Durante três anos falei por aqui das suas boas exibições, mas, chegado ao fim da época, essa espécie rara em termos de remate continuava na II Liga, em Penafiel. Teria mau feitio? Seria por se deitar tarde? Pediam assim tanto dinheiro? Não sei, mas qualquer coisa estranha se devia passar para ele não dar o salto. Sim, era verdade que tinha peso a mais. Ah, o avançado gordito que faz golos… diziam alguns treinadores. Cheguei a ouvir a explicação técnica que, sim, era um grande avançado mas passava muito tempo em frente ao computador, na internet a…comer bolachas. Engordava facilmente, portanto. Mas, claro, o maior problema era que pediam muito dinheiro.
Não sei como o Paços fez essa engenharia financeira, mas a verdade é que esta época, o monstro das bolachas surgiu, por fim, na I Liga. Gordito, é certo, mas com o mesmo remate e instinto de golo na bota canhota. Durante mais de uma hora, virou de pernas para o ar a defesa do Sporting e quase levava o onze leonino em definitivo para o fundo do poço do campeonato dos candidatos ao título.
Passemos para outro lado da história. Elias não parece o tipo de jogador de comer muitas bolachas. Franzino, parece ter uma tomada eléctrica que o liga à corrente durante 90 minutos. Alta voltagem táctica de transições e organização ofensiva (transporta, passa e remata). Quando o jogo parecia entregue ao monstro amarelo, ele surgiu, na astúcia dos espaços vazios (nessa fase maiores) a dar-lhe outro destino.
Nenhuma equipa muda em apenas 15 minutos. Domingos sabe disso e saberá ler/separar as especificidades deste jogo (ou essa parcela de tempo) da análise global aconselhada. O problema da defesa é mesmo separado do problema do processo defensivo da equipa. Isto é, a equipa fecha quase sempre bem sem bola no comportamento dos médios, mas os membros do sector recuado não percebem por onde a bola (mesmo já filtrada) pode entrar na sua linha que parece, muitas vezes, afastar-se demais. Falta agressividade de antecipação nos duelos.
A construção de Domingos tem agora, porém, um ponto novo: maior conhecimento (desportivo e humano) dos jogadores. Wolfswinkel, por exemplo, não é o tipo de jogador de que se goste à primeira vista mas pode fazer muitos golos. Schaars é um jogador fundamental no equilíbrio do meio-campo mas não pode ser… tão importante na soma das partes. Ou seja, não pode ser protagonista. Tem de ser o melhor actor secundário do filme do jogo. O papel principal, esse, é de Elias, um duende táctico.
Não sei se depois do jogo o Michel comeu muitas bolachas. Talvez. Seja como for, no próximo jogo vou voltar, calmamente, a segui-lo de perto. Como Elias, no Sporting, embora aí tenha de ser mais célere a rodar a cabeça quando a bola for ter com ele. Ou seja, o bom futebol pode ter diferentes velocidades (pesos, alturas e morfologias), mas o código genético é o mesmo: inteligência da qualidade técnica.