Viver ou jogar, sendo “The Body”

14 de Junho de 2009
O talento e o corpo: Para qual é preciso trabalhar mais? Futebol e «top-models», buscando ideais.

 

Desconfio muito, sempre desconfiei, dos chamados ideais de estética corporal. Em tudo na vida. Existem, claro, traços e curvas que falam melhor sobre sedução, mas tratam-se, quase sempre, de modelos estáticos. O verdadeiro poder da estética, e sua sedução, detecta-se na mobilidade. E, nesses casos, o mundo pode virar-se de pernas para o ar. Ainda bem.
 
Elle Macpherson foi uma super top-model que, pela sua longa e fantástica estética corporal, foi definida como “The Body”. O corpo perfeito. Vinte anos depois, o nome permanece. “À medida que fui envelhecendo, fui me tornando mais sensata e capaz de fazer as coisas com maior elegância e inspiração”, diz hoje. Manteve a moldura, mas sentiu que a imagem por si só não sobrevive face à mobilidade da crença.
 
Viver sendo The Body. Atravessar o tempo com ele. Elegância e Inspiração são duas boas palavras para o fazer. Na moda, como no futebol. Mundos distantes? Não. Ambos vivem (d)esse jogo de imagens. Um “pequeno mundo” que, com a imagem parada (um frame apenas) tenta devorar todas as crenças. Mas não consegue.
 
Valdano disse que Ronaldo era um “postal futebolístico”. A imagem, pura e simples. “Mas ninguém tem um corpo daqueles sem trabalhar muitíssimo”, acrescenta. Eis o futebol, móvel e complexo. De cada vez que festeja o golo tirando a camisola, exibindo as curvas dos músculos, essa imagem tem mais força que a do remate segundos antes. A foto do festejo vende mais que a do golo. Parece uma união perfeita. The football Body. Imagem e jogo. A ordem das palavras não é aleatória.
 
Mas, alguém se recorda de ver Messi festejar um golo tirando a camisola? No outro extremo da estética corporal que a imagem glorifica, basta 1,69m. para mostrar a outra face da moeda do postal futebolístico. Ele é a antítese da beleza esculpida. Começou a envelhecer aos 13 anos, quando problemas ósseos punham em dúvida se pudesse até andar, quanto mais jogar futebol.
 
Vejo-o jogar e acabo sempre a pensar: Ninguém tem um talento daqueles sem trabalhar muitíssimo. Qual é a única palavra que muda em relação à frase de Valdano? Talento. Em vez de “corpo”. Um talento feito com “elegância e inspiração”. Sereno em cada sorriso trocista para com o jogo, em cada movimento.
 
Quando uma vez, também no seu auge nas passereles, perguntaram a Claudia Schifer se não a incomodava alguns jogadores de futebol ganharem mais dinheiro do que ela, respondeu que “Não, nada. Porquê isso acontece? Talvez porque se movem melhor do que eu!”. São artes de sedução diferentes, mas é nesse mundo quase de fantasia –aquele que coloca o debate sobre o melhor do mundo entre The Body musculado com 1,85m. e 78kg. e um pibe baixote, 1,69m. e 67kg.- que mora o grande drible que o futebol faz aos ideais de estética corporal. Brinca e ri-se deles, porque, no território da imagem esse debate seria absurdo. No território da relva, porém, o mundo vira-se de pernas para o ar. É por isso que gosto tanto de futebol. E de top-models. É a importância da mobilidade da imagem.  
 

Artigos Relacionados

  • SATÉLITE «HC» SATÉLITE «HC» 16 de Janeiro de 2012 Desde o Qatar, pensamentos de futebol de Helena Costa. Satelite no `Planeta do Futebol`
  • “Pressa” de pensar bom futebol “Pressa” de pensar bom futebol 31 de Dezembro de 2011 Quando os jogadores são bons de verdade, se eles não vão ter com a bola, vai a bola ter com eles. Não...
  • Qatar: Sentimentos de um futebol Qatar: Sentimentos de um futebol 1 de Dezembro de 2011 O sucesso é muito mais complexo do que o resultado de um jogo (Helena Costa no Qatar)
  •  Primeiros 7 anos! Primeiros 7 anos! 1 de Novembro de 2011 A história dos primeiros anos de Ferguson em Old Trafford, quando muitos chegaram a pedir a sua demissão.....
  • Criar neurónios                                                                                                                                                                                          Criar neurónios ... 18 de Outubro de 2011 O impacto de convidar uma jovem para jogar futebol numa cultura islâmica (Helena Costa, Qatar)