Um pacto com a «ciência»

April 2, 2010 2:35 PM
No campeonato mais «italiano» das últimas épocas, será mais decisivo quem defende ou quem ataca melhor?

 

Não acredito no destino. Nada na vida está «escrito». Nem no futebol, claro. Por isso, é impossível adivinhar o futuro. Mas é possível perceber o presente. É nessa perspectiva que uma equipa de futebol deve ser forte. No limite, pode, durante a semana, prever várias situações para o jogo, mas como adivinhar só um não é possível, a diferença, em campo, é, depois, feita por perceber o que nele está a acontecer e agir/reagir em conformidade (táctica e mental). 
Este campeonato já disse, claramente, o que faz uma equipa ser mais forte do que as outras: a organização defensiva. Naquele que estará a ser, talvez, o, digamos, campeonato mais italianizado (na forma de jogar) das últimas épocas, o tal entendimento superior dos diversos «jogos» escondidos dentro do mesmo jogo, é o mais importante.
 
Não será um exagero dizer que o Braga foi, contra o Sporting, táctica e mentalmente uma «equipa italiana»? Pelo menos na primeira parte. Neste caso, esse lado italiano do jogo traduzia-se em não se importar com o facto de o adversário ter mais posse da bola e circulá-la à sua frente. Mas até o lado italiano tem diferentes variantes. O esperar do erro neste caso confunde-se com o atrair do adversário para…errar. E depois, sim, meter a transição. A equipa pequena italiana também defende atrás e espera o erro, mas quando vai lá à frente, quase fica em pânico de com isso perder a segurança defensiva e regressa rapidamente à sua trincheira para tão cedo não sair mais dela. A equipa grande italiana provoca o erro e quando vai lá à frente, entra com segurança no seu plano ofensivo, sente coragem e constrói uma jogada de golo, sem receio. E regressa sem mexer um nervo da face. Penso que é esta imagem que diz mais do que é hoje o Braga de Domingos, sobretudo nestes jogo onde se diz que «aumenta a pressão». A organização defensiva é o momento-âncora do jogar da equipa.
O Benfica, pelo seu treinador, também teria a mesma âncora, porque uma equipa até pode ter deficiências ofensivas e isso (por depender sobretudo da criatividade dos jogadores) até fugir à responsabilidade do treinador, mas, no lado posto, a organização defensiva, essa, qualquer equipa bem treinada pode ter, pois depende sobretudo do posicionamento (não da criatividade do jogador). E nisso, o treinador pode influir muito mais. Como a equipa procura, porém, jogar quase sempre no campo adversário, recuperando rapidamente a bola, tal supõe muito mais tempo para elaborar as jogadas ofensivas. A maior deficiência nota-se, depois, na transição defensiva sobre os flancos, mas tal é sobretudo questão das características dos jogadores (contra o Guimarães, Coentrão-Di Maria, na esquerda; Maxi-Carlos Martins, na direita) que não têm grande vocação para esse momento do jogo.

 

Jogar bem é, por isso, sobretudo saber interpretar o que acontece no jogo. Um pacto com a ciência com jogadores no meio. É uma ilusão fácil pensar que é só uma questão de atitude. É muito mais. É uma questão de jogadores (equipas) como seres pensantes.

 

 

 

50 golos
marcados…
 
O Benfica olha para a classificação e (com um jogo a mais…) vê-se, por fim, em primeiro lugar. Mais impressionante do que isso, porém, deve ser reparar noutro facto. Os golos marcados: 18 jogos, 50 golos! O poder atacante da equipa de Jesus tem sempre um ritmo alto, mas na fase de conclusão perto da área a bola repousa curtos instantes num jogador que sabe depois entender o conceito de último passe. O mais interessante é ver como isso tanto sucede no jogador que joga quase sempre fixo (Cardozo, o tecnicista possante) como no que joga quase sempre em mobilidade (Saviola, o tecnicista franzino).
A intensidade do meio-campo a recuar ou, até, a fazer faltas quando teme que a equipa fique desequilibrada quando perde a bola (crucial Javi Garcia), protege as deficiências defensivas, sobretudo sobre os flancos. Num conceito global de jogo, este Benfica destaca-se nos momentos de jogo em que ataca. Colocar o jogo (a bola) nesses espaços é a chave para, a cada jornada, melhor acariciar o título.
 
 
 
…Apenas 6
sofridos
 
Se uma boa equipa é sobretudo equilíbrio nos três sectores (o tal bloco coeso) o Braga de Domingos é o melhor exemplo. Aconteça o que acontecer, será sempre a equipa que mais tempo esteve em primeiro neste campeonato. O principal suporte deste feito está num registo defensivo impressionante: 7 jogos, só 6 golos sofridos! Olhando o seu quarteto defensivo, um jogador emerge como chefe supremo, Moisés, mas o pêndulos do onze estão mais à frente no meio-campo. Por isso, a importância de saber como irá a equipa reagir sem a “âncora” Vandinho. Em condições naturais, seria Viana a recuar, mas isso irá mexer em duas posições vitais. Olberdam, o novo reforço, é o substituto natural mas não tem a mesma saída para o jogo de Vandinho. Ou seja, mexeram no coração da equipa, sobretudo no plano da transição defesa-ataque. A outra face permanece intocável. 
É difícil dizer se este campeonato será decidido por quem ataca melhor ou por quem defende melhor (em geral, o segredo está no equilíbrio) mas no caso de sucesso bracarense não existem duvidas que a chave será a organização defensiva.

 

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