Ultrapassados pelo jogo

30 de Junho de 2010 18:22
No início, existia o plano. Depois, o jogo. No momento em que se desencontraram, a selecção perdeu-se...

 

Estava em jogo a passagem aos quartos-de-final. A selecção reacendera-se poucos dias antes, mas todas as adesões acabam quando se acaba o êxito. Queiroz foi o primeiro a ter consciência disso. No futebol, como na vida, êxito e fracasso são os dois maiores impostores que podemos encontrar. Mudam de opinião com uma facilidade impressionante. E, 90 minutos depois, já estavam, cruelmente, no lado oposto. Primeiro ponto: o plano de jogo não pode condicionar o…jogo real. Ou seja, no final, explicando a criticada substituição de Hugo Almeida, Queiroz disse que “a estratégia passava por desgastar a defesa espanhola e depois lançar armas mais rápidas e criativas para chegar ao golo”. Por isso, entrou Danny. É, de facto, uma ideia compreensível, na previsão do (plano de) jogo. O problema é que, muitas vezes, o jogo real não «diz» isso. Isto é, os jogadores espanhóis não acusavam desgaste e a ocupação de espaços estava estabilizada. Ou seja, o plano de jogo prévio português fora ultrapassado pelo próprio jogo, o que, desde logo, obrigava a uma interpretação diferente. Queiroz manteve, no entanto, a estratégia e, com isso, o plano, num ápice, ficou desadequado da realidade.
 
Segundo ponto: a opção Pepe é um erro conceptual que travou todo o jogo de Portugal. Em vez de um pivot, como Pedro Mendes, surgiu um… trinco. Frente a um meio-campo de baixinhos (Xavi, Iniesta, 1,70m.) Queiroz tentou ganhar na altura (Pepe, 1, 87m.). Não faz sentido esta opção pela dimensão física. Desta forma, retirou força táctica a uma posição-chave do jogar preferencial português. Sem Pedro Mendes, perde-se qualidade de fazer um primeiro passe de transição defesa-ataque que permita iniciar a saída de bola, liberando Tiago e Meireles para zonas mais adiantadas. Sem esse jogador, Portugal limitou-se a tirar a bola da zona de pressão central, mas nunca conseguiu sair dela com qualidade construtiva em posse. São duas formas muito diferentes de sair do mesmo lugar. Era então como se existisse uma parede invisível naquele espaço do relvado que nos impedia de subir. Não existia. Ela fora criada de forma imaginária na cabeça dos jogadores portugueses. 
 
 
 
Ronaldo, Deco e a bola  
 
Com um plano de jogo concebido essencialmente para jogar em função do adversário, o bloco português baixou excessivamente e permitiu que os espanhóis controlassem a posse de bola sem esforço. No fundo, foi o que disse Xavi, no final, ao referir que “a estratégia portuguesa deu-nos a bola e com ela nós sentimo-nos sempre mais confortáveis!”. Um erro conceptual (Pedro Mendes por Pepe) que retirou auto-determinação ao nosso jogar e condicionou tacticamente Meireles e Tiago no plano ofensivo. Uma consequência desoladora numa equipa que, na evolução por que passou, chegou ao jogo mais importante do Mundial sem contar com um jogador que antes dele começar todos diziam ser quase insubstituível: Deco. Não é normal.
Cada vez que Ronaldo arranca com a bola continua a ser o início de um plano de aventuras individual. Vendo-o o jogar, fico sempre a pensar “mas o que lhe terá pedido antes do jogo o treinador para fazer?” Não deve ser, certamente, para fazer só aquilo. Nesse sentido, o jogo de Ronaldo cada vez perturba mais do que empolga. Falta-lhe, claramente, inter-ligação com o resto da equipa. Sem resolver esta questão continuará a jogar quase um «jogo particular», que só ele entende (na velocidade e conceito) a cada 90 minutos.  

 

 

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