Sempre envolto numa nuvem de fumo, passos lentos, olhar sombrio e a voz rouca discursando pausadamente num tom entre o sarcástico e o contestário: Zdenek Zeman. Nenhum outro treinador, desde a era-Sacchi, abalou tanto o futebol italiano como este checo, tanto dentro dos relvados, partidário de um futebol ofensivo que surgiu pela primeira vez no fantástico Foggia de inicio dos anos 90, com Signori e Baiano, como também fora deles, onde emergiu como uma voz ensurdecedora contra o doping que, dizia, estava a minar o Calcio. Acintoso nas suas denúncias, tal batalha apenas lhe valeu, porém, que todo o status do futebol italiano lhe virasse as costas e, desde esses dias, entre 98 e 99, nunca mais voltou aos grandes palcos. A época passada, profetizando o mesmo jogo ofensivo, arrastou-se, orgulhosamente, no Avelino, com a lanterna vermelha da Série B. Aos 57 anos, quando muitos já o tinham colocado numa prateleira do museu, regressa á frente do Lecce, uma equipa feita á sua imagem, em 4x3x3, um trinco (Ledesma), alas (Giacomazi-Dalla Bona), um criativo (Eremenko) e sempre um tridente ofensivo: Bojinov-Pinardi-Bjelanovic, actual 2º classificado na Liga italiana.
Num ápice, os adeptos do futebol sem amarras defensivas, voltaram a erguer-se, ansiosos para ver como o seu carácter e estilo continua imutável, mesmo após todos estes anos de, digamos, exílio forçado. Zeman é um treinador insusceptível de ser rotulado com alguma corrente. Tem a escola do belo futebol checo, mas basta olhar para o seu palmarés para se concluir que as suas maiores vitórias residem, sobretudo, em ter cativado os adeptos do bom futebol quando passou por Foggia, Lazio, Roma e, agora, Lecce. Tudo isto pode parecer um argumento quixotesco desenquadrado do futebol moderno, mas, na verdade, Zeman, que também não é um santo, longe disso, é mais do que um romântico cavaleiro andante lutando contra os moinhos de vento do Calcio. É um não-alinhado para quem o único compromisso é com o verdadeiro futebol. Ganhar ou perder, é outra questão.