Voando sobre um ninho de águias

7 de Dezembro de 2007
Cardozo, Rui Patrício e Quaresma. O futebol é uma “montanha russa” de heróis e vilões. No relvado como no “pano verde” de um casino. A psicologia do jogador.
O ponta-de-lança e o guarda-redes. Mais do que outro jogador em campo, eles sentem o peso da responsabilidade. A bola anda por muitos outros lugares mas é quando se aproxima dos pés ou das mãos daquelas duas espécies futebolísticas que o seu destino final será escrito. O golo. Marcar ou evitá-lo. Uma das melhores coisas no futebol é que existe sempre uma segunda oportunidade para vingar o fracasso. Penso, claro, na carreira do futebolista. Seria nesse ponto que estaria o estado de ânimo de um “perna-longa” ponta-de-lança paraguaio em acelerado processo de entristecimento no habitat da Luz. Como na filosofia de Camacho o “pormenor” do golo é a única origem bíblica do bom ou do mau jogo da equipa, Cardozo tem muito a ver com isso. Marcar golos e tornar o projecto vencedor. Falhar e carregar com o peso da simplista análise final. No gelo da Ucrânia, com luvas, collants, gola alta, fita na cabeça a cobrir as orelhas. De repente, uma bola perdida. Passa o guarda-redes, golo. Depois, um “petardo” do meio da rua. A rasar a barra. Até que surge o supremo desafio. Centro bem tirado e a obrigação de jogar nas alturas. Cabeceamento perfeito, golo. 0-2. É difícil decifrar onde se esconde a motivação de um jogador. Vê-se um grande plano de Cardozo e parece assustado. Há quem diga que, nestas alturas, o que estes jogadores precisam é de carinho. Talvez. Precisam é de alguém, o treinador de preferência, que consiga entrar dentro da cabeça deles. Como um ladrão a mexer num cofre. De repente, “clique!” Entrei. A psicologia no futebol precisa do cheiro do balneário. O jogador de futebol só acredita no que vê. Desconfia do que ouve e esquece logo a seguir. Na Luz, é Cardozo a sondar ele próprio o cofre onde, na sua mente, se esconde o seu melhor futebol. Em Donetsk, três dias depois de perder com o FC Porto, o Benfica renasceu. Não evoluiu na forma de jogar, nem deu diferentes razões para sorrir quanto ao futuro. A diferença foi mesmo que a bola entrou.
Em Alvalade, a imagem de Rui Patrício, de braços no ar a pedir desculpa por ter largado uma bola “morta”, oferecendo o golo do empate ao Leiria, afastou a tentação do assobio. Há momentos que viram metralhadoras na cabeça dos jogadores. Em campo, a quente, estão os consolos dos companheiros. O problema surge redobrado quando o ambiente arrefece. É impossível fugir dos pensamentos. Em casa, nos semáforos vermelhos, a tomar café, fecha-se os olhos e a jogada repete-se na mente. Como foi possível? Os dias seguintes serão a imaginar outros desfechos do lance. Mais do que o treinador ou o adepto, o futebolista joga três jogos diferentes. O imaginado, antes do jogo, o real, durante os 90 minutos e o posterior, revendo tudo o que se passou. Qual o mais importante? Claro que é no real que tudo se decide, mas, vendo bem, o primeiro e o terceiro disputam-se simultaneamente. E, em geral, o real depende muito deles. Cardozo e Rui Patrício vivem na “montanha russa” do futebol actual. Quaresma é diferente. É mais um jogador de “casino”. Dos que mesmo a perder continua a apostar as fichas todas. Em campo, tenta a primeira finta e ela não sai. Falha outra a seguir. Começa a ouvir assobios. Na próxima já são os colegas que se irritam pois podia ter passado a bola. As criticas sobem de tom. O jogador, no campo e no casino, não pestaneja. O “pano verde” é o relvado. E, na jogada seguinte, na aposta seguinte, acerta em cheio. Jackpot, golo! É a psicologia do “gambler” da bola. Os três irão pensar no jogo seguinte de forma diferente. Porque têm cabeças diferentes. Por vivem em clubes diferentes, com treinadores diferentes. A solução passa sempre por fintar o destino. O futebol nunca é um “livro fechado”.

Luvas e samba

Quando se analisam guarda-redes, é comum, muitas vezes, antes de qualquer valoração mais atenta, começar logo por dizer: “Tem pinta de guarda-redes!” ou “Humm…não inspira confiança!”. É algo que se sente só de olhar. Mais nenhuma posição è susceptível de um julgamento tão sumário. Injusto, por vezes. Quanto mais sóbrio e mais capaz de dar a sensação de encher a baliza, melhor parece um guarda-redes. Mais confiança inspira, portanto. Helton não é, à primeira vista, esse tipo de guarda-redes. É estranho ver um guarda-redes de calças. Olhamos para ele, o seu ar gingão e imaginámo-lo mais depressa com um violão e um tamborim do que como guardião de uma baliza. Não é que as redes sejam só para quem gosta de música clássica, mas o samba de Helton é, por vezes, um som estranho na baliza azul e branca. Ninguém como ele repõe a bola com as mãos em jogo. Sabe voar para a bola, mas nunca entendi aquela teoria do guarda-redes também dever ser um pouco louco. A baliza é o único lugar em campo onde prefiro sempre a razão à emoção.

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