O romance do Grande Torino dos anos 40, iniciou-se, no final da década de 30, com a chegada á presidência do clube fundado no inicio do século por uma série de dissidentes da Juventus, do lendário Comendador Ferruccio Novo, um influente industrial de Turim. Desde ragazzo que era um apaixonado pelo Torino, onde jogara nos juvenis. Com o tempo, fizera-se homem e, numa época em que o futebol era para românticos, a vida destinou-lhe trabalhar com o irmão numa fábrica de utensílios de couro, que ambos geriam em conjunto. É por entre o barulho das máquinas, que Ferrucio Novo, então com 42 anos, se encontra no ano de 1939, quando sobe á presidência do Torino, onde já se encontrava como director. Apaixonado pelo Calcio e gestor de empresas bem sucedido, Ferrucio vai conciliar estes dois factores na direcção do seu Torino. Avançado no tempo, ele será o primeiro homem a entender, e a antecipar, o modelo orgânico que iria, dali a muitos anos, reger os clubes de futebol, sociedades futebolísticas, distante do conceito de mecenas que então começara a invadir todos os clubes, um pouco por todo o mundo. Visionário, Ferrucio decide profissionalizar a direcção do clube. Á imagem empresarial, cada membro tinha uma competência específica, com respectiva área de autonomia e poder de decisão. Num tempo em que a cultura multieuropeia da Hungria e da Áustria, produzia, junto com os ingleses, o melhor que se via no futebol mundial, decide rodear-se de treinadores com essa formação. Foi o caso de Ernst EgriErbstein, um húngaro de religião hebraica que, para além de entender de futebol, ex-jogador do BAK de Budapeste, era professor de educação física e famoso por ser um grande condutor de homens. É ele que, apoiado na visão de Novo para a contratações de jogadores e descoberta de talentos, no que era apoiado pelos conselhos e influências do mítico Vitorio Pozzo, seleccionador campeão do mundo em 34 e 38, seu amigo pessoal e antigo treinador do Torino entre 1912 e 1922, vai começar a construir o Grande Torino. As bombas da guerra tornavam-se, no entanto, cada vez mais intensas. Aos poucos, a louca perseguição antisemita de Hitler invade todo o mundo. Num país dominado por Mussolini, Erbstein sente a ameaça aumentar e, com a família pela mão abandona em fuga o país. Deixara, porém, em gestação uma grande equipa de futebol.
A CONSTRUÇÃO DO GRANDE TORINO

É assim, no verão de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, que o emblema do Toro, após, na época anterior ter terminado no segundo posto, contrata o fabuloso grupo de calciatore que iria formar a grande squadra dos anos seguintes: Da Juventus, chegam o guarda redes Bodoira, o lateral Borel e o avançado centro Gabetto, da Fiorentina e da Ambosiana-Inter, chegam, respectivamente, os dois médios ala Menti e Ferraris, do Varese, Ossola, e da Triestina, Grezar. Apesar da categoria de todos eles, seria, no entanto, de Veneza que chegariam os grandes nomes capazes de, sozinhos, virar um jogo: o médio avançado, Loik e o maestro nº10 Valentino Mazzola, então já credenciados internacionais. Tacticamente vivia-se um período de transição. De Londres, chegavam os ecos de um revolucionador sistema inventado, no Arsenal, por um mago técnico chamado Herbert Chapman: o “WM”(3-2-2-3). É nesse novo sistema, interpretado por jogadores de grande talento e inteligência que, na época de 1942/43, o Torino, então treinado por Andrea Kutik e, depois, por Antonio Janni, inicia, abandonando o velho método de 2-3-5, o seu demolidor ciclo de domínio. O titulo desse ano já fora conquistado por entre as bombas da guerra. Toda a Itália está feita em estilhaços, dividida entre fascistas e partigiani, os resistentes que apoiavam as forças aliadas. Nesse contexto, o futebol não pode continuar e, em 1943, o Calcio sucumbe á guerra e, até 1945, os campeonatos param.
