É a lei do destino. Na vida, como no futebol, são os velhos sábios que indicam o caminho. Diz-se que sabem mais do que o diabo. Ancestral caminhante das canchas espanholas, Luís Aragonés é hoje, na sua mistura de líder austero e ao mesmo tempo paternal, espelhada na autoridade dos seus cabelos brancos, uma daquelas personagens que, só de olhar, devolve o futebol á serenidade romântica dos velhos tempos. Por isso lhe chamam o Sábio de Hortaleza, o pueblo onde nasceu há 64 anos. Uma vida de 700 jogos como treinador na I Divisão (Barcelona, Oviedo, Bétis, Valência...), com o record de vitórias (323), atingido no banco do clube do seu coração: o At. Madrid, que retirou a época passada do inferno da II Divisão. Apesar da idade e das marcas dos anos, continua a adorar praticar nos treinos um dos lances de que era especialista nos seus tempos de jogador: os livres, os famosos “friquis” como lhe chamava glosando com o originário termo inglês que os define: free kicks. Um gesto executado em folha-seca que, há 28 anos, deu o golo colchonero contra o Bayern Munique na final da Taça dos Campeões Europeus de 74. Não ter ganho esse final é, ainda hoje, a sua maior amargura.
Como jogador foi um médio influente, com aura de toureiro, que gostava de conduzir a bola. Como treinador atravessou todos os conceitos tácticos: 4x2x4, libero, 4x4x2, 4x4x3, 3x5x2... Conhecedor de todos os pequenos e grandes segredos do fútbol, define como essencial para o sucesso, a existência de equilíbrio táctico e técnico entre os três sectores do onze de forma a dar-lhe uma identidade própria. Algo que o seu actual At. Madrid ainda não tem. Tacticamente, esta sua ultima paixão, aposta, em 4x4x2, num claro esquema de contra-ataque, com defesa a «4», á frente de outra linha de quatro elementos, com o meio campo em rombo, atrás de dois avançados, um fixo e outro nas costas, estendendo-se assim em 4x2x3x1 ou 4x2x2x2. No banco, Don Luís, óculos na ponta do nariz, dá as ordens: “Tenho muita mais ilusão hoje do que há 15 anos!”