As Chuteiras São Para Voar

02 de Março de 2017

O que começa a voar primeiro, a bola ou o jogador? Na ação real, é a bola. No pensamento que decide, é o jogador. Está nessa estranha percepção de que a ação precede o pensamento, o descodificador da rápida bicicleta de Hernâni na área do Chaves com tantos jogadores a lutar pela bola até esta aparecer ao seu jeito...de um remate em bicicleta que entrou mesmo no ângulo.

Assim, começou o Vitória a congeminar a ida ao Jamor que depois o mesmo Hernâni aumentou após um passe teleguiado à distância de Tozé (entrou e no primeiro toque.. tocou no jogo com uma “varinha de condão”).

Pedro Martins percebeu, por fim, que o Vitória pós-Soares não pode ser apenas um onze com um novo nº9 transplantado para a sua posição. Rafael Martins regressou o nosso futebol fora de forma de ritmo de jogo (para além de ter características muito distintas do antecessor) e a equipa ressentiu-se disso.

Metendo o corpulento (mas tecnicamente limitado) Marega a nº9 e promovendo trocas posicionais (que ainda não surgiram porque Sturgeon ainda está a conhecer a equipa... e ele a equipa) criou um trio móvel na frente (deixando Hernâni ou Rafinha mais verticais) que se não inventa uma nova forma de joga, inventa uma nova forma de.. atacar e deixa de ser previsível para os adversários.

Contra o Chaves conseguiu também gerir os ritmos de jogo e, a ganhar, baixar a organização defensiva em bloco retirando profundidade aos ataques rápidos que fazem a essência do modelo flaviense, embora esta equipa esteja com Ricardo Soares mais culta por principio de jogo em posse do que a anterior de Jorge Simão. Não se trata de ser melhor ou pior. Trata-se de respeitar (e querer) ter mais a bola.

As características dos jogadores favorecem isso a meio-campo (Tiba-Bressan-Braga) em relação aos do passado (Assis-Battaglia) pelo que ganhou nesse aspecto, melhorou no jogo em posse, perdeu no anterior, piorou na reação à perda da posse. As bases do bom futebol estão, porém, sempre presentes e Ricardo Soares já ganhou um lugar de destaque no “campeonato das ideias de jogo”.

Da outra meia-final, ficou mais uma vez evidente o “pacto com as balizas” de Mitroglou no Benfica e como tem crescido o Estoril de Carmona. No centro, um jogador que destaquei aqui há dias: Eduardo. Um médio a quem é difícil definir uma posição mas que ajuda a avançar-recuar-avançar de forma decisiva no meio-campo. No fundo, é a personificação do que deve ser uma equipa competitiva: um bloco com ligação permanente entre os diferentes sectores sem deixar que os adversários se metem no meio deles (nas suas costas), momento em que o controlo do jogo (e das jogadas mas perigosas) muda imediatamente.