As diferentes formas de “liderança”

13 de Abril de 2015

As diferentes formas de “liderança”

Causou impacto as imagens de Bielsa no balneário do Marselha após perder, fazendo uma exibição fantástica, com o PSG. Os jogadores estavam sentados, desiludidos, em silêncio, e Bielsa falava como “aprender a viver aceitando a injustiça” e como isso pode ser motivacional para buscar a recompensa final.

É corrente quando uma equipa não rende, falar-se que aquele grupo de jogadores – sobretudo equipas grandes com tantos egos - precisa duma liderança com mão “mais dura”. Foi dito sobre Ancelotti no Real Madrid, mas o italiano não tremeu: “com esta mão leve já ganhei três Champions!”, respondeu.

As lideranças fortes não são todas obrigatoriamente de “mão dura”.

Ancelotti, Mourinho, Capello ou Simone, vários processos para levar um grupo até ao mesmo caminho. O “treinador do grito” perde terreno num tempo em que o estudo do comportamento humano tem de ser mais evoluído.

Kloop diz que “não tem de ser amigo dos jogadores, mas todos os jogadores devem ser meus amigos”.

Simeone é visto como o “treinador motivacional” de referência. Em “A motivação como estratégia” revela como entra na cabeça dos jogadores. No fundo, tudo se resume a isso. Não é fácil, porém, esse tipo de liderança.

Mourinho consegue-o num jogo de aproximação e distanciamento que tem os jogadores sempre controlados. O único clube onde esse estilo falhou foi no Real Madrid quando atacou os “donos do balneário”. Já vi muitos treinadores ganhar sem apoio do presidente, nunca vi nenhum sem apoio dos jogadores.

Convencer um jogador tem diferentes meios. Conta Bielsa em “Suficientemente loco” que uma vez o extremo Pose, num jogo em que além de atacar tinha também de marcar as subidas do lateral, o veloz Sorin, chegou ao intervalo esbaforido: “Professor, andar a persegui-lo deixa-me estourado porque perco depois força para atacar”. Bielsa fez sinal de compreender: “Sim, não se preocupe. No inicio da segunda parte, fala com ele e se o convencer que deixe de passar o meio-campo, tem o problema resolvido”.

A resposta foi engraçada mas implacável. O esforço é inegociável. Pode é ser transmitido de forma mais dura ou subtil. Tom Peters, guru da gestão, defende em “Em busca da excelência” a tese da “liderança por vagabundagem”. Ou seja, andar vagueando por entre a equipa, sem direção, sendo parte dela, lendo olhares e mentes para a entender e seduzir.

Ancelotti tem o perfil de liderança indicado para fazer o pacto de egos no balneário de Madrid, mas, no passado, Capello, protótipo do “treinador mão dura”, já tinha ganho no Bernabéu. Acabaria por cair também agarrado a isso. Um destino que se explica no “Príncipe” de Maquiavel, hoje visto também como livro de gestão: algumas “virtudes” levam os príncipes ao desaparecimento, alguns “vícios” são o que os faz sobreviver.

NUNCA JOGAR O “ÚLTIMO JOGO”

A meio a semana, após empate com o Córdoba, Fernandez foi despedido de treinador do Corunha. O mais impressionante foi como no fim, sem comunicação oficial, disse que aquele seria de certeza o seu último jogo porque o Presidente já lhe telefonara na segunda-feira. Não revelou a conversa e falou, emocionado, do apoio dos jogadores. Ficara, claro, que sabia que se não ganhasse aquele jogo, após vários maus resultados, seria demitido. E foi.

É difícil entender que tudo isto seja compatível com projetos de liderança num futuro clube. Ou seja, há um principio que vejo claro: quando um treinador tem a noção que depende do próximo jogo, o melhor que tem a fazer é nem sequer o jogar.

Todos estes treinadores, perfis diferentes, têm uma curiosa lógica nos seus atos. Mais do que diferentes formas de liderança, expressam diferentes forma de personalidade. Porque, como diz Simeone: “sabemos muitas vezes que os adversários são melhores do que nós, mas isso não quer dizer que joguem melhor do que nós!”