
No inicio dos anos 50, com a eclosão das independências, o mundo começou a descobrir os encantos do puro futebol africano, até ai refém das nações europeias que colonizavam para si as suas grandes estrelas. Historicamente o território mais desenvolvido, em termos económicos e estruturais, a região norte concentrou, desde esse tempo, a força e o poder do futebol africano, cujas principais nações, com o denominador comum de terem sido colónias francesas, produziram sedutoras equipas, recheadas de grandes talentos. Foi o caso do Egipto, Argélia, Marrocos e Tunísia, a primeira selecção a oferecer ao continente negro a sua primeira vitória na fase final de um Mundial.
Foi em 1978, na Argentina, guiado pelo carismático seleccionador Abdelmajid Chetali e pelo ministro dos desportos Fouad Mbazza, que fez tudo para apoiar o grupo. Entre outros feitos lograria então a concessão de um terreno em Sfax, para o médio Dhouib construir a sua casa, a autorização para Jebali abrir um café na sua terra e, furando as regras do estágio, fazer chegar á vedeta Gommidh, uma carta da sua noiva. Tudo isto, recorda Chetali, criou uma espirito de grupo fantástico que permitiu fazer história, a 2 de Junho de 78, data da inolvidável vitória sobre o México, 3-1. Seguiu-se depois um empate, 0-0, com a Alemanha, campeão do mundo, acabando por ser eliminada pela Polónia, 1-0, mas todo o mundo ficara deslumbrado com a velocidade e virtuosismo de estrelas como Tarak, Bola de Ouro africano em 77, Akid, Gommidh, Kaabi, Dhouib e Bem Aziza, entre outros.
Apesar da ausência de proezas e estrelas semelhantes durante os anos seguintes, o futebol tunisino, tal como o de todo o norte de África, prosseguiu na década de 80 a solidificação dos seus princípios de jogo e de toda uma estrutura futebolística, baseada num legado cultural e desportivo francófono que marcou uma clivagem táctica e estilística clara com o futebol africano da região central e sul, dotada de maior talento individual, mas secularmente atrasado em termos estruturais.
Inspirada na proeza de 78, o jogador tunisino construiu, no entanto, uma identidade própria dentro da sua região, criando um estilo mais veloz e com uma mentalidade mais competitiva, apesar de terem de passar 20 anos para voltar a surgir na fase final de um Mundial.
Foi em 1998, no culminar de um projecto lançado em 1994, ano da instauração oficial do profissionalismo num país que só em 1960, após a independência, se filiou na FIFA. Mas se a profissionalização dos clubes ditou um aumento competitivo, criou ao mesmo uma clivagem entre várias categorias de clubes, originária da chamada elite dos quatro milionários: Espérance, o grande bandeira da Tunísia no mundo, Club Africain, Estrela de Sahel e Club Sportif Sfaxien. Estava lançada a nova era do futebol tunisino.
EL OUAER E ZITOUNI:
O IMPERADOR E O ARTISTA

Herdeiro de grandes monstros das redes, como Naili e Sassi Attouga, heróis dos anos 70, o guarda redes Chokri El Ouaer é, com as suas defesas prodigiosas, os voos deslumbrantes e os gritos de comando, o grande chefe da selecção tunisina. Figura do Esperance Tunis, El Ouer, 35 anos, é um guarda redes fantástico, ao nível dos melhores do mundo. Partindo da segurança que a sua presença transmite, a Tunísia produziu, nos anos 90, uma nova geração que despertou inclusive a atenção dos clubes europeus, onde emergiram o médio Beya e os avançados Sellimi e Slimane. Junto deles, surgiu em 98, o brasileiro Clayton, então no Étoile Sahel, naturalizado tunisino para jogar o Mundial-98. Uma opção que ia contra o projecto global de evolução do futebol tunisino.
Na campanha rumo ao Mundial-2002, Scoglio e Krautzen, os dois seleccionadores, apostaram numa mescla entre a experiência dos europeus e a arte dos novos talentos que entretanto despertaram. Enquanto a defesa se baseia nos três centrais Jaidi, Badra e Trabelsi, o bloco do meio campo é feito pelo trinco Chihi e pelos virtuosos Kanzari e Beya, apoiados pelos laterais ofensivos Thabet e Bouzaiene Na frente dois jovens talentos: Jaziri, do Etoile Sahel e Zitouni, 20 anos, avançado do Esperance, um típico artista do futebol africano, que sorri quando a bola lhe vem parar aos pés. Com eles, a selecção da lua e da estrela regressa, com o eternamente sedutor do estilo africano, aos grandes palcos do futebol mundial.
CHETALI, KASPERCZACK, SCOGLIO E KRAUTZEN:
QUATRO ERAS DE TREINADORES
Nos últimos 30 anos, três treinadores marcaram o futebol tunisino: Chetali, Kasperczack e Scoglio. O mago, o psicólogo e o professor.
Nos anos 70, o seleccionador foi Adbelmajid Chetali, no posto desde 75, antigo internacional, formado treinador pelo alemão Wesweiller, na escola de Colónia, onde aprendeu os conceitos atléticos e directos á baliza da sensacional selecção de 78, que fez dele um autêntico mago.
Depois da travessia do deserto nos anos 80, a década de 90 seria marcada, pelo franco-polaco Henri Kasperczack, que como jogador estivera com a Polónia nos Mundiais 74 e 78, chefe do futebol tunisino entre 94 e 98, após passagens pela Costa do Marfim e por vários clubes gauleses, como St.Etienne, Stasbourg, Matra-Racing, e Lille. Com ele, a Tunisia ganhou força e mentalidade competitiva para potencializar o seu talento.
Depois da era-Kaperczack, o treinador-psicólogo como gosta de se definir, a Tunisia sentiu necessidade de após criar uma sólida estatura competitiva, incutir maior astúcia táctica e técnica no seu jogo. Foi com essa missão que chegou, em 98, o experiente técnico italiano Francesco Scolglio, 58 anos. Apesar do seu saber, acabou por ser acusado de demasiado defensivo –jogou sempre com cinco defesas- e acabou substituído, nesta primavera, pelo alemão Eckhard Krautzen, que adoptou uma postura mais ofensiva.
Algumas décadas após a independência política do continente, África continua futebolisticamente colonizada pelos técnicos europeus. Uma factor que, tendo em conta o seu atraso estrutural, pode ser positivo, mas só se na aplicação dos conceitos tácticos do velho continente não se esquecer as características inatas do jogador africano, diamantes em bruto com os pés descalços. Desde o inicio, Kasperczack e Scolglio, ao contrário do que sucedeu noutros países com outros trotamundos da bola, estiveram conscientes disso, pelo que hoje o futebol tunisino dispõe de bases mentais, físicas e técnicas, para continuar no futuro a nobre obra do futebol norte africano.