Se olharmos para o relvado, existem mais de uma centena de diferentes perfis de futebolistas. Se olharmos para o banco, não existem assim tantas classes distintas de treinadores. Claro que mudam ideias de jogo, filosofia tácticas, capacidade de relação humana, etc, mas, no final, a diferença entre eles é feita da forma mais simples (e redutora, também). Os que ganham e os que perdem. A fronteira entre o êxito e o fracasso. Esses dois grandes “impostores”, como disse Kipling, dois “territórios” no qual vivem, alternadamente, todos os treinadores. O mais vertiginoso no mundo do futebol é, porém, a velocidade com que essa viagem é feita. Uma fronteira tão ténue que pode ser atravessada até na mesma época. Identificar o “treinador do ano” no futebol português leva-nos para esses dois tipos de território completamente opostos.
Jorge Jesus viveu “uma vida” nos subterrâneos do futebol português (do Felgueiras ao Moreirense), conquistou os chamados “topo de gama” da sua segunda linha (de Belém a Braga) até que, por fim, já na ternura dos 50, abriu-se-lhe a porta de um grande, um Benfica em crise de auto-estima, órfão de heróis e títulos. Numa época, Jesus revolucionou o “mundo benfiquista” dentro e fora do relvado. Redimensionou jogadores, acordou adeptos e, num clube ávido de encontrar novos símbolos, tornou-se maior do que toda a estrutura que o rodeava. Ganhou e jogou bem. Mas o ano tem a “armadilha futebolística” de dividir duas épocas. E a nova temporada mudou a realidade. Mudaram alguns jogadores, a bola passou a não entrar, alguns maus resultados, e, num clube confundido, o treinador-herói passou, num ápice, a ser olhado com desconfiança. As mesma páginas e paginais que se escreveram de elogios, passaram a encher-se de críticas.
Não faz sentido. Porque, na essência, o treinador que conquistou o título nacional em Maio é exactamente o mesmo que foi eliminado da Liga dos Campeões em Israel em Novembro. Por ter vivido por entre esses dois mundos, êxito e fracasso, Jorge Jesus é um “treinador do ano” especial no futebol português. Para além de muitas análises (tácticas e técnicas) que se podem fazer ao futebol do Benfica, esta “bi-polaridade” de análise, espelha na perfeição a sub-cultura de análise que, transversalmente, domina todo o status do futebol português (adeptos e imprensa). De herói a vilão em poucos meses. A história perfeita para explicar a secular “montanha-russa” de competências na qual um treinador tem que trabalhar em Portugal.
Ganhou três campeonatos em quatro épocas mas no Porto já ninguém se lembra que Jesualdo Ferreira existiu. Mesmo nessa fase, porém, nunca foi idolatrado pelo mundo “azul-branco”. Problemas de imagem, disse-se então. Dessa forma, em 2011, o ano em que não ganhou, saiu, logicamente, sem fazer ruído. Mais um bom exemplo, num contexto mais global, da fronteira de Kipling aplicada ao nosso futebol. Por isso, para os ditos “treinadores jovens” que despontaram em 2011, as histórias destes dois velhos caminhantes são duas boas lições de vida. Domingos e Leonardo Jardim, cada qual no seu estilo e especificidades de origem e crescimento, são “treinadores de futuro”.
Domingos, “filho do Dragão”, inventou o Braga vice-campeão nacional. Entrou, porém, neste “mundos dos bancos” desde o início já com uma marca de distinção. Jardim, veio anónimo da Madeira e, sem perder o sotaque ilhéu cerrado, tem provado, com o “milagre Beira-Mar”, que também ainda é possível crescer e fazer uma carreira a pulso, só pelo jogo, sem o “elevador dos empresários”. Até onde poderá chegar?
Todos eles, Jesus, o símbolo do que é a vida nos bancos, Jesualdo, Domingos, Jardim, são treinadores do ano no futebol português. Falta um nome. Mais do que o novo “aprendiz de feiticeiro” saído de longas épocas passadas nas catacumbas tácticas do castelo de Mourinho que, quando surgiu a meio do ano (primeiro na Académica, depois no FC Porto), quiseram fazer dele, André Villas-Boas tem, claramente, mais “qualquer coisa” na sua essência particular de treinador. A fórmula, porém, é igual para todos: “Treinador= 365 dias+90minutos x 60 jogos= ?”
Lidar com a “pressão”
O que tem de especial André Villas-Boas, o treinador que inventou o FC Porto versão 2010/11? Tal como Mourinho, entende que mais do que com o apito do árbitro na relva, os jogos começam e acabam antes e depois nas suas conferências de imprensa. É um entendimento que resulta, sobretudo, da consciência do poder da comunicação no futebol moderno. Nesse momento, entra na cabeça dos adeptos, dos jornalistas e dos…jogadores (seus e do adversário). Durante os 90 minutos, a forma como vive cada jogada tem o poder da imagem. Nada disto marca golos, mas no futebol (mundo) actual, esse domínio da imagem e comunicação significa dominar mais de 50% do seu conteúdo. O saber táctico (e treino) é, também, cada vez mais, uma evidência.
Jorge Jesus disse que lhe faltava lidar com a pressão a sério, que duvida se teria capacidade para a suportar. Referia-se aos jogos mais decisivos. Não penso que isso vá ser um problema para Villas-Boas. Pelo contrário. Essa “pressão externa” é do que ele mais gosta e, ganhando ou perdendo, vai lidar bem com ela. A verdadeira pressão por que lhe ainda falta ainda passar é outra: a “pressão interna”. Aquela que vem de dentro do próprio clube do treinador (seus adeptos e direcção). Essa é que quando acontecer (porque acontece a todos os treinadores) será o seu grande teste de resistência como treinador com «T» grande (táctica, comunicação e imagem). Não digo que vá surgir em breve. O seu FC Porto parece, actualmente, “inquebrantável”. Neste momento, 2011 parece feito à sua imagem. Com ou sem pressão.
“Visão Bento”
Depois do “processo Queiroz”, a selecção reencontrou o seu “espaço natural” com Paulo Bento. Um homem do futebol mais “sincero”. Esta semana, numa longa entrevista, quando questionado sobre qual a sua ideia global para o futebol português, disse, pura e simplesmente, que “não sabia o que era um projecto Paulo Bento”. O futebol português regressou, portanto, à sua lógica mais simples. O poder do resultado à frente o poder das ideias. Bento referiu que “projecto é, com os clubes, potenciar aquilo que é o melhor para o futebol português”. Ou seja, o seleccionador não quer dirigir o edifício de selecções do futebol português. Apenas seguir o trabalho dos clubes e explorar os seus jogadores. Depois, jogar, e ganhar ou perder. É uma filosofia como outra qualquer.
Penso, no entanto, que o nosso futebol (seu edifício global) necessita de muito mais. Não digo que isso tivesse de ser obrigatoriamente uma missão do seleccionador, mas sem essa ideia global, as selecções, como o “projecto de Bento”, continuarão sempre a ser apenas o “próximo jogo” quando deviam ser “a actual e próxima geração”. Para já, Bento tem furado por entre todos os pingos de chuva desse edifício sem pilares do nosso futebol. Chegará um dia, no entanto, em que terá de ser algo mais do que a táctica e os jogadores para o próximo jogo. Basta-lhe olhar para o passado e ver o que sucedeu a todos os seus antecessores nas últimas duas décadas. Então, já será tarde para ter o poder das ideias. Sem gabinetes, o seu habitat é apenas a relva.