas, esteve em causa muitas exibições. Falavam que entrava pouco no jogo… Penso que, no fundo, era a sua vida azul-e-branca a extinguir-se. Tempo demais no Porto. Esta semana, após uma lesão, reapareceu no novo clube, o Marselha e viu-se-lhe essa… nova vida em campo. Sobretudo nos tais novos estímulos (habitat e táctica).
Após várias épocas como um dos vértices do triângulo em 4x3x3, é curioso ver agora como para o encaixar na equipa, Deschamps mudou o sistema preferencial, também o 4x3x3, e passou a jogar num 4x4x2 (4x3x1x2) que vira um losango a atacar, onde Lucho é o vértice ofensivo (ver quadro em baixo). Não o vemos tanto a correr com a bola, de trás para a frente. Corre mais em tarefas de recuperação, e é o primeiro a pressionar alto (recuperou 20 bolas contra o Milan). Quando recua procura o passe longo. Quando recebe a bola nesse espaço mais adiantado, não é, no entanto, um organizador. É a referência para as assistências aos avançados, passando quase sempre de primeira. No inicio de construção os colegas procuram-no sempre para lhe meter a bola. Se ele está mais recuado, também metem um passe longo. Neste cruzamento de estilos (ora mais apoiado, com os médios a subir, ora mais longo, para a velocidade de Niang) a equipa ainda não encontrou uma verdadeira identidade de jogo.
Saber manejar ritmos (temporizar com bola para fazer o último passe) é fundamental na posição central da segunda linha do meio-campo em 4x3x1x2. Como no mesmo jogo explicava Seedorf no Milan. É hoje a melhor terapia para a crise de jogo do Milan pós-Kaká. Ao contrário de Ronaldinho, faz essa posição com maior disciplina táctica e serena o jogo construtivo-criativo da equipa. Uma evolução temporalmente contra-natura quando entra na parte final da carreira. Em vez de recuar no terreno, Seedorf adianta-se para o lugar em que sempre disse mais gostar de jogar. Neste momento, poderá ser, em campo, o melhor amigo de Leonardo.
São, claro, jogadores de culturas diferentes, mas, cada qual no seu estilo, Lucho e Seedorf pertencem à mesma espécie táctica que agarra melhor os jogos: os médios puros. Descobrir a melhor forma de os utilizar é o caminho mais curto para hoje controlar um jogo na dimensão internacional
Os «cadernos» de Benitez
Há clubes que tem quase uma segunda pele europeia. É o caso do Liverpool. Benitez entra na sua sexta época em Anfield mas, sigo a estreia na Champions com o Debrecen e, sinceramente, não vejo uma evolução clara na equipa. Provoca muitas dúvidas: recuperar Jonhson (uma antiga promessa que falhou no táctico Chelsea) para lateral-direito? Perdido o pivot Xabi Alonso e seus passes, apostar em Aquilani (não jogou na Champions) que sai mais da posição? Afinal em que lugar joga Gerrard, primeira ou segunda linha do meio-campo?
São algumas questões. Penso que a última cruza-se com o problema da fase de construção da equipa à entrada da área, onde não existe um ocupante natural. É um espaço ocupado em trocas posicionais durante 90 minutos. Em 4x4x2, passaram por esse espaço, Kuyt quando recua desde o ataque, deixando Torres na frente, Gerrard quando se solta do duplo-pivot que faz com Lucas e os alas Benayoun-Riera quando vinham para dentro e tentavam arrancar com a bola (mas nenhum deles se destaca no passe e jogam pouco em tabelas com os interiores). Em nenhum destes momentos, porém, detecta-se um princípio de jogo colectivo evidente. Parecem meros impulsos individuais que, cada jogador dá à sua posição. Veremos ao longo da época, mas, nesta fase, o maior dilema para Benitez será como dar à equipa uma posse de bola construtiva, circulando jogo.

Inzaghi: a “linha invisível”
Ninguém festeja golos com tanto entusiasmo, correndo desenfreado, gritando de braços abertos, como faz Inzaghi. Seja na final da Champions ou contra uma equipa do fundo da tabela. Aos 36 anos, é ainda uma forma de mostrar o imenso futebol que ainda tem dentro dele e com tanta vontade de sair. Em Marselha, na estreia da Champions, fez dois. Festejados dessa forma claro. Os dois com a sua imagem de marca. É o melhor ponta-de-lança do mundo a jogar no limite do fora de jogo. Num dos golos, é notável como vendo que o passe de Seedorf ia sair, recuou para ficar na linha do defesa e aguentou o momento certo para se desmarcar.
Cada vez é mais importante este tipo de nº9. O estilo Inzaghi tem ainda o traço especial de ao contrário da maioria deste tipo de avançados nestas situações, nunca parecer estar em fora-de-jogo. Em vez de esperar e arrancar, é a tal capacidade de recuo (bastam um-dois passos atrás) na altura do passe para enganar todos. Um espaço oco para, depois, soltar a sua mortífera capacidade de finalização