AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003

11 de Agosto de 2003

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003

O seu futebol é calor que provoca arrepio. Alex, do Cruzeiro, Káká, do São Paulo e Diego, do Santos. Estrelas de um futebol tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Dengosos, aliando a classe técnica á capacidade atlética com e sem bola, eles são protótipos do novo futebolista brasileiro, aquele que olhou de lado a bela mas leve e muitas vezes pouco competitiva arte carioca, e criou um novo estilo para emoldurar os requintes artísticos canarinhos, dando-lhes, em muitas ocasiões, quase um rosto europeu, decisivo para, aumentando-lhe os níveis físicos e tácticos, subir o seu poder competitivo quer a nível de clubes como de selecção. Mais do que um sinal dos tempos, esta distinta expressão futebolística, é, também, a imagem da diversidade de estilos existentes no futebol brasileiro, onde, por exemplo, não existe, qualquer ponto de contacto, entre o lento e tecnicista futebol carioca, e o mais musculado e atlético, praticado pelos clubes do Sul.

Uma dicotomia, desde logo, também determinada pelos distintos climas, desde o sol e calor do Rio, onde se vai á praia o ano inteiro, até ao clima continental da região sul, onde no inverno faz frio e o termómetro baixa, morada de três das sensações desta época: o Internacional de Porto Alegre, do Rio Grande Sul, o Criciúma de Santa Catarina, e o Coritiba do Paraná, três Estados do Sul brasileiro, na senda de outras recentes campeões vindos das mesmas paragens, como o At.Paranaense (campeão em 2001), do Paraná, e, claro, o Grémio de Porto Alegre. Ao mesmo tempo, assiste-se á crise do futebol carioca, sobretudo após a quebra do Vasco da Gama, o último clube a vencer o Brasileirão (1997 e 2000), mas hoje perdido no 18º lugar da tabela. O clube carioca melhor colocado, neste momento, é o Flamengo (14º). O Fluminense de Romário está em 22º e o Botafogo está... na II Divisão.

Um cenário que muitos estudiosos disseram tratar-se da vitória do chamado estilo-Dunga sobre o estilo-Zico, mas, numa análise mais atenta, apenas prova as novas tendências do dito futebol moderno, onde o ritmo de jogo aumentou e o tempo para pensar diminuiu. Neste contexto, em termos internos, a última década solidificou o domínio do futebol paulista como aquele que, com cinco títulos, melhor soube conciliar a técnica com a táctica. Uma mescla conseguida por S.Paulo, Santos, Corinthians, S.Caetano e, em anos anteriores, o Palmeiras, hoje na II Divisão. Todo este contraste de estilos torna-se, agora, mais evidente, pelo facto de, pela primeira vez na história, o campeonato brasileiro disputar-se nos moldes europeus, de duas voltas e campeão por pontos, jogando todos contra todos. Um novo sistema que, até ao momento, inspirou a equipa brasileira com estilo de jogo mais europeu, o Cruzeiro de Belo Horizonte, orientada por um confesso adepto da escola holandesa, Wanderley Luxemburgo, um estudioso táctico por natureza, o mais multicultural técnico brasileiro, sempre aberto a influências estrangeiras. No passado, já zurzira times com o mesmo design técnico-táctico. Hoje, sonha levar o Cruzeiro á conquista do seu primeiro titulo de campeão brasileiro.

CRUZEIRO: O Império do primeiro toque

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003Treinador: Wanderley Luxemburgo Sistema táctico base: 4x4x2 (variante:4x3x1x2)

Apesar das individualidades, o azulão impõe-se, sobretudo, pelo seu futebol colectivista, onde há respeito pelo drible, mas no qual a principal arma é a velozes troca de passes, em um, dois toques, com rápidas triangulações nos últimos 20 metros. Tacticamente, a base é o 4x4x2, na variante 4x3x1x2, com os centrais saídos do trio Luisão-Cris-Edu Dracena, e um meio campo com três volantes e um médio enganche que faz a ligação ao ataque. Um esquema que coloca Maldonado, o chileno cabeça de área que faz circular a bola, na zona da meia-lua, ligeiramente atrás de Augusto Recife, o organizador central que, com grande precisão de passe, curto ou longo, abre o jogo nas alas, apoiado pelo veterano Zinho, já sem grande velocidade, mas exímio a executar o chamado peão.

Isto é, pede a bola, recebe, passa e de imediato aproxima-se para a receber novamente. Pelos flancos, surgem, sobretudo, os laterais: Maurinho, á direita e Leandro Silva, á esquerda. Quando eles sobem, Maldonado e Recife abrem para cobrir as faixas e Alex ou Zinho aproximam-se para receber a bola e tabelar. Desta forma, o losango é feito pelas subidas dos laterais, com Alex, o maestro esquerdino, rasgando de trás, abrindo espaços de penetração. No ataque, do qual saiu, há poucas semanas, para o Bordeaux, a sua principal estrela, Deivid, um avançado goleador com astúcia, o artilheiro-mor continua a ser o colombiano Aristizabal. Nos últimos jogos, face a algumas ausências, Luxemburgo tem experimentado o 3x5x2, mas é claramente em 4x4x2, com os espaços melhor preenchidos, que a equipa se sente melhor.

