É dos termos que mais gosto para definir o estilo de um jogador ou equipa. As raízes da definição moram na Inglaterraprofunda, mas, nos anos anos 70, foi adoptada por um clube holandês, o Feyenoord, para marcar a diferença (num transfer sócio-desportivo contra o Ajax) de que enquanto Amesterdão se diverte, Roterdão trabalha. Era, no entanto, um trabalhar com…classe.
Até aos dias de hoje, por todo o planeta, procura-se esse cruzamento de ideias que, no futebol, faz, em campo, o jogador-completo: o que luta pela bola e, ao mesmo tempo, também a trata bem. Por isso lhe chamaram working class football, em tradução livre, futebol operário com classe.
Rooney é um protótipo desse tipo de jogador. Um futebolista em forma de pugilista pelos socos que a cada jogada (de garra e técnica) dá no jogo. Não chegou para o Manchester passar em Basileia. Mas a posição onde tacticamente gosto mais de projectar essa ideia de trabalhar com classe é na de pivot nº6 que, numa versão completa, deve unir recuperação com (primeira) construção. O melhor de dois mundos tácticos aparentemente opostos. Não é verdade. Existem jogadores com capacidade para os unir.
Pode estar nessa união o novo impulso do Chelsea de Villas-Boas, desenhando um meio-campo mais firme a partir de um novo pivot: Oriol Romeu. Feito no Barça, 20 anos, entrou a titular nos últimos três jogos. Tem cultura para pegar na bola atrás, no meio dos centrais, e sair a jogar. Tem sentido posicional para surgir no espaço certo a cortar. Passa e recupera. Tem físico para dar um encosto no adversário criativo e técnica para o primeiro passe de construção, dando dois passos à frente em posse.
A partir dele, em vez do futebol curto de Obi Mikel, o meio-campo blue ganhou mais ritmo e intensidade, algo que até Lampard já não garante durante 90 minutos, sobretudo nos grandes jogos, tendo, para isso, sido também decisivo adiantar de Meireles no triângulo do meio-campo, de perfil com outro corre-caminhos incansável, Ramirez. O Valência teve a bola em muitos momentos do jogo mas uma coisa é um domínio lento, sem profundidade (demasiado recuadas as linhas do meio-campo) outra é dominar o mesmo jogo através da maior intensidade e objectividade pós-recuperação da bola.
Dias antes tinha visto a equipa fundadora desse multidimensional working class fottbal fazer uma bela exibição frente ao PSV (2-0) na Liga holandesa. Frente ao adversário que, meses atrás, lhe deu 10-0, o renovado Feyenoord de Koeman dá uma lição de regeneração futebolística. Inventou novos extremo,: os experientes Schaken e Cissé, a apoiar, num 4x3x3 tradicional, um nº9 de área, Fernadez ou Guidetti, deixando atrás os profetas lutadores, guiados pela revelação Clasie.
São realidades distantes mas existem contactos. De Roterdão a Londres, o mesmo sentimento, em dimensões diferentes, do trabalho futebolístico com classe. Uma crónica de sucessos, sem dúvida.