O FUTEBOL MODERNO NOS ANOS 40

1945. Finda a guerra, com Mussolini enforcado em plena praça pública, toda a Itália regressa, aos poucos, á vida. O futebol vai, por entre essa atmosfera de ressurreição nacional, desempenhar um papel fundamental. Ele, com os seus mágicos calciatore e os Estádios cheios, serão uma fonte de alegria dentro de um país que recuperava dos traumas da guerra. Dois anos depois, o Torino ainda conserva o onze que, em 43 começara a deslumbrar todo o Calcio. Ás estrelas que formavam a base do onze, juntam-se o guarda redes Baciglupo, do Savona, o lateral Ballarin, da Triestina e o médio Castigliano, do Spezia. Ainda fora do país, Erbstein espera pelas melhores condições para regressar. É com Luigi Ferrero no banco que, em 1945/46, o Grande Torino reinicia a sua cruzada vencedora. Os analistas actuais que tiveram o privilégio de ainda verem in loco essa grande equipa, falam que ela antecipou em, pelo menos 20 anos, o chamado Futebol Total que surgiria nos anos 70, base do futebol moderno. Era um jogo onde os jogadores não tinham posição fixa no terreno. Dotados de grande condição atlética corriam o campo todo, desdobravam-se em compensações e todos tinham a baliza na mente. Imparavel, conquista os primeiros dois Scudettos do pós-guerra. Em 1947, regressa Erbsteina regressa ao clube. O presidente Ferrucio Novo recebe-o de braços abertos. Junto com Roberto Copernico, vão continuar a epopeia futebolística. Os seus jogadores, com Mazzola sempre como grande líder terreno e espiritual, ganham uma áurea divina. Em 48/49, Novo sente que é hora de renovar contrata o médio húngaro Schubert e os avançados franceses Bongiorni e Grava. O campeonato, porém, não começa bem. Os resultados não surgem, e Novo decide afastar o técnico inglês Leslie Lievesley, pedindo a Erbstein, então director técnico, para regressar ao banco. Incapaz de dizer não, o húngaro volta a pegar na equipa e, num ápice, o Toro retoma a sua senda de vitória.
SUPERGA: O FIM DE UMA EQUIPA, O NASCER DE UM MITO

A fama quase sobrenatural da equipa começa a percorrer toda a Europa. Mas, num tempo em que as competições europeias ainda não tinham sido inventadas, faltava a consagração internacional e esta fabuloso onze. Aquelas fantásticas exibições eram quase exclusivo dos italianos e dos tifossi que, em dia de jogo, enchiam as bancadas do velho Estádio Filadélfia, casa do Grande Torino. Por isso, muitas vezes, Ferrucio Novo aceitava disputar particulares por essa Europa fora. Em todos os países por onde passavam eram recebidos quase com honras de Estado. É dentro desse espirito que, a 3 de Maio de 1949, se deslocam a Lisboa para defrontar o Benfica na festa de despedida do capitão encarnado Francisco Ferreira. Após o jogo, que o Benfica venceu por 4-3, a comitiva embarcou de regresso. Apesar do mau tempo, tudo parecia normal no momento em que o avião que a transportava, se fez á pista do aeroporto turinense. Mas, quando se prepara para aterrar, o temporal intensifica-se e os pilotos perdem o controle do avião, que, desgovernado, esmaga-se contra a colina de Superga, nas traseiras da Basílica com o mesmo nome, ás portas da cidade. O estrondo foi gigantesco. Não houve um único sobrevivente! Todo o Grande Torino morria naquele terrível acidente. Um sentimento de desespero e emoção percorreu toda a Itália. Com todo o mundo em estado de choque, o funeral colectivo dos míticos jogadores fica para a eternidade como a maior manifestação de dor e sofrimento que alguma vez viveu o futebol mundial. Morrem 31 pessoas, quando o avião que traz a equipa de Lisboa se despenha no momento em que se prepara para aterrar. Entre elas estão os 18 jogadores do Grande Torino dos anos 40: Mazzola, Rigamonti, Grava, Loik, Baciglupo, Ballarin I, Ballarin II, Fadini, Castigliano, Gabetto, Bongiorni, Gezar, Maroso, Martelli, Menti, Ossola, Operto e Supert; 2 Treinadores: EgriErbstein e Lievesley, e 2 dirigentes, Agnisetta e Civalleri. Faltavam quatro jornadas para terminar o campeonato e o Torino comandava com quatro pontos de avanço sobre o Inter. O Conselho da Federação, aprova, após proposta de vários clubes, entre os quais o Inter, dar por findo o campeonato á 34ªjornada. Nos quatro últimos jogos, o Torino, assim como os seus adversários, fez alinhar a sua equipa de juniores. Foi ainda deliberado que durante as quatro épocas seguintes, o Torno, independente da sua classificação, não desceria de divisão.
