Existe a matemática e existe o futebol. São opostos que, tantas vezes, na relva, não se…atraem. A saga do chamado quarto candidato no campeonato português perde-se illio tempore. Sete jogos, sete vitórias é, porém, algo mais do que uma simples equação matemática. Há futebol pelo meio. Por isso, o actual Braga de Domingos é um «outro tipo de candidato». Fora do discurso oficial dos três grandes. Dentro do discurso puramente futebolístico da relva.
Um golo no minuto 94, um centro que bate num adversário e vai para a baliza, um penalty que não era. Seriam três formas simples para explicar algumas das últimas três vitórias. Em campo, porém, este Braga não fala (joga) por detalhes. Há uma cultura de clube subjacente, há um estilo de jogo pensado.
Ponto um: Cada vez existem menos pontos de contacto entre este Braga de Domingos e o de Jesus. O sistema (do 4x1x3x2 para o 4x2x3x1) e as transições. A principal alteração nasceu da saída de Luis Aguiar. Agora, a conexão central (dentro do «2x3» do meio-campo) é feita por dois jogadores mais posicionais: Hugo Viana, na primeira linha (por isso a ilusão de jogar com duplo pivot clássico), Mossoró, na segunda. Tal afecta desde logo os princípios das transições. Obriga Viana a ficar mais (quando podia subir para soltar o seu bom passe) e, com Mossoró sem vocação defensiva, é o avançado mais imaginativo que mais recua sem bola: Alan. Mas se esta alteração de transição defensiva é sobretudo motivada pelas diferentes características dos jogadores (o que saiu e os actuais) na ofensiva resulta de uma outra concepção de jogar.
Com Jesus, o Braga jogava mais em transições rápidas. Não cultivava a posse e na organização ofensiva a bola entrava (ou não) quase sempre pelo mesmo sitio. Com Domingos a transição é mais organizada (em segurança pode até iniciar-se com um passe atrasado). Resiste à vertigem das transições individuais (um jogador a queimar-linhas em posse) e dos laterais sempre a subir, procurando mais o toque apoiado, dando largura através de alas (Paulo César-Alan) que também sabem jogar por dentro e, a atacar, compensam a pouca mobilidade do nº9 Meyong.
No inicio, Moisés é a referência na organização defensiva (jogo e grito) e Vandinho a âncora que activa a passagem entre os diferentes momentos. Segura o espaço e indica caminhos à bola no espaço-chave de equilíbrio à frente da defesa.
Para além da táctica, é irónico reparar como este sucesso pode começar num fracasso (a eliminação europeia) que criou condições competitivas para manter um alto nível exibicional mais difícil de obter jogando Europa e campeonato ao mesmo tempo.
Belenenses, 1946. Boavista, 2001. Os únicos intrusos históricos no castelo do título três grandes. Pedir a outra equipa que assuma uma candidatura ao título é, pois, contra-natura. A todos os níveis. Mas existem outras formas de o fazer. Falando dentro do campo. É esse o «outro tipo de candidato», assumido através do futebol praticado, que o nosso campeonato precisa. Como o Braga de Domingos.