SANTOS O “time moleque” continua a crescer

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003Treinador: Emerson Leão Sistema táctico: 4x4x2 (variante: 4x1x2x1x2)

Campeão em 2002, é, internacionalmente, com os seus meninos de Vila Belmiro, o novo grande embaixador do futebol brasileiro. Esquematizado preferencialmente em 4x3x1x2, que a atacar se torna em 4x1x2x1x2 e, a defender, quase em 4x4x1x1, este Santos de Leão é mais uma prova da evolução táctica do futebol brasileiro. Um onze moleque mas com grande disciplina táctica posicional, com e sem bola. Na defesa, sempre estruturada a «4», impõe-se uma possante dupla de centrais Alex-Pereira. Muito seguros a defender, falta-lhes, porém, alguma classe em sair a jogar. Nas laterais, destaca-se Leo, á esquerda, sabe defender e atacar com perigo. A meio campo, reparem no cabeça-de-área, trinco, Paulo Almeida. Lento, meio entroncado é o jogador menos elegante do onze, mas, será, talvez, o mais importante para lhe dar consistência defesa-ataque. Joga nas costas do meio campo e á frente da defesa, quase sempre curto e de primeira, sem inventar.

Está sempre no caminho da bola. No seu apoio, estão, Renato e Elano, ambos jogadores discreto, mas indispensáveis, muito atentos a defender, fazendo, como aliás toda a equipa, desde o ponta-de-lança ao central, a marcação á zona, iniciada logo que o adversário recupera a bola na defesa. No centro, o grande maestro: Diego, 18 anos, um nº10 de grande categoria. Bola colada ao pé, cabeça levantada, organiza e distribui jogo. Um craque de dimensão imensa. No ataque, Robinho, vagabundeando pelos flancos, Fabiano descaindo mais a direita, e, como centro-avante fixo, Ricardo Oliveira, a revelação goleadora.

SÃO PAULO: A máquina de Káká e Ricardinho

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003Treinador: Roberto Rojas (substituiu Oswaldo Oliveira) Sistema táctico: 4x4x2 (variante: 4x1x3x1x1)

Dos três maiores candidatos, é a equipa que revela, mesmo quando altera o seo onze-base, maior solidez competitiva, fruto da coesão táctica do seu bem desenhado 4x4x2, assente num forte meio campo, onde brilham dois maestros: Ricardinho, o motor esquerdino, e Káká, o génio que, neste momento, escreve os mais belos poemas do actual futebol brasileiro. Como cabeça de área, emergiu o farol Júlio Baptista, 22 anos, mas, após a Gold Cup, foi vendido para o Sevilha. O novo chefe do sector será, talvez, o operário Fábio Simplício, faz a marcação e inicia a saía de bola. As outras opções, são o volante Carlos Alberto, o lutador Marco António, e, nas alas, Alexandre, á direita, algo lento mas excelente tacticamente, e Adriano, á esquerda, exímio em verticalizar movimentos. Na defesa, junto do experiente Gustavo Nery, dois nomes a fixar: Jean, um zagueiro de classe, e Fabiano, um excelente lateral esquerdo ofensivo, a rasgar ou a tabelar, mas sempre elegante e tecnicista. A dimensão goleadora do onze surge, no ataque, após a saída de Reinaldo para o PSG, sobretudo com a acção de Luis Fabiano, actualmente o ponta-de-lança em melhor forma a jogar no Brasil. Excelente tecnicamente, sabe tabelar, segurar a bola, driblar e ganhar no corpo-a-corpo. É o tipo de nº9 de área, possante, que, mesmo ser muito rápido, ganha sempre espaço para rematar. Sem Reinaldo, Káká tem surgido mais adiantado.

Á espera de oportunidade, estão Diego Tardelli, 19 anos, e o talentoso Rico, 22 anos, algo individualista mas com uma arrancada demolidora. Sempre que entra faz estragos.

CORITIBA: O perfume ofensivo do 3x5x2

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003Treinador: Paulo Bonamigo Sistema táctico: 3x5x2 (Variante 3x4x3)

Uma das equipas com estilo de jogo mais sedutor no actual futebol brasileiro, que sabe, como poucas, jogar no contra-ataque. O sistema base é o 3x5x2, mas a dinâmica da táctica reside na rápida troca de bola em progressão, através de passes curtos.

