A primeira imagem que se recorda citando o seu nome ainda é de jogador. Leonardo era o lateral-esquerdo que tirou o lugar a Branco no Mundial-94, quando o Brasil resgatou a coroa. A política de treinadores do Milan de Berlusconi elege-o agora como o sucessor de Ancelotti. Desde 1987 que o banco do Milan é quase uma questão de família. Há como a intenção de manter uma dinastia no estilo e uma espécie de segredo de balneário na sucessão dos treinadores. Sacchi, Capelo, Ancelotti, Leonardo. Apenas Zaccheroni, campeão em 95, foge a esta lógica.
A dúvida faz, no entanto, sentido: o que pode valer Leonardo como treinador? Existiam outros nomes da família com maior pedigree táctico, de Donadoni a Van Basten. Tal como Capello, também Leonardo foi director para o futebol, mas os cenários são muito diferentes. Capello, no seu legado italiano, tinha outra bagagem táctica. Leonardo apontou como referência a seguir, a selecção do Brasil de 82. Só a sua memória arrepia. Foi a última selecção romântica. Este Milan é outra história. Vive entre pop-stars (as contratações de Beckham e Ronaldinho), grandes jogadores (Seedorf, Pirlo e Kaká) operários (Gattuso, Ambrosini) promessas (Pato) e veteranos (Inzaghi, Favalli, o fim de Maldini…). É difícil dar uma identidade comum de equipa a um puzzle com peças tão diferentes.
Quando enquanto jogador perguntavam a Guardiola o que ele queria ser após terminar a carreira, era costume ele dizer que treinador era o mais provável. Os mais atentos rejeitam a resposta. “Porque treinador já tu és”, diziam-lhe então, referindo a forma como ele, em, campo, jogava quase como orientando ao mesmo tempo os movimentos colectivos da equipa. Vendo jogar o actual Barça e a postura de Guardiola no banco, parece que ele foi treinador toda a vida. Nasceu treinador.
É interessante procurar sempre um treinador que transmita o estado de espírito que espelhe a cultura de clube. Na pose, Leonardo tem, claramente, o estilo-Milan. Como jogador, tinha leitura de jogo. Não era o mero sul-americano dos dribles. Sabia jogar. Estará neste princípio o seu conhecimento táctico do jogo, lapidado pelos anos em Itália. O Milan não é, no entanto, o Barça. Aquela equipa, mais do que um treinador-coreógrafo estilo Brasil 82, necessita de um catedrático, como foi Sacchi ou Capello, cada qual ao seu tempo. Futebol em papel quadriculado. Porque é essa a essência do Calcio, como até Mourinho sentiu ao jogar contra equipas treinadas para defender alegremente durante 90 minutos com oito ou nove jogadores atrás da linha da bola. É, neste sentido, outra questão de família. A família táctica do Calcio.