TUNISIA CONQUISTA PRIMEIRA TAÇA DE ÁFRICA DA SUA HISTÓRIA: A lua e a estrela

16 de Fevereiro de 2004
Alinhando dois brasileiros naturalizados -Claiton, lateral esquerdo e Santos, ponta de lança- a Tunísia conquistou a primeira Taça das Nações Africanas da sua história. Um triunfo muito ansiado, mas que, face á traição genética ás suas raízes norte-africanas e ao fraco futebol exibido, deve fazer pensar todas as estruturas do seu futebol, bem como da CAF, a confederação do continente negro, do qual, nesta CAN-2004, surgiram outras selecções e estrelas dignas de registo, desde o Marrocos de Mokhtari ao emergente Mali de Kanouté, passando pela anarquia nigeriana de Okocha e a desconcentração competitiva de Camarões e Senegal.
Nas bancadas o público explodia de alegria, levantando bandeiras vermelhas, com a lua e a estrela desenhadas, símbolo nacional da nação tunisina. No relvado, um homem, nascido há 24 anos na cidadezinha de Zé Doca, no Maranhão, corria enlouquecido para os saudar. Há algo de paradoxal nesta imagem. Intrigante, mesmo. Mas, afinal, ela é, apenas, o espelho dos modernos ventos da história. Dirão os velhos teóricos da bola, que tudo isto não passa de uma nova versão do mapa-mundo futebolístico e que, no passado, também selecções europeias festejaram triunfos nacionais obtidos através de jogadores outrora nascidos ou com origens em terras africanas, desde o Portugal de Eusébio á França de Zidane. Tudo isto, porém, é outro debate, sobre diferentes formas de colonização futebolísticas e, por inerência, adulteração dos seus respectivos estilos genéticos. O único que, neste momento, move o entusiasmo da bela Tunísia, resume-se á histórica conquista da Taça das Nações Africanas. Embora não tenha sido, longe disso, a selecção que melhor futebol praticou durante o torneio, o seu triunfo tem uma explicação lógica e reside, ao fim e ao cabo, na adaptação do estilo técnico-táctico europeu, moldado pelo treinador gaulês Roger Lemerre, ao seu futebol, já de si, pela secular influência francófona, apoiado e de toque curto, com rosto europeizado. É o estilo da chamada África branca, residente da região norte, onde também habita, o outro finalista da prova, o Marrocos, que, em contraste com os tunisinos, exibiu, ao longo da prova, um futebol mais atraente e adornado tecnicamente.

Como jogou a Tunísia de Santos e Lemerre

Atraído pelo sonho, o garoto Francileudo Santos rumara á Europa ainda muito novo, ingressando no Standard Liege. Com apenas 18 anos, poréM, foi descoberto pelo Etoile Sahel, que, nessa altura tinham um protocolo com aquele clube belga. Na Tunísia, junto doutra promessa das escolas do Etoile, Jaziri, então com 20 anos, formou, durante dois anos, uma dupla atacante fantástica, acabando por, dois anos depois, ser contratado pelo Sochaux, onde está há quatro épocas, nas quais, até ao momento, fez 40 golos em 100 jogos. A aventura tunisina ficara, porém, sempre no seu coração, até que, preocupado por não ter um avançado goleador, o novo seleccionador Roger Lemere sugeriu a sua naturalização para poder, assim, alinhar na selecção, onde já estava, desde 1998, outro brasileiro naturalizado, também do Etoile, o lateral esquerdo Clayton (que jogou no Mundial 98). Chegado á selecção em Janeiro deste ano, encontrou de novo no ataque, o antigo colega de 98 no Etoile, o buliçoso Jaziri. Foram eles, a dupla ofensiva da Tunisia nesta Can-2004. Muito rápido e oportuno, sempre em movimento buscando espaços vazios, Santos fez 4 golos e tornou-se o herói do conservador 4x3x1x2 de Lemerre, que muitas vezes, para segurar o jogo, recuou para 4x4x1x1, confirmando ser, na sua essência, uma equipa muito defensiva que, só por jogar diante do seu público, ganhou maior pendor atacante. Na defesa, destaque para o lateral direito Hagui, que substituiu o lesionado Trabelsi, só regressado na meia final e final. No centro, o gigante Jaidi, e como trinco, o incansável Bouazizi, apoiado por dois volantes, Nafti e Manari. Como organizadores, Benachour ou Chadli, também sempre atentos na hora de defender. Um onze muito equilibrado nas compensações defesa-ataque, que venceu a primeira CAN da sua história jogando u futebol de clara inspiração europeia, temperada por dois brasileiros naturalizados. Sinais dos tempos.