VALENTINO MAZZOLA: IL MAESTRO

O Rodolfo Valentino dos relvados. Um futebolista á moda antiga, daquele que mandava flores, perfil de galã de cinema mudo, cabelo coberto de brilhantina, passos elegantes e a bola tratada como uma peça de cristal. Um perfil latino, romântico e sedutor, mas que, quando as circunstâncias o exigiam, também cerrava os dentes e voava para um tackle. Foi o primeiro grande nº10, entendido como o regista do colectivo, no futebol europeu. Antecipou o futebolista moderno. Forte fisicamente, perfeito controlo de bola, drible apurado, grande visão de jogo e remate forte. Para ele, a bola não tinha segredos. Fez 170 jogos com a maglia granata e apontou 97 golos. Morreu com 30 anos. Para Fulvio Bernardini, e para muitos que ainda o viram em acção, ele foi o melhor jogador italiano de todos os tempos.
RENASCER DAS CINZAS
Ferrucio Novo continuaria presidente até 1954, mas, apesar de toda a sua sabedoria, era impossível fazer renascer das cinzas aquele Grande Torino. Entretanto, com todo o Calcio deslumbrado pela forma como construíra o seu fabuloso Torino, tornara-se também seleccionador nacional. Quando abandonou, o clube ocupava o meio da tabela, orientada pelo ultradefensivo Annibale Frosi, o maquiavélico técnico que vindo de Modena, preconizava a teoria de que o 0-0 seria sempre o corolário de um jogo perfeito e sem erros. Em finais dos anos 50, com Mario Rubatto na presidência, o clube conhece o seu período de maior dramatismo desportivo, quando submerso em dificuldades financeiras, firma um contrato de sponsorização com a Talmone e passa a denominar-se Torino Talmonte e deixa o lendário Filadélfia para passar a jogar, junto com a Juventus, no novo Estádio da cidade, o Comunale. Sem chama, a equipa arrasta-se pelos relvados durante toda a época 58/59 e termina em último lugar, caindo na Série B. Com o orgulho ferido, a equipa levantou-se logo na época seguinte, subindo de novo á Serie A, com uma equipa onde o grande capitão era um homem que duas décadas mais tarde seria campeão do mundo como seleccionador, Enzo Bearzot, então, com 33 anos. O regresso do clube á luta pelo Scudetto só acontece em 64/65, sob as ordens do paron Nereo Rocco, o patriarca dos treinadores italianos, quando termina em 3º lugar, com um onze onde brilhavam Ferrini, Lido Vieri, Poletti, Hitchens e uma jovem promessa que muitos viam como futura grande estrela do Calcio, Meroni, mas que morreria atropelado, em 1967. A tragédia teimava em perseguir os destinos do Torino.
