TRINIDAD E TOBAGO: De «Port of Spain a Manama»

15 de Novembro de 2005
TRINIDAD E TOBAGO–BAHRAIN : LATAPY E O CHOQUE DOS MUNDOS.
É o grande choque de culturas que só o futebol pode proporcionar. Dentro das quatro linhas, Trinidad e Tobago e Bahrein protagonizaram um fascinante confronto entre o quente aroma das Caraíbas e as túnicas brancas vindas das profundezas do golfo asiático. Dois mundos encurralados em galáxias completamente diferentes mas que, com a bola nos pés de Latapy ou Hubail, encontram uma única e sublime forma de diálogo.
Já passaram quase quinze anos desde que, ainda miúdo meio assustado, uma jovem promessa chamada Russel Latapy chegou a Portugal, vindo de Trinidad e Tobago, para jogar na Académica, acompanhado de outra estrela caribenha, Lewis, esse esguio e alto, dando, assim, um ar quase exótico ao onze do Calhabé. Cedo se viu, porém, que a pequena estrela das Caraíbas tinha qualidade na ponta das chuteiras. Conduzia a bola com classe e driblava como respirava. Na mente, porém, ainda tinha a desilusão vivida pouco anos antes, em 1989, quando, com 21 anos, já jogando na principal selecção de Trinidad e Tobago, perdera em casa contra os EUA, num jogo decisivo para o Mundial-90, no qual lhe bastava um empate para conquistar o apuramento. A derrota mergulhou todo o país numa depressão imensa que, 16 anos depois, play-off para o Mundial-2006 voltou a recordar. Agora com 37 anos, Latapy, actualmente jogador-treinador do Falkirk, na Escócia, não resistiu e regressou para tentar reescrever a história. O seu estilo e penteado, com um rabo de cavalo quase sempre espetado no ar como a cauda de um pássaro exótico, ainda torna mais enigmático o futebol do onze caribenho, orientado, no banco, pelo sábio holandês Leo Beennakker e, composto, em campo, quase todo por jogadores das divisões secundárias britânicas ou ainda escondidos em anónimos da ilha outrora colónia britânica.
Do outro lado, vindo da Ásia profunda, o Bahrain, apresentou um jogo menos dotado tecnicamente mas mais sereno tacticamente, só que, talvez sufocado por um estádio cheio com público coberto por longas túnicas brancas, não se libertou da pressão do segundo jogo em casa e nunca descobriu o ritmo certo para travar a maior habilidade caribenha. Esquematiza um sistema de três defesas e possui na frente dois avançados rápidos, Ala Hubail e Ahmed Hassan, bem servidos pelo playmaker Salmeen. Falta-lhe, porém, a imaginação da técnica. Beenakker sentiu, no entanto, que só isso não bastava para fazer a diferença neste futebolístico choque de mundos e procurou, na ilha, um jogador capaz de equilibrar colectivamente a sua equipa, pois Latapy já não tem a força dos 90 minutos. O jogador chave seria descoberto num clube local, anónimo no futebol internacional: o Financial San Juan Jabloteh. O nome do craque caribenho? Austris Whitley e no seu passado tem, em 1997, um curta passagem por Portugal, em Setúbal. Esteve seis meses no Sado mas, conta, veio embora porque ninguém lhe consertou o ar condicionado do apartamento onde morava. É ele o relógio que pauta o ritmo de jogo da equipa rumo ao Mundial-2006.

Tácticas : O estilo de Trinidad e Tobago

Em termos tácticos, Leo Beenakker esquematizou um elástico 4x4x2 que, muitas vezes, se transforma, a defender, num coeso 4x3x1x2. Com Whitley orientando à frente da defesa e descaindo para a esquerda na saída para o contra-ataque, a dinâmica ofensiva da equipa depende muito, na fase de transição, da velocidade e imaginação do extremo direito Carlos Edwards, jogador do Luton Town, a gazua que procura, depois, servir a dupla de ataque Stern Jonh-Dwight Yorke, dois velhos caminhantes dos relvados que jogam sobretudo, com a experiência. Stern está há dez anos em Inglaterra. Joga hoje no Derby County, após vários anos no Birmingham. Yorke, 34, é, indiscutivelmente, o jogador mais credenciado da história do futebol tobaguenho, está agora na Austrália, num dourado final de carreira que brilhou intensamente, nos anos 90, com a camisola do Manchester United. Embora algo pesado e lento, ainda intimida os adversários mais incautos e, com a bola, incute um traço de maior tranquilidade à equipa. Latapy, à imagem de toda a equipa, encaixa, sobretudo, quando o ritmo de jogo está mais lento. A equipa não tem, no entanto, uma identidade própria claramente defida. Enquanto os elementos vindos do futebol britânico optam, claramente, pelo jogo directo, os indígenas preferem antes tocar a bola de pé para pé em campos com a relva alta…
Neste contexto, o jogador que consegue imprimir uma segunda velocidade ao onze é o volante Birchall, jogador do Port Vale (III Divisão inglesa) interior direito de grande projecção ofensiva. Na defesa, duas torres que foram decisivas na conquista do apuramento para o Mundial-2006. Dennis Lawrence, 2, 02 m., central do Wrexham do País de Gales, sem grande jogo de cintura mas imperial no jogo aéreo, foi o autor do golo que deu a vitória no Bahrain, e Martin Andrews, do Glasgow Rangers, o homem que anulou Hubail, o perigoso goleador do Golfo. Nas faixas, os laterais (Spaan e A.John) raramente sobem. Velho sábio do futebol, Bennhakker soube entender a mentalidade da equipa e montando o puzzle com distintos estilos conseguiu um dos maiores milagres da história do futebol das Caraíbas…

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