A Inglaterra continua um mundo de emoções cruzadas entre o futebol moderno e as velhas tradições como em mais nenhum ponto do Planeta do Futebol. Eis alguns desses «sentimentos técnico-tácticos» tirados dos últimos jogos:
1. Está claro: o duelo pelo título vai ser um longo derby de Manchester jogado por diferentes relvados. Vendo as duas equipas, ambas poderosas a atacar, uma forma de perceber qual o principal candidato é detectar qual…defende melhor. Estará aqui a chave do título: ganha quem tiver a melhor defesa. No papel, o Utd. tem a melhor dupla de centrais (Ferdinand-Vidic). A dupla do City (Kompany-Lescott ou Touré) é menos personalizada e mais lenta. As lesões, porém, têm retirado muitas vezes dos jogos a dupla imperial do Utd. A segurança do sector ressente-se disso.
Nas laterais, gosto de ver Richards na direita do City, dobra muito bem quase como terceiro central. Na esquerda, Evra, gaulês corre-caminhos do Utd, forte a defender e a atacar, é a maior referência. Mas, o processo defensivo não é só questão de defesas mas também da dupla de médios à sua frente. Nesse espaço, o City tem uma dupla mais forte: Barry-Yaya Touré. O Utd. tem uma referência maior a marcar e sair, Carrick, mas o seu acompanhante varia muito (Giggs soberbo no passe, Gibson operário, Fletcher puxa sempre para a ala, Anderson é o mais box to box). Na baliza, Hart e De Gea equivalem-se.
Qual equipa defende melhor? Com Ferdinand-Vidic a jogar, o United. Sem eles, vendo a complementaridade com rotinas de Barry-Touré (apoiados por Milner) o City, pela melhor forma como, neste espaço prévio, protege a linha de «4» defesas.
2. O Tottenham ameaça ser a terceira força da Liga esta época. Redknaap rotinou um onze muito forte, em 4x2x3x1, com Sandro-Parker a equilibrar tacticamente o sistema à frente da defesa. Principal questão: a posição de Van der Vaart que, com Modric a 10 (em vez de jogar mais atrás, antes da entrada de Sandro) acaba num flanco, o direito, longe do centro onde joga melhor. Por isso o sistema varia muito para perto do 4x4x2, com Van der Vaart nas costas e Modric solto, pois no lugar 9, Adebayor é a grande referência (noutra versão do 4x4x2 pode surgir Defoe a mover-se perto dele). Em qualquer opção, porém, com Bale a voar pela ala esquerda, o mais natural seria ver, na direita, os raids serpenteados de Lennon.
3. No Chelsea, Romeo é a principal tentativa de Villas-Boas dar qualidade de saída em posse ao seu 4x3x3 mas fixa menos a estrutura que Mikel, jogo mais curto. Ramirez e Meireles são os interiores mais rotativos para 90 minutos. Lampard cai com o decorrer do jogo. O onze perdeu o factor que o fez mais forte no passado: segurança defensiva. A sua linha de «4» perdeu velocidade e solidez posicional. No ataque, Mata, pela mobilidade, é quem faz mover melhor o sistema mas o dogma 4x3x3 de Villas-Boas torna mais evidente as falhas na transição defensiva.
Jogo apoiado ou três centrais
Percorrendo outros relvados, existem equipas da chamada classe média que merecem destaque:
4. O Swansea de Brandon Rodgers é das equipas que tenta jogar um futebol mais apoiado. Luta pela permanência com uma ideia de circulação de bola, resistindo à tentação do passe longo. Desenha-se em 4x3x3 com alas criativos (Routledge-Sinclair), um bom nº9 (Graham) e um pivot-formiga fazendo girar a bola com critério: Briton, uma lenda no clube, como o qual atravessou as quatro divisões do futebol inglês até chegar á elite. Ele é a personificação do Swansea- clube e, com bola, a melhor expressão do seu modelo de jogo. Vejam-no com atenção.
5. Não é comum surgir em Inglaterra uma equipa a jogar como defesa a «3», ou, neste caso, três centrais e laterais ofensivos, que, a defender, fecham numa defesa a «5» (5x3x2). É o rosto táctico do Wigan de Martinez na luta pela permanência, utilizado sobretudo nos jogos grandes. Tanto deu para empatar com Chelsea e Liverpool, como para ser goleado por Manchester Utd. e Arsenal. Tem um avançado serpente (Moses), um médio forte senegalês, Diamé (versão light de Yaya Touré) para seguir. O facto de Martinez utilizar este sistema sobretudo como arma defensiva contra equipas grandes retira-lhe a potencialidade que poderia ter como opção táctica mais personalizada em construção de jogo, momento em que é fica muito curto e sem velocidade.
“Máquina do tempo”
Quase expressão cultural, existem jogadores que quase saídos da máquina do tempo, conservam, mesmo com a invasão estrangeira, o velho estilo britânico.
6. No Liverpool, Charlie Adam lembra-me os velhos médios que pareciam jogar meio curvados com barriguita mas que mesmo assim, com a bola, sabiam mais do que os outros em campo. Peter Reid, lenda do Everton dos anos 80, será eternamente a minha grande referência. Eu sei que é diferente, mas o facto de Adam ser meio careca e surgir tarde (26 anos) a este nível, também ajuda a esta imagem. Acho que às vezes podia jogar com as mãos nos bolsos. Mete a bola onde quer no passe e ilumina o ataque dos reds nesses momentos. Um jogador de outras eras.
7. No trilho dos insolentes escola-Gascoigne, quero falar logo de Joey Barton, hoje médio do QPR. Cada jogada sua parece uma provocação aos adversários para quem olha sempre com ar de quem os está a desafiar para uma rixa de rua. Tem, porém, muito futebol nos pés, uma técnica agressiva que, quando inspirado e com a cabeça no lugar, como que dá «murros com bola» no jogo. São as melhores provocações de Barton.