Mokhtari e os novos talentos de Marrocos

Comandada, no centro da defesa, pelo velho Noureddine Naybet, patriarca de uma jovem equipa com uma média de idades entre os 23/24 anos, a selecção de Marrocos, que nas duas últimas edições fora eliminada sempre na primeira fase, foi aquela que melhor futebol apresentou nesta Can-2004. Uma imagem sedutora congeminada pelo seleccionador Badou Zaki, antigo guarda redes dos Leões do Atlas, que para encontrar as faces da renovação do futebol marroquino, descobriu estrelas marroquinas ainda escondidas em muitos clubes europeus de segundo plano. Foi o caso do médio Mokhtari, descoberto na II Divisão alemã, no modesto Burghausen. Pelo seu maravilhoso pé esquerdo passaram, quase sempre, as manobras ofensivas do onze de Zaki, preferencialmente esquematizado num dinâmico 3x5x2 ou 3x4x2x1, defensivamente muito seguro, com três experientes defesas em linha (Ouaddou, Naybet e El Karkouri) e dois volantes recuados muito activos na recuperação de bola e lançamento do ataque (Kaissi e Safri). Nas laterais, com grande pendor atacante, Regragui, á direita, e Kharja ou Roumani, á esquerda. Depois, a meio campo, ao lado de Mokhtari, quase sempre mais descaído sobre a esquerda, surgiu o virtuoso Youssef Hadji, 24 anos, do Bastia, espécie de falso avançado, no apoio ao ponta de lança Chamakh, 20 anos, promessa do Bordeaux, que, noutras situações, quando o onze jogou com dois avançados fixos (ou como na meia final, contra o Mali, quando jogou em 4x4x2) teve a seu lado o dinâmico Zairi, 22 anos, do Sochaux, um verdadeiro vagabundo do ataque, que joga nos dois flancos, recua para vir buscar a bola, vai ao choque, procura a falta, passa e remata. Fisicamente não intimida ninguém, mas, em campo, possui um fôlego infinito.

CAMARÕES, NIGÉRIA E SENEGAL: Os contrastes das grandes potências

Observando o cenário exportador do futebol africano nos últimos anos, conclui-se que, regra geral, existem mais jogadores da região central e sul a jogarem na Europa em grandes clubes, do que os provenientes do Norte, territórios do Magreb. Quando chegam á selecção, porém as estrelas da África negra, empenhadas sobretudo nas suas obrigações nos clubes, revelam, muitas vezes, pouco empenhamento competitivo, para além de falta de mecanização colectiva de jogo. Ao invés, os onzes norte africanos, embora menos mágicos, revelam maior consistência táctica e sentido de equipa. Mesmo as suas maiores estrelas, quando saem, é sobretudo para equipas de segundo plano (casos de Marrocos e Tunísia) pelo que as aparições na selecção continuam a ser de importantes para as suas carreiras. Tal cenário, ficou evidente, nesta Can-2004, nas exibições das potências Nigéria, Camarões e Senegal, que apesar da enorme qualidade dos seus jogadores, revelaram, muitas vezes, um claro déficit de concentração competitiva. Assim, os Camarões de Schaffer são hoje uma selecção muito influenciada pelo estilo europeu. Esquematizada num 4x4x2 que, na hora de atacar, com a subida de um lateral, se transformava quase num 3x3x2x2, confirmou o valor dos seus dois excelentes médios defensivos: Mbami e Djemba-Djemba. Nas alas, Geremi, á direita, e os possantes Idrissou ou Atouba, á esquerda, ambos com grande profundidade atacante. No centro da defesa, a forte dupla Song-Mettomo. No ataque, o poderoso Mboma e o veloz Eto´o, que, demasiado adiantado entre os defesas, sofreu sem ter os espaços livres para explodir, confirmando-se, desta forma, como sendo um claro jogador de contra ataque.

A anarquia nigeriana e a técnica do Senegal

Após um conturbado inicio, com o afastamento, por indisciplina, de Agali, Babayaro e Yakubu, a Nigéria foi uma selecção de contrates. Tecnicamente perfeita, mas tacticamente quase anárquica. Mantendo no seu comando o velho Chukwu, este onze nigeriano carece de quem ordene o seu enorme talento, algo só esboçado, a espaços, quando Okocha pega na bola na zona central do meio campo, adianta-se com ela, levantando a cabeça e indicando as linhas de passe a executar. O sistema utilizado foi um 4x4x2 que, pela falta de mecanização a meio campo, se estendia numa espécie de 4x1x2x2x1, com um trinco (Olofinjana), um ala esquerdo (Laval), que combinava nas manobras defesa-ataque com o lateral Udeze, um ala direito (Odemwingie), um playmaker (Okocha) e dois homens mais adiantados: Utaka, entrando de trás pela direita, e Kanu, quase um ponta de lança clássico, apesar de muitas vezes, recuar ou procurar as faixas para abrir espaços a Utaka. A dinâmica táctica falhou, sobretudo, pela falta de coordenação de movimentos entre o trio de médios mais ofensivos, pois todos eles chegavam ao ataque partindo muito de trás, sobretudo os alas Utaka e Laval, enquanto que Odemwingie nunca teve posição definida, partia da direita, mas sempre que Kanu se movia, procurava penetrar pelo meio, criando uma verdadeira anarquia ofensiva. Alinhando num 4x4x2 de rosto europeu, o Senegal de Guy Stephan apresentou, pelo contrário, dois sectores bem definidos a meio campo, com Cissé e Diao na linha defensiva, como trincos puros, nas costas de Diop, um gigante criativo, espécie de regente de um trio mais adiantado: Diouf, alternado entre o centro e os flancos, Sako, muito rápido a furar pela esquerda e Camara, mais sobre a direita, surgindo Niang no caso de jogar com um ponta de lança clássico. Tacticamente bem ordenada, o onze revelou, porém, pouca astúcia no jogo com a Tunísia, nos quartos-de-final, onde, apesar de gerir os diferentes ritmos de jogo, nunca conseguiu desenhar as triangulações necessárias para, na fase atacante, chegar ao golo.