A essência do onze mora num excelente meio campo, ao mesmo tempo tecnicista, operário e tacticamente sábio, apoiando uma dupla de avançados muito habilidosa. Nesta dinâmica, o elegante Tcheco é o principal organizador do colectivo, com grande visão de jogo, um pouco no estilo de Raí, técnica apurada, garra e objectividade nas acções ofensivas, á frente de Williams ou Roberto Brum, volantes em permanente movimento, fechando espaços á frente da defesa, pois como os três zagueiros (Odivan, um gigante, Edinho Baiano, central, e Reginaldo Nascimento, a dobrar) jogam em linha, é necessário maior apoio nas chamadas segundas bolas, sobre as quais também surgem, muitas vezes, o meia Jackson, um recuperador nato e um jogador crucial no transporte de bola para o ataque, onde muitas surge o desengonçado Lima, que também pode alinhar a meio campo, possante mas pouco criativo, reserva da terrível dupla titular, composta por Edu Salles, um avançado de movimentos verticais que, imaginativo e veloz, abre espaços, passa bem e inventa muitas jogas de perigo, e Marcel, um nº9 de 21 anos, com remate potente, muito oportuno, possante (1,87m.) e inteligente nas movimentações. Pelas alas, destaca-se o ofensivo lateral esquerdo Adriano, 19 anos, muito rápido, parece um jogador motorizado tal a velocidade com que sobre pelo seu flanco.

ATLETICO MINEIRO: A indomável garra mineira

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003Treinador: Marcelo Oliveira (substituiu Celso Roth á 22ª jornada) Sistema táctico: 3x5x2 (antes: 4x4x2)

Uma equipa que conheceu dois rostos tácticos. O primeiro, com o técnico Celso Roth, foi o 4x4x2. Após a sua demissão, surgiu, já em Agosto, Marcelo Oliveira, ex-treinador dos juniores a jogar em 3x5x2. Em ambos os reinados, mesmo sem nunca deslumbrar, a equipa demonstrou, sobretudo, grande espirito lutador. Na defesa, seja organizada a «3» como a «4», o comandante é elegante libero Ferrugem, algo lento a fazer a zona, mas que em 3x5x2 como que ganhou nova vida nas incursões ao ataque. A seu lado, Luiz Alberto e Schedt.

Nas laterais, Cicinho firma-se na direita. Marquinhos, Raniery e Michel alternam na esquerda. O jogador-chave do onze mora, no entanto, a meio campo, á frente da defesa: Marcelo Silva, um volante-armador incansável. Parte da zona central, vai á direita, á esquerda, está sempre no caminho da bola, recupera-a e transporta-a para o ataque, no que é apoiado por um garoto de 18 anos, Levi, irmão de Dedé que joga no Dortmund, um jogador de grande futuro. Como principal ligação ao ataque emergem dois homens: Alexandre, muito batalhador mas com pouca classe e um maestro nº10 recentemente regressado de Portugal, Tuxo, ex-Santa Clara, o jogador mais criativo da equipa, joga e faz jogar. Na linha da frente, três velhas raposas dos gramados brasileiros: Guilherme, um avançado que sabe colocar-se como poucos na área para receber e rematar a bola, Fábio Junior, fora de forma e muito assobiado pela torcida, e Alex Alves, belo jogador, com técnica e picardia, regressado do Hertha Berlim, onde o seu futebol ganhou grande maturidade competitiva.

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003

AS EQUIPAS E AS TÁCTICAS NO BRASILEIRÃO 2003

Internacional: Os garotos fantásticos de Porto Alegre

É a nova grande atracção do actual campeonato brasileiro, sensacional 4º classificado. Uma equipa com uma média de idades de apenas 24 anos, perfil moleque e futebol irreverente. Trata-se do novo e sedutor Internacional de Porto Alegre, congeminado, no banco, pelo realista Muracy Carvalho, e, no relvado, por um grupo de belos e jovens jogadores. Tacticamente esquematizado num ofensivo 3x5x2 que, na fase atacante se transforma, rapidamente, em 3x4x3, o onze tem a sua principal fonte de beleza futebolística na linha atacante, onde mora um grupo de craques ainda com a barba a nascer. Entre eles, uma dupla feita no clube que já joga junta desde os juniores: Nilmar, 19 anos, e Diego, 18, apoiados por Daniel Carvalho, 20. Os três juntos á solta, são capazes de colocar a cabeça á roda a qualquer defesa, por mais experiente que ele seja.

Exímio a receber bolas em profundidade metidas nas costas, rápido e oportuno, Nilmar, que esteve na Gold Cup, é um nº9 de remate fácil, tal como Daniel Carvalho, internacional Sub-20, muito inteligente nas movimentações, parece mais velho na forma de jogar. Mais recuado, Diego, que de inicio é o quinto elemento do meio campo, mas que se solta nas jogadas de ataque fazendo então o tal 3x4x3, é um driblador franzino, com 1,74m., grande responsável pelos penalties ou de livres á entrada da área que a equipa ganha. No meio campo, a base moleque nota-se nos toques do volante de contenção Cleiton Xavier, 20 anos, enquanto que nas alas destacam-se Edu Silva, á esquerda, e o paraguaio Gavilan, á direita. O maior traço de experiência é dado na defesa, onde está, sempre que as lesões o permitem, o veterano André Cruz, ex-Sporting, a tranquilidade em pessoa. Em termos de estilo, não é, no entanto, uma equipa de trocar muito a bola, optando por jogar em velocidade, com passes verticais mais ou menos longos, em vez do tradicional futebol apoiado brasileiro. Por isso, sente-se confortável a jogar em contra-ataque, aproveitando a irreverência dos seus garotos fantásticos.