Vendo a “outra Europa”

March 4, 2011 3:00 PM
De Tblisi a Yerevan, Geórgia e Arménia, seguindo selecções nos caminhos mais secretos rumo ao Euro-2012; Bélgica, Albânia e Bulgária, ADN temperamental

 

Percorrer os caminhos do Euro-2012 convida, nesta fase de apuramento, a visitar nações da chamada outra Europa futebolística, onde cada jogo é uma afirmação de orgulho patriótico. É o que senti vendo jogar Arménia e Geórgia, frente a potências como Rússia e Croácia.
 
A primeira sensação que fica é que estas selecções lutam mais do que jogam, mas não é bem assim. Há um claro progresso a nível táctico e técnico. A Geórgia é um caso evidente. Venceu a Croácia de Modric e Kranjkar, montando um 4x5x1 com três médios-carraça (Kizanishvili-Daushvili-Kankava) que não deixou respirar os tecnicistas croatas. Depois, a atacar, soltava dois alas que procuravam diagonais (Iashvili, desde a direita e Kobiachvili, desde a esquerda) aproximando-se do ponta-de-lança (Dvalichvili ou Siradze) que servia essencialmente de apoio para quem vinha de trás. O onze ficava muito recuado após recuperar a bola (sempre 8 jogadores atrás da linha da bola) e pedia passes longos dos trincos. No fundo, sabia que só mantendo o posicionamento defensivo podia discutir o jogo. Com o tempo, foi-se esticando mais no contra-ataque. A ideia que fica é que bastava ter dois jogadores de maior qualidade (um médio ou um bom avançado) para ser uma selecção mais perigosa, perto do apuramento. No passado, ainda teve o terrível goleador Arveladze. Agora, é o experiente Kobachvili (escola alemã) a mascarar-se de 10 para, no centro, levar o jogo para uma dimensão competitiva superior. E assim fez o golo da vitória.
 
Na Arménia, contra a Rússia, o estímulo de desafiar o anterior poder territorial. No estilo, o futebol armeno procura ter mais posse de bola do que, por exemplo, o da Geórgia. Monta um 4x2x3x1 com grande mobilidade atacante, deixando na frente um ponta-de-lança possante que quando recebe a bola, esconde-a e é muito difícil de se desarmado. Sozinho, Movsisian (do FC Kradnodar) aguentou quatro defesas russos. No meio-campo, em vez de só pressionar como a Geórgia, mete no centro um brasileiro naturalizado, Marcos (há seis anos na Arménia), Malakyan na direita e, vindo da esquerda, misto de organizador e segundo avançado (pela classe na organização e objectividade em ir para cima dos defesas adversários) o excelente Ghazaryan, ainda escondido no FC Pyunik armeno. À frente da defesa, Mkhitarian (Shaktar Donetsk) vigia muito bem as derivações de Arshavin e Dzagoev, magos russos, aguentando um 0-0 que diz tudo sobre a boa gestão de ritmos de jogo e posse pela posse feita pelo onze armeno.
 
Cada vez mais, nestes territórios a leste estão forças emergentes do futebol do futuro que merecem mais atenção. Em termos de mercado a explorar, inclusive.
 
 
 
 
Bélgica e Albânia
 
Sempre que vejo jogar a Bélgica, penso nas suas selecções dos anos 80 e, por isso, sou, talvez, demasiado exigente com as suas exibições. A nova geração tenta resgatar esse belo futebol. Fez um bom jogo na Áustria (0-2). Na base, o meio-campo com um pivot de equilíbrios (Simons) e dois médios que pressionam e atacam (Defour-Witsel). Witsel é, diga-se, um belíssimo jogador. Aos 22 anos, ficou marcado por algumas entradas duras que teve, mas isso é injusto, pois tem muito futebol dentro dele. No ataque, Chadli é um poeta criativo, ala destro na esquerda. Com mais intensidade seria um craque. Assim, é um bom jogador que fez coisas engraçadas no jogo. E a seguir adormece.
Outra selecção que continua a crescer é a Albânia. Fiquei impressionado com o jogo (na intensidade, velocidade e oportunidades criadas após boas jogadas de combinação) que fez contra a Bielorrússia de Hleb, cada vez mais um ex-jogador na atitude quase soporífera que tem em campo.
 
No onze albanês (4x4x2) Lala, aos 35 anos, fixou-se a pivot e dá outra qualidade à saída de bola (tal como Cana, que foi de médio para central). Na segunda linha do meio-campo, Skela-Bulku-Agoli não param um segundo, servindo uma dupla atacante, com Bogdani a procurar o choque e o dinâmico Salihi a surgir os espaços vazios com excelente poder de desmarcação. Ganhou 1-0. 
 
 
 
 
 
Bulgária, ADN temperamental
 
Será uma questão de hereditariedade futebolística. Vejo jogar a Bulgária e a ideia que tenho é que os seus jogadores (tecnicamente evoluídos) parecem estar sempre à espera de um pretexto para acender um sururu em campo. Serão ainda ecos do irascível estilo Stoichkov dos anos 90.
Seguindo o jogo contra a Suíça (equipa calculista que foi baixando o ritmo até selar um frio 0-0) viu-se uma equipa em permanentemente em conflito consigo mesma. Joga num 4x2x3x1 agressivo. Puxou Manolev, lateral no PSV, para médio-ala direito e fixou o veterano Petrov, anterior playmaker, a pivot-defensivo. Na esquerda, Delev é muito perigoso nas diagonais, mas o jogador que melhor incorpora o tal ADN temperamental búlgaro é o segundo avançado Popov, de 23 anos (Gaziantepspor). A cada bola que pega, arranca para cima dos defesas, finta, remata, cai, levanta-se, esbraceja e no fim é capaz de reclamar com os colegas que não perceberam a jogada. No meio de tudo isto, fica uma certeza. É bom jogador, nos pés. Com outra cabeça, seria muito melhor.

 

 

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