A arte do Mali e a renascida Argélia

Numa edição onde estiveram ausentes as históricas selecções do Ghana e da Costa do Marfim, a principal sensação foi o Mali de Stambouli, jogando quase sempre em 4x4x2, e revelando vários jogadores interessantes, casos do trinco Diarra, precisão no corte e no passe, já um pilar do Lyon, e do médio volante esquerdo Soumaila Coulibaly. No ataque, redescobrindo as suas raízes depois de ter jogado na França pelos Sub-21, o perigoso ponta de lança Kanoute. Principal potência do Magreb nos anos 80, a Argélia de Belmadi, um nº10 orquestral com grande visão de jogo, revelou as novas estrelas: o médio Kraouche, do Genk, lutador e com boa técnica, e o lateral direito Achiou, muito ofensivo. Repassando as outras selecções, citem-se, entre outros, Dagano e Minoungou, talentos atacantes do Burkina a seguir com atenção, o fantástico Oliech, avançado do Quénia, e, entre outros, o médio ofensivo Feindouno, da Guiné.

A SELECÇÃO DA CAN-2004

(Sistema:3x5x2)
Energy Murambadoro (Zimbabwe/Caps United) Guarda redes, 21 anos Eis um guarda redes africano de grande futuro, que diz-se, estar já um passo do Marselha. Ágil e com grande reflexos, autor de defesas espectaculares, como no jogo inaugural contra Marrocos. Lapidado pela escola europeia poderá ser um fenómeno. Joseph Yobo (Nigéria/Everton) Defesa central, 23 anos Magnifico defesa central. Forte, aguerrido e tecnicamnte evoluído. Discreto nos movimentos, raramente falha a entrada a uma bola. Lê bem o jogo, poder de antecipação e lucidez técnica para passar a bola. Radhi Jaidi (Tunísia/Espérance) Defesa central, 28 anos Uma muralha com 1,90m. Sempre atento no corte, muito possante, marca em cima e intimida com o seu porte atlético qualquer avançado. Não sendo muito rápido, possui, porém, excelente sentido posicional. Karim Hagui (Tunisia / Etoile Sahel) Defesa direito ou central, 20 anos Começou a lateral direito, colmatando a ausência do lesionado Trabelsi. Com o regresso deste, passou para central. Em ambos os postos esteve impecável. Embora pouco ofensivo, revelou-se eficaz no corte e preciso no passe. Riadh Bouazizi (Túnísia/Gaziantepspor) Médio defensivo, 30 anos Incansável na luta pela recuperação da bola, faz, sozinho, a primeira linha de cobertura defensiva da Tunísia, na qual foi, claramente, o jogador mais influente para equilibrar todo o onze nas burocráticas manobras defesa-ataque. Soumaila Coulibaly (Mali/Fribourg) Médio esquerdo, 25 anos Um esquerdino dono de grande capacidade técnica que enche todo o flanco canhoto, como médio ala, como faz no clube, ou até, como faz na selecção, quase como um extremo ou segundo avançado no apoio ao ponta de lança Kanouté. Youssef Mokhtari (Marrocos/Burghausen) Médio ofensivo, 24 anos Um craque escondido na II Divisão alemã. Faz o que quer da bola, quase de forma insolente. Embora algo lento, tem rasgos de génio, marcou golos de encantar e revelou sublime visão de jogo. Caminho aberto para um grande clube europeu.... Jay-Jay Okocha (Nigéria/Bolton) Médio centro, 30 anos A personificação da anarquia nigeriana. Com a bola nos pés, continua fabuloso, mas, ocupando todo o meio campo, quase se transforma uma espécie de jogador-orquestra que confunde posicionalmente todos os outros colegas de sector. Muito talento, nenhuma ordem. Youssef Hadji (Marrocos/Bastia) Médio, 24 anos Em relação ao irmão Hadji, que passou pelo Sporting, apenas tem a diferença de ser muito menos rápido. No resto, é quase uma fotocópia física e futebolística. Rompedor, muito inteligente com e sem bola, gosto pelo risco e rasgos individuais notáveis. Freddy Kanoute (Mali/Tottenham) Ponta de lança, 26 anos Um ponta de lança que conhece todos os segredos da área. Formado em França, doutorado no futebol inglês, possui remate forte, notável capacidade de desmarcação, excelente jogo de cabeça e capacidade física para chocar com os adversários. Denis Oliech (Quénia / Al Arabi) Avançado, 19 anos A grande revelação da CAN-2004. Está a jogar no Qatar e é um diamante em bruto. A principal arma do seu futebol é a velocidade, imaginação e garra com que enfrenta e fura por entre os defesas. Não o percam de vista!

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