Existem várias formas decifrar o futebol, mas olhando os últimos jogos, a melhor será, talvez, aquela que o define como «uma emoção com a qual se joga». Sobretudo, esta semana, nos relvados a azul-e-branco, Em pouco tempo, a ansiedade das últimas jornadas foi ultrapassada por um estado de alma com transfer táctico que alterou as anteriores coordenadas dadas pelo campeonato. Pelo meio, um jogo europeu, com Hulk 90 minutos à solta, uma união militarizada do grupo, e um novo jogo…
O pior que pode acontecer a uma equipa é, de repente, no jogo, sentir-se num território estranho. Ou seja, num cenário táctico adverso à aplicação da sua estratégia. O auge deste cenário de hostilidade táctica é quando se perde a organização, sobretudo no plano defensivo. Mais do que pensar, a equipa fica incapaz de…começar a pensar.
Até à jornada 20, o Braga ainda não tinha mexido um nervo da face. A base estava na tal esfinge defensiva que erguia quando perdia a bola. A única forma de subverter esta ordem, quase um manto táctico que cobria adversário, era através de um tipo de jogadores que (cada vez mais raros) fogem ao final lógico que, naquele contexto, as jogadas teriam. Buscam espaços menos preenchidos, metem a bola neles e, depois, porque os leram e criaram antes de todos os outros jogadores em campo, atacam-nos primeiro, em velocidade. Quando percebe que este tipo de jogador (e tipo de soluções que ele gera) está em campo, todo o resto da equipa o procura. Porque percebe que na altura de encontrar uma saída para a jogada, ele também vê a equipa (entenda-se os movimentos dos outros jogadores).
Não sei se estão entender esta reflexão, mas, como tudo funciona melhor com exemplos, pensem na forma como Hulk regressou ao choque contra os muros (entrincheirando cada jogada) contra o Arsenal, matando espaços, e, depois, na forma como Varela jogou (resolvendo cada jogada) contra o Braga, inventando espaços.
Perdido o ordenamento do território defensivo, o onze bracarense perdeu o abrigo onde, durante a maior parte dos jogos, refugia a sua estratégia. Ficou no tal território estranho, em escuridão profunda, sem sequer um jogador com uma lanterna para iluminar o caminho. Do outro lado, os novos olhos da equipa azul-e-branca: Ruben Micael. Os treinadores tendem a hesitar quando procuram, no quadro táctico, uma posição para colocar a cruz correspondente a este tipo de jogador. Pela direita ou mais pelo meio, na meia esquerda ou atrás dos avançados? A dúvida resulta da dificuldade em vê-lo só num lugar. Jogadores como Ruben Micael necessitam de uma equipa com andamento firme para atingir, no jogo, a mesma sensibilidade de passe como de remate.
Ao longo deste texto, cruzaram-se conceitos individuais e colectivos. Um grande jogador, numa simples jogada, terá sempre mais força do que um plano colectivo. Uma grande equipa, no conjunto de 90 minutos, está sempre por cima de todos os jogadores. Os melhores (jogadores e equipas) são os que percebem tudo isto. A medida certa para ganhar.