27 ANOS DEPOIS DE SUPERGA: O SCUDETTO DE 1976

No inicio dos anos 70, o Cattenacio continuava a inspirar todo o Calcio, quando chega a Turim, vindo de Pianelli, o técnico Gigi Radici, um tradicionalista da velha escola táctica italiana. Nos seus primeiros dias á frente do Toro, decide dispensar dois jogadores venerados pelos tifossi, Agropi e Cereser, para apostar em Pecci e Carporale. A época começa mal, perdendo em casa com o Bolonha, 0-1. Radice, porém não cede á contestação e, influenciado pelo idolatrado futebol total holandês, lança o chamado pressing a todo o terreno, preconizando que os meus primeiros avançados, são também os meus primeiros defensores. Aos poucos, o onze sobe na tabela e impulsionado pela fabulosa coppia de ataque, Pulici-Graziani, no final 21 e 15 golos respectivamente, apoiados por um agressivo meio campo, composto por Patrizio Sala, Pecci, Zaccarelli e Claudio Sala, chega ao último jogo em primeiro lugar, com um ponto de avanço sobre a Juventus. Toda a cidade explode de rivalidade antes dos decisivos jogos da derradeira ronda. Nervoso, o onze de Radici, não vai além de um empate, em casa, com o Cesena, 1-1. Ao mesmo tempo a Juventus perde em Perugia, 0-1, e assim, vinte e sete anos depois de Superga, o Torino é, novamente, Campeão de Itália. Na época seguinte, o clube mantêm-se no topo, mas desta vez acaba em segundo, um ponto atrás da Juve. Na Europa, porém, não vai além dos 1/8 final da Taça dos Campeões, caindo frente ao Borussia M`Gladbach.
ANOS 90: A QUEDA NA SEGUNDA DIVISÃO
Desde esse dia, nunca mais o Torino conseguiu refazer uma equipa capaz de lutar pelo Scudetto. No inicio dos anos 90, orientado por Mondonico, e com o sábio Luciano Moggi, o homem que conhece todos os meandros do Calcio, como director geral, forma uma atraente e ofensivo onze que fica em 3º lugar na tabela e chega á final da Taça UEFA, onde moravam figuras como o portieri Marchegano, o defesa Cravero, toda uma vida no clube, o belga Scifo, o espanhol Martin Vasquez, o brasileiro Casagrande e o extremo Lentini, que, em breve, iria dinamitar o mercado de transferências. O final do século vai, no entanto, abalar estruturalmente o clube que, sem conseguir adaptar-se aos novos tempos, fica aprisionado num dramático sobe e desce. Olhando o passado, facilmente se conclui que este estatuto de equipa elevador em nada está á altura da sua prestigiada história. Para a eternidade, será sempre recordado como o grande mito futebolístico dos anos 40. Na Colina de Superga repousa a alma que o fez admirado por toda a Europa do futebol. O espirito dos grandes jogadores que aí perderam a vida continua vivo no cuore granata e em todo o futebol italiano. Quando no limiar do século, a federação lembrou a efeméride com um minuto de silêncio antes dos jogos da jornada, o sentimento e o respeito que invadiu todos os adeptos do futebol, foi de igual intensidade. Saudosos, os devotos tiffosi do Torino tem agora o projecto de reconstruir o mítico Filadélfia entretanto demolido, então com a promessa de ser reerguido noutro local. Só dessa forma, a memória do Grande Torino, viverá para sempre, no cenário que outrora o viu em plena acção.
Campeão de Itália: 1928, 1943, 1946, 1947, 1948, 1949, 1976.
No mitológico mundo do futebol há clubes cuja imagem parece que parou no tempo. Nos anos 40, um grupo de lendários jogadores legou para a história do futebol, uma das mais fabulosas equipas que a Itália e toda a Europa alguma vez viu jogar. Foi o Grande Torino de Valentino Mazzola, Rigamonti, Grava, Loik, Bacigalupo, Castigliano, Gabetto e muitos outros grandes jogadores, treinados pelo lendário EgriErbstein. Hoje, mais de meio século depois, transformou-se numa squadra de culto, cuja alma repousa para a eternidade na colina de Superga, onde todos, no final da divina década de 40, perderam a vida terrena.