As árvores tácticas

21 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (15)

Oito seleções, quartos-final. Os traços de bom futebol adquirem vários rostos. Uma das formas de melhor perceber como jogam é ver como pretendem...começar a jogar. O espaço à frente da defesa, o espaço do(s) pivot(s) é a, nesse contexto táctico, a melhor referência: Umas só com um ocupante nessa zona, outras articularam combinações para que o duplo-pivot não fique fixo. No sistema, manda o 4x3x3 e suas variantes (criadas, sobretudo, pelos movimentos dos médios de segunda linha).

Portugal, Espanha, França, Grécia e Rep.Checa são, cada qual no seu modelo: 4x3x3. Inglaterra: 4x4x2 (mas quando Rooney recua uns metros, parece 4x2x3x1. Alemanha: parte em 4x2x3x1, com o duplo-pivot Khedira-Schweinsteiger, mas no decorrer do jogo solta um deles (Schweinsteiger) para se aproximar de Ozil, o 10. Itália: alterna entre 3x5x2 e 4x4x2 (versão 4x3x1x2).

Apesar de ser a que muda mais de sistema, mantem sempre só um pivot, Pirlo, o 6 mais construtivo táctica e tecnicamente do Euro. Portugal tem Veloso, de quem, no inicio, se receava a tendência de jogar a diesel, mas que aumentou claramente de intensidade de jogo. Faz muito bem o primeiro passe de transição e mete a bola a circular.

A Espanha é a que tem o debate táctico maior nessa zona onde muitas vezes se sobrepõem Busquets e Xabi Alonso, embora se note a intenção de subir mais Busquets, pois Xabi Alonso tem maior capacidade de passe mais longo. A Grécia tem Katsouranis que sabe tudo sobre jogar a 6, tal a experiência acumulada ao longo da carreira no trabalho burocrático do meio-campo.

Combina contenção com o inicio de circulação. A Inglaterra, em 4x4x2, parte de duplo-pivot, mas tem sido Parker, que é um 8 de origem, a pegar no jogo na saída de bola, ocupando o espaço que seria do lesionado Barry (mais trinco). Com esta alteração, o onze melhorou a forma de sair a jogar.

Todas estas equipas têm diferentes princípios de jogo nas outras linhas do meio-campo (e forma de criar desequilíbrios para ultimo passe) mas uma conclusão táctica é clara: as que começam a jogar com apenas um pivot nesse espaço são as que...acabam a jogar melhor.

Diarra e o trinco checo

Os dois pivots mais posicionais destas oito seleções são Diarra (França) e Hubschman (Rep.Checa). Diarra entrou no espaço do lesionado M`Vila e revela sentido posicional perfeito, quer a gerir o equilíbrio defensivo (âncora à frente da defesa) como a subir uns metros quando a equipa ataca e a ficar parado esperando que a bola circule por trás, funcionando então como placa-giratória para ir virando jogo quando a segunda linha do meio-campo sente necessidade de, em construção, fazer um passe atrasado.

Hubschman é, de todos, o 6 mais trinco. Uma árvore no sentido táctico do termo, plantado á frente da defesa. Equilibra as transições e organização defensiva do onze checo que, no primeiro jogo com a Rússia (derrota 1-4) jogara em 4x2x3x1 com o duplo-pivot Jirasek-Plasil. Agora em 4x3x3 ou 4x1x4x1 (quando recua sem bola em organização), Hubschman aguenta a posição, corta e faz o primeiro passe, curto, sem inventar, de inicio de transição. Um exemplo perfeito de uma equipa que passou a atacar melhor a partir da entrada de um...trinco. Questão de equilíbrios que só um nº6 sábio tacticamente pode dar.